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Revista MAD: o mimimi aniquilou-a?

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Se existe um cadáver pop-cultural que ainda exala cheiro de tinta fresca, é a Revista MAD. A publicação, que fez a alegria de gerações inteiras de leitores com suas paródias escrachadas, charges impiedosas e humor metalinguístico, sucumbiu a algo mais poderoso do que qualquer sátira: o tempo e o mercado editorial. MAD foi, por décadas, o laboratório onde se testava a ousadia gráfica, o sarcasmo político e o deboche aos mitos do consumo e da cultura de massa. A sua morte, portanto, não é só um obituário de papel. É um epitáfio para uma era de irreverência impressa.

A MAD nasceu em 1952, pelas mãos de Harvey Kurtzman, nas bancas norte-americanas como uma revista em quadrinhos que zombava da cultura pulp e das revistas de super-heróis. Era uma época em que o Código de Ética dos Quadrinhos engessava as editoras, e a MAD, como uma criança malcriada, respondia com escárnio. Quando Alfred E. Neuman virou mascote — aquele garoto de sorriso idiota e olhar vesgo —, a MAD consolidou uma identidade que misturava iconoclastia com uma estética própria: um humor mais próximo do teatro do absurdo do que da piada fácil. No Brasil, sua chegada nos anos 1970 encontrou um país em ditadura militar e censura, mas ainda assim fez escola. Seu humor era uma válvula de escape, com um subtexto que às vezes passava pela tesoura, mas frequentemente escapava.

“A trajetória da MAD também se confunde com a vida de seus criadores e principais colaboradores. Harvey Kurtzman, que saiu cedo da revista por brigas contratuais, já mostrava ali um padrão: a indústria não gosta de quem questiona seus lucros. Bill Gaines, editor e dono por décadas, manteve a revista irreverente mesmo sob pressão.”

No entanto, como tantas publicações impressas, a MAD sofreu com a digitalização das risadas. O que antes se esperava ansiosamente nas bancas mensais passou a pipocar em segundos no Twitter, no Instagram e, claro, no TikTok. O tempo de maturação do humor encurtou. A charge virou meme, o artigo virou thread, e a expectativa pelo próximo número virou um scroll infinito. A revista tentou se reinventar, apelou para reedições, capas nostálgicas, parcerias com celebridades e youtubers, mas já era tarde. Sua lógica editorial – dependente de longos prazos e equipes permanentes de cartunistas – era incompatível com a era dos virais instantâneos.

Outro fator crucial foi a perda de relevância cultural. Durante os anos 1970 a 1990, consumir MAD era um rito de passagem, um sinal de que você tinha senso crítico. Era como assistir “TV Pirata” ou ler Millôr Fernandes: um atestado de “eu entendo a piada”. Com a pulverização da cultura pop e a ascensão dos algoritmos, essa identidade se dissolveu. A juventude não precisa mais de uma revista impressa para zombar de políticos, celebridades ou blockbusters. Os canais de humor e sátira se multiplicaram e se fragmentaram. A MAD virou uma veterana elegante, mas cansada, disputando atenção com influenciadores digitais e páginas anônimas que fazem humor tão corrosivo quanto o dela — mas com custo zero e em tempo real.

A queda da MAD e o fim do humor lento

A trajetória da MAD também se confunde com a vida de seus criadores e principais colaboradores. Harvey Kurtzman, que saiu cedo da revista por brigas contratuais, já mostrava ali um padrão: a indústria não gosta de quem questiona seus lucros. Bill Gaines, editor e dono por décadas, manteve a revista irreverente mesmo sob pressão. Mas ambos envelheceram e viram o mundo mudar. Nos Estados Unidos dos anos 2000, a Warner (detentora da MAD) tratava a publicação como um ativo secundário, sem investir no digital ou em novos formatos de humor gráfico. Era como se esperassem que o charme vintage fosse suficiente. Não foi.

No Brasil, o declínio coincidiu com a crise das bancas, o fim das revistas semanais tradicionais e a ascensão das redes sociais como arenas de sátira política e cultural. Se antes um jovem podia conhecer Laerte, Angeli ou Glauco pela leitura da MAD e afins, agora encontra influenciadores e páginas de memes. O elo que formava gerações inteiras de humoristas foi se rompendo. O resultado? Uma MAD cada vez mais isolada, vivendo de republicações e tentando manter viva uma chama que o vento digital insistia em apagar.

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Curiosamente, o fim da MAD não significa o fim do espírito MAD. O humor corrosivo, o absurdo como método crítico e a paródia inteligente seguem vivos – só mudaram de plataforma. Basta abrir um TikTok, um canal de stand-up, um meme viral, para ver que Alfred E. Neuman ainda sorri, invisível, zombando de todos nós. A diferença é que, sem uma redação curadora, a qualidade varia. Se na MAD havia uma linha editorial, no ambiente digital há apenas um oceano caótico de conteúdos.

Essa transição também expõe um paradoxo. A MAD ensinou gerações a desconfiar dos discursos oficiais, mas dependia de um formato oficial – a revista impressa – para existir. Ao perder essa base material, perdeu também sua aura. A experiência tátil, o cheiro do papel, as margens rabiscadas pelos leitores, tudo isso dava densidade ao humor. Online, a piada é efêmera, consumida e descartada em segundos. Talvez seja inevitável: o mundo mudou e levou consigo a paciência para saborear um deboche bem diagramado.

A MAD nasceu em 1952, pelas mãos do irreverente Harvey Kurtzman (Foto: Amazon)
A MAD nasceu em 1952, pelas mãos do irreverente Harvey Kurtzman (Foto: Amazon)

No fim, a pergunta “por que a MAD acabou?” é um espelho para um tempo mais amplo. Não é só sobre a revista. É sobre o tipo de humor que ela representava – um humor que exigia leitura, atenção e contexto. Sua morte não é uma tragédia isolada, mas o sintoma de uma nova ecologia cultural. O legado da MAD está naquilo que inspirou: humoristas, cartunistas, roteiristas, redatores e designers que aprenderam que rir de tudo é uma forma de resistir. Mesmo sem estar nas bancas, a MAD ainda é uma sombra zombeteira pairando sobre nós, lembrando que todo império, inclusive o do entretenimento, é ridículo.

Querendo ou não, a MAD encerrou uma era e abriu espaço para outra. Cabe a nós decidir se esse novo humor – instantâneo, fragmentado, muitas vezes sem filtro – mantém a coragem crítica ou se vira apenas ruído. No mínimo, podemos agradecer à revista por ter nos ensinado a não levar nada, nem mesmo o fim dela, tão a sério. Afinal, como diria Alfred E. Neuman: “What, me worry?” — ou, em bom português, “E eu lá com isso?”.


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