Como o Google engoliu o site Cadê?
Antes de o verbo “dar um Google” virar sinônimo universal de procurar qualquer coisa — de receita de bolo a tese de doutorado —, a internet brasileira tinha sotaque próprio. E um ponto de interrogação no nome. O Cadê? foi mais do que um site de busca: foi uma espécie de bibliotecário digital tropical, de jaleco imaginário, que organizava a bagunça incipiente da web nacional quando tudo ainda cheirava a modem discado e paciência.
Fundado em setembro de 1995 por Gustavo Viberti e Fabio Oliveira, o Cadê? nasceu inspirado no Yahoo! original, aquele que ainda era diretório e não império. Viberti começou catalogando páginas quase artesanalmente, como quem monta um fichário infinito. Fabio, por sua vez, enxergou ali um negócio possível e tratou de vender a ideia para anunciantes que sequer sabiam o que era “publicidade online”. Convencer o mercado de que a internet era mídia — e não brincadeira de nerd — foi talvez tão difícil quanto indexar a própria rede.
“A compra do Cadê? pelo Yahoo! Brasil tentou preservar a marca, transformando-o em Yahoo! Cadê?. Era uma tentativa de capitalizar o prestígio acumulado, mas o movimento soava mais defensivo do que visionário. O Google já não era apenas um site: era uma infraestrutura invisível, uma porta de entrada quase obrigatória para a informação online.”
O Cadê? oferecia muito para a época: buscava páginas, imagens, notícias, produtos de um shopping virtual e ainda fornecia e-mail próprio. Era, à sua maneira, um portal completo. Funcionava como um repositório da web brasileira, alimentado tanto por sua equipe quanto pelos próprios usuários, que cadastravam sites, serviços e ideias. Havia ali um espírito comunitário que hoje soa quase romântico: a internet como construção coletiva, não como território dominado por algoritmos opacos.
Mas havia o preço desse romantismo. Toda página passava por verificação humana. Enquanto a web crescia em velocidade exponencial, o Cadê? crescia a passos cuidadosamente revisados. Em paralelo, buscadores como o Altavista já apostavam em robôs para vasculhar a rede automaticamente. O Cadê? era criterioso; o mundo começava a exigir velocidade.
Do diretório humano ao algoritmo soberano
Até o fim de 1999, Cadê? e Altavista reinavam no Brasil. Então surgiu o Google. Criado em 1998, ele parecia, à primeira vista, apenas mais um buscador. Mas havia ali uma diferença fundamental: o algoritmo. O PageRank — esse juiz invisível da relevância — organizava os resultados com base em múltiplos critérios cruzados, entregando ao usuário algo próximo de uma resposta, e não apenas uma lista. A busca deixou de ser exploração e virou eficiência.
A comparação foi cruel. Onde o Cadê? oferecia curadoria, o Google oferecia precisão. Onde havia demora, havia instantaneidade. Onde existia um catálogo, surgiu um mapa dinâmico da web. Não foi uma derrota por incompetência, mas por mudança de paradigma. O Cadê? representava a internet como biblioteca; o Google, a internet como sistema nervoso.
A compra do Cadê? pelo Yahoo! Brasil tentou preservar a marca, transformando-o em Yahoo! Cadê?. Era uma tentativa de capitalizar o prestígio acumulado, mas o movimento soava mais defensivo do que visionário. O Google já não era apenas um site: era uma infraestrutura invisível, uma porta de entrada quase obrigatória para a informação online. Contra isso, marcas locais, por mais queridas, tinham pouco a fazer.
Há também um aspecto cultural nessa engolida histórica. O Cadê? promovia o concurso Top Cadê?, que elegia os melhores sites brasileiros em categorias que iam de Ciência a Lazer. Havia critérios claros, visitas humanas, análise de design, conteúdo e usabilidade, além do voto popular. Era um selo de qualidade num país que ainda aprendia a navegar. O Google nunca precisou disso. Seu critério era matemático, global e indiferente a fronteiras nacionais.
O Altavista ainda resistiu por algum tempo, especialmente lembrado pelo BabelFish, pioneiro na tradução automática. Mas também caiu sob o guarda-chuva do Yahoo!, que acabaria desativando o serviço em 2013. O roteiro se repetiu: gigantes tradicionais sendo absorvidos ou neutralizados por uma empresa que transformou busca em monopólio de fato.

No fim, dizer que o Google “engoliu” o Cadê? não é apenas força de expressão. É diagnóstico histórico. O Cadê? foi vítima de um mundo que acelerou rápido demais, de um mercado que trocou curadoria por escala, e de usuários que passaram a exigir respostas instantâneas. Ainda assim, merece ser lembrado não como nota de rodapé, mas como pioneiro. Afinal, antes de perguntar tudo ao Google, o Brasil perguntava, com educada curiosidade: Cadê?
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