Como entender a síntese da Filosofia Hermética

 Lúcia Helena Galvão

“Caibalion” é o termo dado à síntese de ensinamentos da Filosofia Hermética, nascida no Antigo Egito e na Grécia Antiga. Esses conhecimentos foram transmitidos oralmente durante séculos, até ganhar uma compilação em 1908, nos EUA, e, posteriormente, em 1912 no Brasil, pela Editora Pensamento. Hoje, os princípios do Caibalion são estudados por muita gente, porém, nem sempre são compreendidos em sua totalidade ou mesmo praticados. Para tornar essa filosofia mais agradável e passível de ser utilizada no mundo contemporâneo, a professora da Nova Acrópole do Brasil, Lúcia Helena Galvão está lançando o livro “Para Entender o Caibalion” (Editora Pensamento). O Hermetismo teria sido criado no Egito por Hermes Trismegisto. Sua memória e ensinamentos se perpetuaram pelo discurso de seguidores até ganhar 18 tratados escritos entre os anos de 100 e 300 d.C. Profundos e criados para sugerir reflexões sobre a vida, esses estudos ganham agora uma análise fundamental que “descomplica” e traz para a prática dos dias atuais seus conceitos. Lúcia Helena Galvão, professora de filosofia da organização internacional Nova Acrópole, e um fenômeno na internet por conta de suas aulas assistidas por milhares de pessoas, realizou mais de 15 palestras e aulas sobre o Caibalion e é uma das estudiosas do tema mais conhecidas e importantes da atualidade. Lúcia aborda temas como ética, sociopolítica, simbologia, história da filosofia, entre outros, de forma fácil e cheia de exemplos do nosso dia a dia.

Professora, antes de entrar no assunto “Caibalion”, gostaria de falar sobre outro tema que está em evidência na atualidade que é o Estoicismo. Como analisa esse movimento atualmente?

O Estoicismo é um movimento filosófico greco-romano que prezava pela vida moral rigorosa, sem desvios, e o ensinamento mediante o exemplo. Foi uma poderosa ferramenta de apoio em momentos em que tanto Grécia quanto Roma atravessavam delicadas crises e acentuada decadência de costumes. O fato de que os ensinamentos deste movimento, sobretudo de sua “trindade de ouro” de filósofos latinos, composta por Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio, caía tão bem em nossos dias justifica-se porque também enfrentamos uma severa crise de perda de valores humanos, o que nos debilita como indivíduos, como sociedade e até mesmo como meio ambiente. E sim, a voz destes homens volta para nos dizer coisas que necessitamos urgentemente ouvir e praticar, como remissão necessária aos desvios do nosso tempo.

A pandemia fez esse assunto aflorar em sua visão?

Costumo dizer que a pandemia lançou um convite contundente à “era da reflexão e da vida interior”, pois, nosso recolhimento da vida social e relativo isolamento, em nossas residências, abriu a oportunidade de repensarmos as bases sobre as quais vínhamos construindo nossas vidas. Para aqueles que o fizeram, houve a delicada descoberta de que andávamos meio “perdidos” de nós mesmos, de nossos propósitos e valores, em um piloto automático que não parecia estar nos levando a nenhum lugar desejável, enquanto seres humanos. Quem fez esta descoberta e refez seus direcionamentos e posturas pode afirmar, com toda certeza, que a pandemia trouxe todas as suas trágicas perdas, mas também lhe ofereceu a oportunidade de despertar e de recomeçar a escrever sua rota a tempo, antes que sua vida se perdesse em direções vazias e equivocadas.

O Estoicismo tem sido confundido com passividade?

Em um mundo dual, tudo pode ser entendido de maneira equivocada, através das sombras pessoais que carregamos conosco e lançamos sobre as coisas. O Estoicismo ensina a confiar na vida como inteligente e dotada de sentido, e mais sábia que o homem, em suas decisões. Daí, o chamado “Amor Fati” (tema retomado muito mais tarde por Nietzsche), que consiste em não só aceitar, mas amar os fatos da vida da maneira com que se nos apresentam, como caminho de menor resistência para nossa evolução. Mas esta aceitação nada tem a ver com passividade, mas todo o contrário: há que tomar as ferramentas que a vida nos oferece em cada episódio novo que nos acontece e, com estas ferramentas, continuar vigorosamente abrindo caminhos até a realização plena do humano em nós.

Como ser um estoico ativo?

O estoico ativo é aquele que aceita receber os ensinamentos que o pórtico (stoa) do passado lhe oferece para enfrentar as dificuldades da sua vida com a vantagem da experiência dos que o precederam, e que esculpe moralmente a si mesmo até que se torne o cidadão ideal do mundo humanista com que sonha. Quando existe um cidadão, este estado já nasceu, e já há o exemplo a oferecer. As boas referências, em um momento onde os homens andam desnorteados, angustiados e ansiosos, surgem como uma bússola que conduz ao lugar seguro e luminoso com o qual todos sonhamos, e são sempre promissoras.

