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Diário da Corte: Paulo Francis “possesso”

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Paulo Francis sempre foi um desses personagens que parecem maiores que a própria sala onde estão, mesmo quando a sala era a redação da Folha, um estúdio da Rede Globo ou um bar com intelectuais fumando como chaminés de navio cargueiro no Rio dos anos 60. Diário da Corte (organizado pelo jornalista Nelson de Sá e com posfácio de Luiz Felipe Pondé), a reunião de 76 artigos que ajudaram a consolidar sua reputação, é menos um livro de jornalismo e mais uma sessão espírita – convoca o espírito de um país prestes a mudar de pele e de humor. O leitor que o folheia não encontra moderação, nem firmeza de professor universitário. O que há é Francis, possesso, escrevendo como quem luta contra demônios que só ele enxergava, mas que, de alguma forma, existiam mesmo.

Nos textos, ele fala do pós-Watergate, com a desenvoltura de quem achava Nixon um personagem digno de tragédia grega; comenta Updike com afeto cosmopolita; atira rojões contra Nelson Rodrigues e depois volta para concordar que, afinal, Nelson via mais longe que o resto da torcida. E, claro, há as polêmicas. Quando Paulo Francis atacava alguém, não era com pedrinha de retórica – vinha com dinamite, fósforo e o gosto particular de ver tudo explodir. José Guilherme Merquior, Caetano Veloso, Caio Túlio Costa… nenhum escapou. Ele escrevia como quem empunha um florete, mas também como quem tem prazer em perfurar.

“Muitas vezes, Francis era cruel. O seu prazer em humilhar era evidente, e nem sempre havia pensamento profundo por trás da agressão. Em alguns momentos, ele era só maldoso. Mas é impossível negar que sua maldade tinha graça, e isso, para o bem e para o mal, é uma forma de talento.”

É curioso lembrar que o Francis que escreve aqui não nasceu dessa forma. Houve um Francis esquerdista, do Pasquim, leitor de Marx, trotskista e frequentador de mesas onde a revolução era quase um tempero da conversa. Depois veio a metamorfose: a mudança para Nova York, o fascínio pela dinâmica do capitalismo americano, a crítica ao socialismo real, a incorporação da ideia de que o Brasil só se salvaria se aceitasse o mercado como seu destino inevitável. A isso somou-se a televisão, a entrada no império de Roberto Marinho, aquele que ele mesmo chamara de “Homem Porcaria” antes de descobrir que, afinal, a vida é cheia de voltas mais dramáticas que as de novela das oito. Francis nunca teve pudor em se contradizer. Talvez porque acreditasse que só idiotas morrem coerentes.

O que faz Diário da Corte relevante hoje não é o conteúdo factual – muita coisa envelheceu, como toda crônica política. O que permanece é o estilo. Francis escrevia com veneno, mas também com ritmo. Era culto sem pedir desculpas. Podia estar errado, mas estava errado com convicção performática. Sua arrogância, em vez de defeito, era combustível literário.

A sombra e a sedução da língua afiada

Ler Paulo Francis agora é, de certo modo, revisitar um Brasil que ainda tinha elites intelectuais capazes de ferver em discussões públicas. Ele achava Merquior um esteta arrogante, Caetano um narcisista de grande quilate, e Caio Túlio um funcionário que se levara a sério demais. Mas o ponto não são os insultos: é a forma como Francis acreditava que a cultura era um duelo de vida ou morte. Essa intensidade, gostemos ou não, anda rareando. A crítica hoje tem medo de soar pedante; prefere ser fofinha, higienizada, pop e digitalmente aceitável. Francis, se estivesse vivo, acordaria todos os dias com vontade de destruir timelines inteiras antes do café.

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Claro, há uma questão ética aqui. Muitas vezes, Francis era cruel. O seu prazer em humilhar era evidente, e nem sempre havia pensamento profundo por trás da agressão. Em alguns momentos, ele era só maldoso. Mas é impossível negar que sua maldade tinha graça, e isso, para o bem e para o mal, é uma forma de talento.

Por outro lado, a conversão fáustica ao capitalismo americano produziu um Francis que, em certos momentos, se tornava porta-voz improvável de uma elite globalizada que não existia no Brasil de fato. O resultado: ele parecia simultaneamente profeta e caricatura. Essa ambiguidade é parte de sua força. Francis nunca foi simples; foi uma contradição viva – e ruidosa.

Ao final, Diário da Corte não é sobre política, literatura ou sociologia. É sobre estilo como arma. Sobre o prazer de pensar alto, ferindo e sendo ferido. Sobre como, antes das redes sociais transformarem a polêmica em espuma, havia gente que sabia manejar espada, não colher de chá.

Leia para discordar. Para se irritar. Para rir.

O que faz Diário da Corte relevante hoje não é o conteúdo factual – envelheceu (Foto: Wiki)
O que faz Diário da Corte relevante hoje não é o conteúdo factual – envelheceu (Foto: Wiki)

Porque Paulo Francis, no fundo, sempre quis isso: que ninguém saísse ileso.


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