Autonomia do BC é um fetiche institucional…
Nem todo mundo tem tempo (ou estômago) para acompanhar o noticiário inteiro. É guerra lá fora, escândalo aqui dentro, político fazendo dancinha no TikTok e economista prometendo milagre com inflação alta. Enquanto isso, você tenta sobreviver à vida real. A gente entende.
Por isso nasceu o Condensado: uma dose diária de realidade em 4 tópicos, com informação quente, ironia fria e aquele comentário ácido que você gostaria de ter feito — mas estava ocupado demais trabalhando pra pagar o boleto.
Aqui não tem enrolação, manchete plantada ou isenção fake. Tem olho cirúrgico e língua solta. O que rolou (ou rolará) de mais relevante no Brasil e no mundo vem aqui espremido em 20 linhas (ou menos) por item. Porque o essencial cabe — e o supérfluo, a gente zoa.
Informação? Sim. Respeito à inteligência do leitor? Sempre. Paciência com absurdos? Zero.
Bem-vindo ao Condensado. Pode confiar: é notícia, com ranço editorial.
Vinnie Vincent cobra US$ 225 por um single, chama música de caviar e transforma guitarra em bolsa Hermès: quando o rock descobre o luxo e o fã vira investidor
Vinnie Vincent, ex-KISS, resolveu ensinar ao mundo que riff também pode ser artigo de luxo. Seu novo single, Ride The Serpent, custa módicos US$ 225 — quase um salário mínimo simbólico em vários países — e vem com a aura mística da escassez: poucas unidades, numeradas, assinadas, quase um NFT de plástico. A justificativa é nobre e antiga: proteger a obra da pirataria, esse fantasma que ronda artistas desde o Napster.
Mas Vincent foi além e comparou sua música a caviar, arte fina, objeto para poucos iniciados. O rock, que nasceu como barulho democrático, agora flerta com o cofre. Parte dos fãs entende, parte se sente expulsa do show.
O guitarrista não pede desculpas: diz que “preço justo” é conceito ultrapassado num mundo caótico. Talvez seja mesmo. Talvez o caos seja justamente esse. O single inaugura um álbum prometido para 2026, Judgement Day Guitarmageddon, nome que combina com o apocalipse do acesso popular.
É a lógica do mercado aplicada ao amplificador: quem pode, compra; quem não pode, assiste de fora. O problema é que, sem plateia, até o solo mais virtuoso ecoa vazio. O rock envelhece. E alguns guitarristas parecem ter aceitado isso com cartão black na mão.
Banco Central independente, Congresso confuso, STF desconfiado e Maria da Conceição ainda perguntando “independente de quem?”: quando a autonomia vira fetiche institucional e o risco sistêmico vira detalhe de rodapé
Nos anos 90, quando Roberto Saturnino Braga reuniu Bulhões, Bulhões Pedreira e Maria da Conceição Tavares, o debate parecia acadêmico, quase civilizado, com cheiro de papel jornal e café requentado. Falava-se em autonomia, soberania, independência — palavras grandes para uma realidade ainda pequena.
Conceição, como sempre, cortou o verniz tecnocrático com um grito que ecoa até hoje: independente de quem? Do Brasil? Décadas depois, a pergunta volta com força no caso Banco Master, agora temperada com STF, Polícia Federal, Ministério Público e um Banco Central que parece autônomo para errar, mas hesitante para explicar. A independência virou um dogma, não um instrumento.
O BC, parido em 1964 como apêndice da Fazenda, ganhou status de entidade quase metafísica, acima do bem e do mal, embora abaixo do número mínimo de servidores. Falta gente, sobra sigilo. Falta fiscalização, sobra retórica. Quando o STF pede acareação, há quem trate como heresia institucional.
Quando o Congresso cochila, chama-se governança. No meio disso, investidores, contribuintes e o risco sistêmico ficam olhando a ceia de Ano Novo esfriar. A autonomia, vendida como vacina contra a politicagem, parece ter virado salvo-conduto para decisões opacas. E o mais irônico: quem aprovou essa independência foi o próprio Congresso, agora fingindo surpresa. Quem pariu Mateus que o embale — mas que não reclame depois do choro.

Quando o euro nasceu em 2002 prometendo união, estabilidade e futuro e acabou virando símbolo de crises, austeridade e saudade das moedas com nome próprio
Em 1º de janeiro de 2002, o euro saiu das planilhas e entrou nos bolsos de onze países europeus com pompa, esperança e discursos sobre integração irreversível. Era o sonho continental materializado em papel e metal: adeus marco, lira, peseta, franco.
Olhando em retrospecto, foi também o início de uma longa ressaca. O euro prometia estabilidade, mas entregou dilemas; prometia convergência, mas escancarou desigualdades.
Países com economias distintas passaram a usar a mesma régua monetária, como se Grécia e Alemanha fossem vizinhos de condomínio com a mesma renda. Vieram as crises, os pacotes de resgate, a austeridade como moral econômica e o ressentimento político.
O euro sobreviveu — e isso não é pouco —, mas perdeu a inocência. Hoje é menos símbolo de união e mais de compromisso forçado. Ainda assim, segue sendo uma das moedas mais fortes do mundo, prova de que instituições também sobrevivem ao desencanto. O euro envelheceu. Como a Europa. Com elegância, mas com dores nas articulações.
Emprego formal bate recorde, informalidade recua e o Brasil descobre que carteira assinada ainda existe: quando a estatística sorri, mas pede cautela
Os números da Pnad Contínua vieram com aquele raro gosto de boa notícia: mais carteira assinada, menos informalidade, recordes por todos os lados. São 39,4 milhões de trabalhadores formais no setor privado, mais servidores públicos, mais conta própria. O mercado de trabalho, tantas vezes tratado como paciente terminal, resolveu levantar da maca.
Adriana Beringuy, com a sobriedade do IBGE, lembra que nem tudo é estatisticamente significativo, mas o movimento é claro: o emprego formal ganhou tração. A informalidade, esse velho traço estrutural do Brasil, perdeu força relativa. Não desapareceu — nunca desaparece —, mas recuou. Parte do impulso vem do setor público, educação, saúde, serviços sociais, onde o contrato pode ser temporário, mas não é clandestino.
É um alívio, ainda que parcial. Porque recorde não é sinônimo de solução. O trabalho por conta própria também bateu marca histórica, o que pode significar empreendedorismo ou sobrevivência — geralmente os dois misturados.
O desemprego está no menor nível desde 2012, mas o desafio agora é qualidade, renda, produtividade. Estatística boa é como sol de verão: anima, mas não dispensa o guarda-chuva.

Última atualização da matéria foi há 1 mês
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Franco Atirador assina as seções Dezaforismos e Condensado do Panorama Mercantil. Com olhar agudo e frases cortantes, ele propõe reflexões breves, mas de longa reverberação. Seus escritos orbitam entre a ironia e a lucidez, sempre provocando o leitor a sair da zona de conforto. Em meio a um portal voltado à análise profunda e à informação de qualidade, seus aforismos e sarcasmos funcionam como tiros de precisão no ruído cotidiano.




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