Vipshop, Lulinha, Cálice…
Nem todo mundo tem tempo (ou estômago) para acompanhar o noticiário inteiro. É guerra lá fora, escândalo aqui dentro, político fazendo dancinha no TikTok e economista prometendo milagre com inflação alta. Enquanto isso, você tenta sobreviver à vida real. A gente entende.
Por isso nasceu o Condensado: uma dose diária de realidade em 6 tópicos, com informação quente, ironia fria e aquele comentário ácido que você gostaria de ter feito — mas estava ocupado demais trabalhando pra pagar o boleto.
Aqui não tem enrolação, manchete plantada ou isenção fake. Tem olho cirúrgico e língua solta. O que rolou (ou rolará) de mais relevante no Brasil e no mundo vem aqui espremido em 10 linhas (ou menos) por item. Porque o essencial cabe — e o supérfluo, a gente zoa.
Informação? Sim. Respeito à inteligência do leitor? Sempre. Paciência com absurdos? Zero.
Bem-vindo ao Condensado. Pode confiar: é notícia, com ranço editorial.
Vipshop, Ele.me, Shopee, Temu e Shein marcam encontro para dividir o Brasil em fatias de desconto e plástico barato como se fosse pizza em rodízio
Se havia alguma dúvida de que o Brasil se tornou a Disneylândia oficial do e-commerce chinês, agora já podemos colocar o carimbo vermelho da alfândega: mais dois gigantes asiáticos ensaiam sua entrada triunfal no país. A Vipshop, que vive de transformar restos de estoque em “flash sales” de tirar o fôlego dos cartões de crédito desesperados, vem com ares de boutique online da liquidação eterna — afinal, nada mais democrático do que um cronômetro piscando, humilhando o consumidor que não decide em 30 segundos se precisa ou não de mais uma calça igual à que já tem. Do outro lado da muralha digital, a Ele.me — espécie de iFood turbinado por Confúcio — chega carregando seu terço do mercado chinês de delivery, pronto para enfrentar a logística de entregar pastel de feira em bairros com CEP ilegível. Se juntam a Shein, Shopee e Temu, nossas velhas conhecidas da importação de bugigangas e da plasticização da moda. Resultado? Um Brasil cada vez mais dependente do preço baixo, da cópia descarada e da fantasia de que inovação é comprar três blusas descartáveis por 9,90.

Gil, Chico e o Cálice plagiado: Paz Lenchantin tropeça no altar da música brasileira e sai da missa como herege desafinada
Na lista dos pecados capitais do mundo artístico, plagiar “Cálice” deveria render excomunhão automática. Paz Lenchantin, ex-baixista do Pixies e aspirante a compositora iluminada, resolveu subir no altar do cancioneiro brasileiro e sair carregando o cálice sem pedir bênção. O problema é que a melodia não perdoa: de Gil a Chico, todos ouviram o eco de 1973 disfarçado em single novinho. A reação foi uma catarse coletiva de indignação digital, com internautas e músicos, de Edu Falaschi a comentaristas anônimos, distribuindo sarcasmo em inglês, português e até em emojis. “Cálice” não é apenas música, é epitáfio e resistência, liturgia e memória de um país censurado. Tentar usá-la sem crédito é como grafitar a Mona Lisa ou remixar Guernica com batida eletrônica — fica feio, tosco e espiritualmente indigesto. O curioso é que o plágio de Lenchantin escancarou algo maior: a mania estrangeira de amar a música brasileira como se fosse patrimônio mundial, mas tratá-la como buffet livre, sem pagar a conta.
Leonel Brizola, João Goulart e a bala prometida em 1961: quando a democracia brasileira precisava de pólvora para sobreviver ao golpe do cafezinho
No longínquo 27 de agosto de 1961, um governador do Rio Grande do Sul chamado Leonel Brizola decidiu que a posse de João Goulart não seria negociada nem no fio do bigode, nem na mesa de bar, mas “à bala, se preciso”. O Brasil, como sempre, era um circo de quartéis, com militares brincando de veto institucional e civis implorando por ordem no caos. Brizola, em tom de caudilho gaúcho, sacou do coldre da retórica e transformou a legalidade em movimento armado de gaveta — meio romance, meio western, meio tragédia. O detalhe irônico: o Brasil só aceitava a democracia se viesse escoltada por tanques, discursos inflamados e ameaça de sangue. Hoje, com STF julgando golpistas de 2023, a lembrança soa quase poética: a democracia no Brasil é tão frágil que precisa sempre de alguém disposto a defendê-la no grito — ou no calibre. Brizola, herói ou incendiário, deixou a lição: por aqui, até a legalidade tem cheiro de pólvora.

