Última Hora: a dobradinha Wainer-Vargas
No panteão da imprensa brasileira, poucos títulos evocam tantas paixões, memórias e controvérsias quanto o Última Hora. Fundado em 1951 por Samuel Wainer, o jornal nasceu com o estigma e o brilho de ser um projeto abertamente alinhado ao Governo de Getúlio Vargas. Num tempo em que a neutralidade jornalística era uma quimera distante, a publicação assumiu de peito aberto sua posição política: defender o trabalhismo getulista contra a sanha udenista e os golpes de bastidor das elites que se recusavam a ver o Brasil modernizar-se sem a tutela de seus velhos coronéis.
Wainer, filho de imigrantes judeus pobres, representava em si a narrativa que pregava: um outsider intelectual, dono de pena ágil e verbo afiado, que soube transformar sua proximidade com Getúlio em combustível editorial e em pólvora contra os adversários. Foi amado por uns e odiado por muitos, talvez na mesma intensidade. Afinal, a Última Hora era tanto jornalismo quanto militância, tanto manchete quanto palanque.
“Curiosamente, no imaginário brasileiro, essa dobradinha Wainer-Vargas permanece como metáfora de algo que não morreu: a imprensa como ator político.”
Nesse projeto, porém, havia outro nome que se tornou indissociável: Carlos Lacerda, diria você? Não, ironicamente. Quem dividiu protagonismo foi o generalíssimo de confiança do próprio Vargas — e aqui está a dobradinha que importa: Vargas e Wainer, um político e um jornalista, um presidente e um editor. Enquanto Getúlio prometia reformas de base, direitos sociais e a sedutora imagem de um Brasil que cabia no bolso do operário, Wainer colocava esse imaginário em tipos de chumbo e manchetes inflamadas. Uma mão alimentava a outra. O jornal não apenas noticiava o Governo; era extensão dele.
Essa simbiose não passou despercebida. A oposição, principalmente a UDN de Carlos Lacerda (apelidado de corvo pelo próprio jornal), não tardou a acusar o Última Hora de ser uma espécie de “Diário Oficial sentimental”, pago com verbas públicas e sustentado à base de contratos de publicidade estatal. As denúncias de corrupção, de favorecimento e de chantagem ecoaram alto, mas o jornal, ainda assim, cresceu e consolidou leitores. No fundo, a disputa não era só de credibilidade; era de poder.
Entre manchetes, propaganda e resistência
O Última Hora foi mais que um jornal: foi trincheira, foi barricada e, às vezes, foi até arma de guerra psicológica. Num Brasil ainda à beira da modernidade industrial, com as massas recém-chegadas do campo às cidades, o jornalismo não era apenas mediador da realidade, mas criador dela. E nisso Wainer tinha uma maestria rara: sabia dosar sentimentalismo popular com retórica grandiloquente. Nas páginas da Última Hora, o operário aparecia como herói anônimo da pátria, enquanto os adversários de Vargas eram pintados como aristocratas sem alma, representantes de um atraso que precisava ser derrotado a qualquer custo.
Além disso, o Última Hora pagava os melhores salários da época, algo revolucionário num mercado em que jornalistas eram tratados quase como tipógrafos de luxo. Esse investimento atraiu talentos de primeira grandeza e consolidou uma redação vibrante. O jornal também revolucionou a estética: quando quase todos os impressos eram cinzentos e mal diagramados, ele trouxe cores, ousadia visual, fotografias marcantes e uma diagramação que mesclava impacto popular com elegância gráfica. Era, ao mesmo tempo, popular e elevado, o samba convivendo com a erudição, o drama operário dialogando com a filosofia de botequim.
Esse ambiente permitiu o surgimento de colunistas e chargistas que se tornariam lendários: Antônio Maria, com sua prosa sentimental (e que “roubou” Danuza Leão do seu patrão); Tarso de Castro, irreverente, provocador e peça fundamental do Pasquim; Sérgio Porto (o Stanislaw Ponte Preta), mestre da sátira mordaz; o inventivo Nelson Rodrigues, capaz de transformar qualquer parágrafo em tragédia grega à brasileira; Lan (criador da charge que fez Lacerda se tornar o corvo para sempre) com o seu amor eterno pelas mulatas cariocas e do paraguaio Andrés Guevara, o homem que implantou o projeto gráfico do “jornal vibrante, uma arma do povo”. Com eles, o Última Hora foi mais que propaganda varguista: foi também palco literário, laboratório jornalístico e vitrine cultural.
É claro que essa receita tinha seus venenos. A ligação visceral com Vargas deu força e sustentação política, mas também encurtou a vida do jornal enquanto projeto independente. A morte trágica de Getúlio, em 1954, com a famosa carta-testamento que incendiou as ruas e jogou o país no colo da comoção, também foi a primeira pá de cal sobre o Última Hora. Sem Vargas, o jornal perdeu sua razão de ser maior, sua alma-mater, seu fio condutor. O que restava era um Wainer combativo, sim, mas órfão.
Ao longo dos anos seguintes, a Última Hora tentou se reinventar, mas nunca mais teve o mesmo fôlego (tendo ainda momentos de brilho nos Governos JK e Jango). Sobreviveu como peça de resistência, incomodou ditadores e ainda reverberou ecos do projeto getulista, mas foi minguando até se tornar memória de um tempo em que jornalismo e política caminhavam de mãos dadas — ou melhor, de braços dados, como numa marcha quase coreografada (seu fim foi nas mãos dos Frias da Folha).
Curiosamente, no imaginário brasileiro, essa dobradinha Wainer-Vargas permanece como metáfora de algo que não morreu: a imprensa como ator político. Com redes sociais que parecem jornais diários multiplicados em mil, é impossível não ver paralelos. Influenciadores digitais que “entrevistam” presidentes, portais noticiosos que operam como comitês de campanha disfarçados, blogs que servem de quartel para narrativas. Mudaram as ferramentas, não a essência.

E talvez esse seja o maior legado do Última Hora: mostrar que jornalismo nunca é neutro, que manchetes sempre têm dono, e que, gostemos ou não, a imprensa dança conforme a música — seja a de um samba operário embalado por Vargas, seja a de um rap furioso contra os novos poderes do século XXI.
Se, como dizia Nelson Rodrigues, “subdesenvolvimento não se improvisa: é obra de séculos”, talvez possamos aplicar o mesmo à imprensa brasileira. O Última Hora foi um ato fundador desse espetáculo de jornalismo que é, ao mesmo tempo, informativo e performático, crítico e bajulador, popular e erudito. Samuel Wainer sabia disso, Vargas também. E nós, ainda hoje, continuamos reféns — ou cúmplices — dessa dobradinha eterna entre poder e palavra impressa.
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