Wagner Sturion fala sobre temas difíceis com leveza

Em “Amores não Compartilhados, Sabores Roubados! – Episódios de relações Abusivas”, o autor Wagner Sturion traz uma narrativa sobre relações que deram certo até um determinado momento, mas que encontraram o fantasma da instabilidade, da descoberta de um outro lado recluso, escondido, disfarçado por quem um dia ofereceu seu abraço. De leitura rápida em seus capítulos e curtos de serem ouvidos, com a média de 3 minutos, a ideia do livro é provocar reflexões a respeito de relacionamentos pessoais e profissionais, tóxicos e abusivos, praticados em uma sociedade que há séculos luta por um mundo mais justo, entretanto, continua a assistir o constrangimento e a humilhação de parte dos seus integrantes. “São episódios que não acontecem somente entre quatro paredes, e, sim, no trânsito, no escritório, na rua, na academia, no jardim, enfim, nos lugares em que o exercício do poder sobre os mais fracos possibilita formas de agressões disfarçadas ou explícitas, sejam elas por meio de palavras ou de atitudes”, narra Sturion na introdução de seu livro. Em relação à escolha do tema, ele disse que percebeu os movimentos causados pela pandemia nos relacionamentos. Alguns casais se aproximaram mais. Outros, simplesmente, se separaram, aparentemente, do nada, depois de anos de casamento. “O isolamento, de repente, individualizou os sentimentos”, avalia.

Wagner, como as relações abusivas têm estado em primeiro plano em nossa sociedade?

Ultimamente, temos ouvido muito falar em relações abusivas e relações tóxicas. É claro que há diferenças entre os termos, pois, as abusivas se utilizam das violências física, mental, verbal, social, cultural, enquanto as relações tóxicas estão mais voltadas ao aprisionamento das pessoas em relações conflitantes, nas quais há um tormento frequente na convivência, consequentemente, a inexistência de paz.

As relações tóxicas, comumente, são marcadas, pela competitividade, prepotência, desrespeito, entre outras características negativas e bastante prejudiciais ao casal. Digamos que seja um pontapé inicial para várias formas de abusos, caso nada seja feito no início das animosidades e desentendimentos. Estou falando sobre a minha percepção a respeito do tema, ou seja, a partir daquilo que apresentei em meu livro “Amores não Compartilhados, Sabores Roubados! – Episódios de Relações Abusivas”, por Wagner Sturion. Respeito muito a opinião de terapeutas e profissionais da área a respeito do assunto, sei que eles teriam muito a complementar. Portanto, a minha visão é de um autor que abordou o assunto sob a ótica de um personagem. Esses dois assuntos coexistem na obra e, muitas vezes, fica um tanto difícil separar o tóxico do abusivo e vice-versa. Você me pergunta o motivo das relações abusivas estarem corriqueiramente, em pauta, na mídia, hoje em dia. A minha visão é que o retrato caótico do assunto é que tem interessado a alguns meios de comunicação. Afinal, as brigas de casais, as mortes entre membros de famílias, as vinganças, etc. recheiam programas das tardes nas emissoras brasileiras em busca, cada vez mais, de notícias que rendam grande audiência.

O que chama a atenção é a exposição do caos: os casos de violência e morte em programas sensacionalistas; os vídeos grotescos, que geram memes, de pessoas se violentando (ou até simulando um ato desse tipo pra ganhar likes); são tantas abordagens que deveriam impactar negativamente e serem recusadas pelas pessoas, mas são repassadas e viralizadas, demonstrando a inversão de valores que ainda é aplaudida por uma parte de nossa sociedade. Outra questão que subtrai a discussão é também o uso do tema em brigas ideológicas e partidárias, em que o senso crítico é trocado pelo senso político, e as violências pessoais e profissionais contra seres humanos são vistas como “mimimi”, enquanto a depressão, a submissão e feridas de todos os tipos encontram campos abertos para se multiplicarem. Depois de lançar o livro, percebi que a reflexão, a discussão, a orientação não são protagonistas desse primeiro plano que você aponta em sua pergunta, infelizmente. Não estou generalizando, tenho tido oportunidade de falar sobre o lançamento em várias mídias idôneas e sérias, como essa, entretanto, ainda temos muito a caminhar para o desenvolvimento de um olhar mais humano sobre as vítimas de abusos.

