Revisitando o genial O Analista de Bagé
Revisitar O Analista de Bagé em pleno fim de 2025 é como abrir uma garrafa de vinho deixada décadas na adega e descobrir que ela não só resistiu ao tempo como ganhou novas camadas de sabor. Publicado há 44 anos, o livro mais vendido de Luis Fernando Verissimo no ano de 1982, continua a circular entre gerações com a mesma desenvoltura de um bom caus causado no botequim: direto, espirituoso, aparentemente simples, mas com uma ressaca intelectual que dura dias. Num país que muda de assunto com a velocidade de um meme, o feito não é pequeno.
A morte de Verissimo, em agosto deste ano, empresta à releitura um peso inevitável. O humorista, cronista e romancista que parecia escrever como quem conversa — e conversa como quem pensa — deixa um legado que vai muito além da gargalhada. O Analista de Bagé talvez seja o seu personagem mais emblemático: um psicanalista gaúcho, machista, rude, anti-freudiano e profundamente brasileiro, que substitui o divã pelo sofá de couro gasto e a interpretação dos sonhos por um bom palavrão didático.
“O Analista de Bagé é um personagem do sul, mas poderia estar em qualquer canto do país onde se desconfia do que vem “de fora” e se valoriza o improviso como filosofia de vida. Ele é regional e universal ao mesmo tempo — uma façanha literária rara.”
O segredo da longevidade do livro está justamente na tensão entre o erudito e o popular. Verissimo pega a psicanálise — esse edifício europeu cheio de conceitos abstratos, citações alemãs e complexos com nomes próprios — e joga tudo no pampa. O resultado é uma sátira que não ridiculariza o pensamento, mas a sua pompa. O Analista de Bagé não nega o inconsciente; ele só desconfia de quem fala difícil demais para explicá-lo.
Há também algo de profundamente literário nesse humor. Não se trata apenas de piada, mas de construção de personagem, de ritmo, de voz. O Analista fala como um personagem de teatro popular, mas age como um crítico social. Ele escancara o autoritarismo travestido de método, o poder simbólico do especialista e a facilidade com que o saber pode virar instrumento de dominação — temas que, convenhamos, envelheceram melhor do que muita tese acadêmica.
Humor como crítica cultural disfarçada
O subtítulo implícito de O Analista de Bagé poderia ser “manual prático das nossas contradições”. Ao rir do analista, rimos também do paciente, do intelectual, do macho alfa, do sulista caricatural e, sobretudo, de nós mesmos. O humor de Verissimo nunca foi cruel; foi cirúrgico. Ele corta sem anestesia, mas costura com humanidade. Talvez por isso sobreviva tão bem à patrulha do tempo, sempre pronta a confundir sátira com ofensa.
Reler o livro hoje, em uma era dominada por terapeutas de Instagram, coaches motivacionais e diagnósticos feitos em 15 segundos de vídeo, é um exercício quase pedagógico. O Analista de Bagé, com seu desprezo pelas modas psicológicas, antecipa a crítica à mercantilização do cuidado mental. Ele não promete felicidade, não vende método milagroso, não oferece “jornada”. Oferece confronto — ainda que grosseiro — e isso, paradoxalmente, soa refrescante.
Há também um Brasil ali que insiste em permanecer. O choque entre centro e periferia cultural, entre o saber importado e a prática local, entre o discurso sofisticado e a experiência concreta. O Analista de Bagé é um personagem do sul, mas poderia estar em qualquer canto do país onde se desconfia do que vem “de fora” e se valoriza o improviso como filosofia de vida. Ele é regional e universal ao mesmo tempo — uma façanha literária rara.
O fato de o livro continuar sendo lido, citado e reeditado mais de quatro décadas depois diz menos sobre nostalgia e mais sobre pertinência. Verissimo entendeu cedo que o humor é uma forma de pensamento, não um enfeite. Ao rir, o leitor pensa; ao pensar, se incomoda; ao se incomodar, talvez mude alguma coisa — nem que seja o jeito de olhar para o próprio espelho.

Revisitar O Analista de Bagé após a morte de seu criador é também reconhecer que certos autores não desaparecem: mudam de endereço. Verissimo agora mora nas estantes, nas citações, nas conversas de bar e nas releituras tardias. Seu analista continua atendendo, sem hora marcada, pacientes chamados Brasil, modernidade, ego inflado e fé excessiva em soluções fáceis. E o diagnóstico, ao que tudo indica, segue atual.
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