Uma pessoa em um cargo de poder pode ter melhores decisões quando o Estoicismo é a base?

O imperador estoico Marco Aurélio constantemente exorta para que sejamos rígidos conosco mesmos, pois, só nós podemos fazê-lo, mas tolerantes com os demais. Esta tolerância, aliada ao compromisso em dar exemplo, o comprometimento com tudo aquilo que depende de nós, o que geraria um constante autoaperfeiçoamento, e o não se vitimizar nem transferir constantemente a “culpa” por todos os problemas para os demais já representaria um caráter maduro, comprometido e resiliente o bastante para constituir sim um grande líder em qualquer cargo de poder que lhe corresponda, dentro de uma comunidade humana.

Vamos entrar no Caibalion. Quando esse termo se torna conhecido no Ocidente?

O termo “Caibalion” vem de um livro editado em 1908, e parece possuir uma raiz comum com a palavra hebraica kaballah, que significa tradição ou transmissão recebida desde cima. Já os sete princípios que ele enumera são conhecidos no Ocidente desde a difusão do antigo tratado denominado Corpus Hermeticum, de origem egípcia e redigido para a biblioteca de Alexandria, supostamente entre 100 e 300 d.C, e a chamada Tábua de Esmeralda , texto enigmático de origem também egípcia que começa a circular pelo Ocidente em torno do século VII.

Qual a importância do Caibalion para entender o sentido da vida?

Este pequeno tratado de 1908 descreve sete leis que regeriam todo o funcionamento da manifestação, desde sua mínima até sua máxima expressão. Através da compreensão e do alinhamento com estas leis, poderíamos alcançar um nível de harmonia e realização muito superior àqueles que temos obtido, caminhando sempre pela contramão, guiados pelo nosso egoísmo e por nossas alienações pessoais.

A filosofia rege os nossos passos mesmo que as pessoas não acreditem nela?

A natureza segue seus rumos independente da opinião humana. Na Idade Média, muitos acreditavam que a terra fosse plana e que, em seus limites, houvesse um abismo, desde onde se caía para a boca de um imenso dragão. A Terra, em nenhum momento, deixou de ser geoide por causa disso. A opinião humana não conforma nem nunca conformou realidade. A Filosofia é apenas uma ferramenta, como uma lanterna, que serve para lançar luz – lucidez, sabedoria – sobre o caminho, para aqueles que acreditam que existe um caminho, mais além das alienações particulares ou da moda. Sempre foi s sempre será um auxiliar precioso para os buscadores da sabedoria que queiram se utilizar dela.

Quais perguntas o Caibalion ainda não respondeu?

O Caibalion oferece um bom repertório de respostas a serem utilizadas à medida que as perguntas fundamentais forem feitas, o que acontece em tempos diferentes para cada ser humano. O que ele ainda não respondeu é o que ainda não ousamos nos perguntar; dentre elas, as perguntas fundamentais da vida, tais como “Quem sou?” e “O que a natureza espera de mim, como ser humano?”.

O que falta para que essas perguntas sejam respondidas?

Um dia, perguntaram ao filósofo Sócrates se, caso fossem amarrados os trinta tiranos de Atenas em cadeiras e ele lhes ensinasse Filosofia por horas, ao soltá-los, todos teriam se convertido em filósofos. Ele sorriu e respondeu que sua mãe, Fenaretes, era uma ótima parteira, mas jamais seria capaz de ajudar a dar à luz a uma mulher que não estivesse grávida. Assim é com os homens: as perguntas serão respondidas quando forem formuladas com sinceridade, e isso ocorrerá quando “engravidarem de humanidade”, ou seja, quando ansiarem honestamente por trazer à luz o verdadeiramente humano que existe adormecido neles.

Qual seria o principal norte que o seu livro traz ao leitor?

Quando descobrimos que um mesmo ensinamento, idêntico em seu teor, foi formulado em palavras equivalentes por diversos mestres de vários povos, ao longo do tempo e do espaço, desconfiamos que aí deve haver uma verdade que foi percebida por todos aqueles que, em circunstâncias tão diferentes, tiveram estatura moral, psicológica e espiritual para pensar grande e ter uma visão mais ampla. Meu livro, intitulado “Para Entender o Caibalion” (Pensamento, SP, 2021), traz um mega painel de estudo comparativo dos conhecimentos oferecidos pelo “O Caibalion” com conhecimentos de várias outras tradições espalhadas pela história humana, o que dá um grande embasamento a este conhecimento. Todos aqueles que veem longe acabam enxergando realidades muito próximas, quando não idênticas. Além disso, ofereço um número expressivo de aplicações possíveis destes conhecimentos na vida prática. Parece-me ser um acervo muito útil de esclarecimentos e aplicações do que esta tradição oferece.

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