O mau-olhado na cultura gângster
Há temas que circulam pelas margens da história oficial como contrabando simbólico: todo mundo sabe que existe, poucos admitem usar, quase ninguém analisa com seriedade. O mau-olhado é um desses casos. Tratado como superstição de avó ou folclore de aldeia, ele ganha outra estatura quando atravessa fronteiras e se instala em ambientes onde poder, medo e violência se misturam — como na cultura gângster. Ali, o olho torto não é só crença: é estratégia psicológica, linguagem de intimidação e, muitas vezes, explicação conveniente para fracassos que ninguém quer assumir.
Na Rússia e no Leste Europeu, o mau-olhado nunca foi apenas uma curiosidade etnográfica. Ele faz parte de um caldo cultural que mistura paganismo eslavo, cristianismo ortodoxo, repressão soviética e um submundo criminal que floresceu nos vácuos do Estado. Entre ladrões profissionais, os vory v zakone , a ideia de que inveja, olhar enviesado ou palavra mal-intencionada podem “quebrar” a sorte de alguém não é metafórica. É quase um axioma moral: sucesso chama olho grande; olho grande chama desgraça.
“O mau-olhado funciona como metáfora do próprio sistema gângster: um mundo onde nada é totalmente visível, onde intenções importam mais que discursos e onde o sucesso é sempre provisório. A crença revela menos sobre forças sobrenaturais e mais sobre a psicologia do poder informal.”
Esse imaginário explica muito do comportamento ostensivamente paranoico de certos gângsteres. Ostentar demais é pedir azar. Confiar demais é abrir brecha. Contar vantagem em público pode atrair não só rivais, mas forças invisíveis que “desequilibram” o jogo. O mau-olhado funciona como uma ética subterrânea da discrição forçada: quem sobrevive aprende a esconder ganhos, relativizar vitórias e desconfiar de elogios excessivos. O elogio, aliás, é sempre suspeito — pode ser veneno em forma de gentileza.
Historicamente, o mau-olhado atravessa milênios. Ele aparece na Grécia Antiga, no Império Romano, no Oriente Médio, no Norte da África. Povos diferentes, a mesma angústia: o medo de que o sucesso desperte inveja suficiente para gerar dano real. Não é à toa que amuletos, gestos apotropaicos e palavrões ritualizados surgem como defesas simbólicas. No fundo, trata-se de uma tentativa de dar forma visível a um sentimento universal: a insegurança diante do olhar do outro.
No mundo do crime organizado, esse medo ganha musculatura. A lógica é simples: se tudo pode ser perdido em segundos — dinheiro, território, vida — qualquer variável conta. Inclusive o invisível.
Entre superstição e método
O mau-olhado, na cultura gângster, não substitui armas, dinheiro ou alianças. Ele complementa. Funciona como camada simbólica de controle. Quando um negócio dá errado, não foi apenas má gestão: alguém “jogou olho”. Quando um chefe cai em desgraça, não é só erro estratégico: faltou proteção espiritual, sobrou soberba. A crença serve tanto para explicar o inexplicável quanto para manter a hierarquia emocional do grupo. Culpar forças externas preserva reputações internas.
Há também um uso performático do mau-olhado. Olhar fixo, silêncio prolongado, ausência de reação — tudo isso compõe uma estética da intimidação. Em muitos círculos criminosos do Leste Europeu, o olhar não é apenas expressão corporal: é arma psicológica. Quem sustenta o olhar, domina. Quem desvia, deve. A superstição se mistura com teatro social, criando um código compreendido por iniciados e temido por quem observa de fora.
Curiosamente, essa lógica sobreviveu à modernização. Mesmo com criptomoedas, tráfico digital e lavagem financeira sofisticada, o amuleto continua no bolso, o ritual persiste antes de grandes decisões e a desconfiança do elogio permanece intacta. O capitalismo do crime não aboliu o misticismo; apenas o atualizou. Onde o risco é absoluto, a racionalidade pura nunca basta.
Há um aspecto quase literário nisso tudo. O mau-olhado funciona como metáfora do próprio sistema gângster: um mundo onde nada é totalmente visível, onde intenções importam mais que discursos e onde o sucesso é sempre provisório. A crença revela menos sobre forças sobrenaturais e mais sobre a psicologia do poder informal. Quem vive à margem da lei também vive à margem da segurança emocional.

No fim, talvez o mau-olhado seja menos uma superstição e mais um espelho. Ele reflete sociedades marcadas pela escassez, pela violência e pela desconfiança crônica. Na cultura gângster, especialmente na Rússia e no Leste Europeu, olhar demais é perigoso — não porque o olho tenha magia, mas, porque a inveja, ali, costuma andar armada.
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Anacleto Colombo assina a seção Não Perca!, onde mergulha sem colete na crônica sombria da criminalidade, da violência urbana, das máfias e dos grandes casos que marcaram a história policial. Com faro apurado, narrativa envolvente e uma queda por detalhes perturbadores, ele revela o lado oculto de um mundo que muitos preferem ignorar. Seus textos combinam rigor investigativo com uma dose de inquietação moral, sempre instigando o leitor a olhar para o abismo — e reconhecer nele parte da nossa sociedade. Em um portal dedicado à informação com profundidade, Anacleto é o repórter que desce até o subsolo. E volta com a história completa.




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