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Rádio Globo AM 1100: nostalgia

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Houve um tempo em que girar o botão do rádio era mais do que um hábito: era quase um rito de passagem para entender São Paulo, sua pulsação e suas contradições. No meio dessa tradição, a Rádio Globo AM 1100 se ergueu como um templo sonoro, herdeira da velha Rádio Nacional fundada por Victor Costa em 1952. Foi ali que a voz de Hebe Camargo embalou a primeira vinheta cantada do rádio brasileiro, e onde um jovem Silvio Santos, ainda sem microfone dourado, começou a moldar sua dicção e seu destino. As ondas médias da 1100 carregavam, mais do que programas, um certo jeito de traduzir a alma do paulistano: um misto de humor debochado, jornalismo barulhento e uma pitada de espetáculo de auditório.

A trajetória da emissora, porém, nunca foi uma linha reta de sucesso. Nos anos 1960, já sob o comando de Roberto Marinho, a rádio se consolidou como força popular, duelando em decibéis com a Rádio Record. O empate técnico que dividia a audiência não era apenas disputa de pontos no Ibope, mas também de narrativa: enquanto a Globo queria ser a versão paulistana da carioca, a Record vendia um enredo mais próximo do coração do ouvinte local. Quem vencia, afinal? Talvez ninguém. Talvez o grande vencedor fosse o ouvinte, que se deliciava com o espetáculo das vozes.

“A Rádio Globo AM, que já transmitira novelas, humor, futebol raiz e jornalismo popular, passou a arrendar frequências para igrejas, demitir narradores esportivos e brincar de “reformulação” com ares de laboratório.”

A década de 1970 trouxe o batismo definitivo: Rádio Globo São Paulo. O nome “Nacional” foi confiscado pelo Governo, e a emissora não teve escolha senão assumir o logotipo global que a alinhava ao projeto de comunicação de Marinho. Não era mais apenas uma rádio: era parte da engrenagem de um império midiático que se expandia no ritmo do milagre econômico e das novelas da TV. São Paulo, que já gostava de se sentir a capital moral do país, tinha agora sua filial do império sonoro.

Mas o tempo é cruel com a tecnologia. Se nos anos 1950 o rádio era a sala de estar eletrônica, nos anos 2000 virou um sobrevivente em meio a podcasts, streams e redes sociais. A Rádio Globo AM, que já transmitira novelas, humor, futebol raiz e jornalismo popular, passou a arrendar frequências para igrejas, demitir narradores esportivos e brincar de “reformulação” com ares de laboratório. O público, esse animal imprevisível, não se deixou seduzir pelo rebranding apressado de 2017, nem pela promessa de FM que só se concretizou tardiamente.

O fim de uma voz em ondas médias

Em fevereiro de 2020, a emissora desligou sua frequência histórica de 1100 kHz, quase 68 anos depois de sua estreia. O gesto tinha a solenidade de um enterro civil: sem lágrimas em multidão, sem cortejo, apenas um comunicado técnico e um botão sendo desligado. No mês seguinte, a Rádio Globo São Paulo deixava de existir oficialmente, restando apenas como lembrança nos ouvidos de quem um dia ligou o dial de madrugada. A última música, Blueberry Faygo, de Lil Mosey, interrompida antes da batida final, foi um epitáfio simbólico: uma geração inteira acostumada a ouvir Roberto Carlos, Chico Anysio, Osmar Santos e Oscar Ulisses via rádio se despedia ao som de um rapper americano que poucos da velha guarda sequer reconheciam.

A história da 1100 é, em última análise, a crônica de como o rádio perdeu sua centralidade. Mas também é uma aula sobre como gigantes se encolhem quando deixam de ouvir o próprio público. O erro não foi apenas tecnológico — o abandono do AM, a aposta tardia no FM — mas editorial. Ao tentar imitar a leveza digital e a informalidade dos podcasts, a Globo esqueceu que seu ouro estava justamente na tradição popular, no improviso, na voz que soava familiar como o feijão no fogo.

Há quem diga que a nostalgia distorce a memória, mas talvez seja o contrário: ela a restaura. Relembrar a Rádio Globo AM 1100 é relembrar uma São Paulo que ainda se reunia em torno do rádio de válvula, que acreditava que Hebe era eterna e que futebol sem a voz de um narrador na AM parecia incompleto. Hoje, quando a frequência abriga transmissões religiosas e playlists anônimas, o que resta é a sensação de que algo essencial se perdeu — não apenas uma emissora, mas um pedaço da alma cultural paulistana.

A Rádio Globo AM 1100 já não habita esse novo mundo (Foto: Reprodução/YouTube)
A Rádio Globo AM 1100 já não habita esse novo mundo (Foto: Reprodução/YouTube)

O rádio, claro, não morreu. Ele apenas migrou para outros formatos, reinventando-se em podcasts e plataformas digitais. Mas a Rádio Globo AM 1100 já não habita esse novo mundo. Ficou congelada como lembrança, uma cápsula sonora de quando São Paulo se ouvia a si mesma no chiado do AM. Talvez seja justamente essa ausência que a transforme em mito: porque certas vozes, quando silenciadas, continuam ecoando muito além da frequência.


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