Lula, Trump e a soberania brasileira: duelo de gladiadores verbais em que um fala de petulância e o outro pensa em tarifas como lanças douradas
Em Brasília, Lula reuniu seus ministros para a segunda rodada de “vamos mostrar quem manda nesse galinheiro chamado Brasil”. No alvo, o velho rival da diplomacia tropical: Donald Trump, que voltou à Casa Branca com tarifas na ponta da língua e slogans do século passado. Lula respondeu com discursos sobre soberania, democracia republicana e a recusa em aceitar “desaforo” de imperadores. A encenação foi transmitida ao vivo, para alegria dos que adoram política como reality show. O curioso é que, entre as linhas, a retórica revela o paradoxo: o Brasil exige igualdade na mesa de negociações, mas continua sentado em cadeiras que os Estados Unidos escolhem. Lula fala de soberania como quem fala de fé: necessária, reconfortante, mas difícil de sustentar quando a economia é dependente do comércio global. No fim, parece um duelo de gladiadores com armas imaginárias — um atira tarifas, o outro responde com discursos. O povo, claro, assiste da arquibancada, vendendo pipoca.
STF, Bolsonaro e o julgamento golpista: Barroso anuncia que a democracia está em cartaz e o público deve assistir ao espetáculo jurídico até o último ato
Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, decidiu avisar que o julgamento de Jair Bolsonaro e companhia limitada não é apenas processo legal, mas peça teatral de alta tensão. O palco é Brasília, os atores são ministros togados e a plateia é o Brasil inteiro, dividido entre vaias e aplausos. “É imperativo encerrar o ciclo”, disse Barroso, em tom quase de dramaturgo que quer fechar a cortina do teatro da insensatez. O problema é que, por aqui, golpes de Estado viraram séries com várias temporadas — 1964, 2016, 2023 — sempre com roteiro repetitivo e figurantes militares que não aprendem a sair de cena. O STF, com sua liturgia de votos e ritos, tenta dar o ar de tragédia clássica a uma comédia farsesca. O risco, claro, é que, como em toda boa peça brasileira, o público saia no intervalo, cansado do excesso de moral da história.
Lulinha, a Receita e os R$ 10 milhões: novela tributária em que herdeiro de presidente tenta provar que o leão é domesticável com habeas corpus e liminares
Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, reaparece no palco público com um enredo que mistura sonegação fiscal, PGFN e memórias pouco gloriosas da Lava Jato. O caso é daqueles que parecem novela interminável: arquivamentos, suspeição de Moro, decisões do STF, liminares salvadoras e, claro, cobranças que insistem em não desaparecer. Dez milhões em autuações fiscais o perseguem como sombra tributária, numa espécie de novela em que o protagonista sempre diz que “não deve nada”, mas a Receita insiste em cobrar ingresso. Para a Procuradoria, a conta não é política; para a defesa, é perseguição travestida de legalidade. No meio, paira a ironia maior: enquanto o pai fala de soberania nacional em discursos inflamados, o filho batalha pela própria soberania financeira contra o leão da Receita. Moral provisória: no Brasil, até os herdeiros do poder descobrem que o fisco não aceita afagos — só comprovantes.
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Franco Atirador assina as seções Dezaforismos e Condensado do Panorama Mercantil. Com olhar agudo e frases cortantes, ele propõe reflexões breves, mas de longa reverberação. Seus escritos orbitam entre a ironia e a lucidez, sempre provocando o leitor a sair da zona de conforto. Em meio a um portal voltado à análise profunda e à informação de qualidade, seus aforismos e sarcasmos funcionam como tiros de precisão no ruído cotidiano.




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