Quais os gatilhos para que essas relações comecem a se deteriorar?

Vale frisar que uma relação dificilmente se iniciará de forma abusiva. Quem de nós pegaria um barco numa tempestade terrível para viver uma grande história de amor em alto mar? Será que valeria o risco: morrer abraçado e afogado? A tragédia entre Romeu e Julieta aconteceu depois do desenvolvimento de um grande drama. Há, sim, um roteiro seguido pelos abusadores.

Frequentemente, eles são apaixonantes no início, convincentes, inebriadores, envolventes. Muitos abusos começam ainda em meio ao período da paixão, com pequenos indícios de ciúmes, de autoritarismo, de manipulação dos sentimentos, de controle dos planos e sonhos da outra pessoa. Isso ocorre aos poucos, de forma estratégica, muitas vezes, com um estudo minucioso sobre as fraquezas da presa fácil. Eu diria que o gatilho é aquela sensação de perda da liberdade pessoal e profissional; de frustração por não poder desenvolver projetos e vivenciar sonhos; de privação por não ver o tanto quanto gostaria amigos e parentes; de inferiorização e depressão por não sentir mais prazer em sua própria beleza interior e exterior. A corrosão do amor-próprio é evidente em quem está em uma relação tóxica e abusiva. A perda dele é o primeiro dedo puxando o gatilho.

É possível notar quando essas relações começam a se tornar abusivas?

Muitas vezes, quem está de fora observa os primeiros indícios muito antes de quem está dentro do relacionamento. Em alguns casos, há amor e paixão avassaladoras, fortalecidas pela ilusão de casal ideal, e esse quadro é pintado pelo perspicaz opressor, e também pela contínua negação de que aquela foi uma escolha errada.

Há pessoa que passa anos “dormindo com o(a) inimigo(a)”, apenas para não ficar sozinho(a) (carência afetiva), mantendo a aparência de uma relação saudável; outra para não se desestruturar financeiramente, como se fosse incapaz de seguir em frente profissionalmente; e outro fator ainda muito comum, que eu chamaria de “Síndrome da Relação Perpétua”, que se traduz em uma escravidão eterna ao lado de alguém cruel, a fim de não decepcionar a família. São apenas alguns exemplos, no livro apresento algumas narrativas do tipo.

Por que muitos continuam nessas relações?

Os motivos são vários. Partamos do princípio de que os personagens do mal conseguem arquitetar muito bem os seus planos de sedução, submissão, escravidão, etc. Eles têm um poder de persuasão incrível para dominar, violentar (com palavras e fisicamente), e ainda convencer a vítima de que a culpa é dela. Algumas pessoas se entregam tanto a essa ideia de que é ela a mentora de toda situação ruim, que acaba acreditando ser a protagonista malévola e destrutiva da relação. Quando acordam estão tão envolvidas naquela atmosfera de violência que a única saída é ficar e criar, aos poucos, uma estratégia para se libertar. Em casos extremos de violência, o caminho é procurar profissionais especializados (terapeutas, assistentes sociais, grupos de apoios, ajuda da polícia militar), pois, o enfrentamento já causou muitas tragédias. É claro que a família pode ajudar, desde que amparada por pessoas que tenham competência e habilidade para lidar com situações desse tipo. Não se deve jamais incentivar que alguém enfrente uma pessoa violenta sozinha. A salvação, muitas vezes, pode estar no silêncio e na saída planejada.

Qual a influência da pandemia nos relacionamentos?

Para nossa segurança, embora muitos questionem, fomos submetidos ao isolamento. O impacto psicológico de uma doença com alto índice de mortalidade e o lockdown já formaram um composto de muita tensão. Mas creio que o maior incômodo para muitas pessoas foi exatamente o fato de se trancar com outras de seu convívio em casas, apartamentos, chácaras, etc. Claro que essa não foi uma realidade de todo o povo brasileiro. Não podemos nos esquecer daqueles que dividiram pequenos lugares, inclusive barracos, em cinco, sete, dez pessoas. O choque social e cultural é bem peculiar quando pensamos em relações abusivas, pois, o ambiente, nesse caso, também acaba gerando muitos desgastes. Se você tem um local grande para compartilhar, um fica num quarto principal e outro no de visitas, por exemplo. Estamos falando num lugar em que podemos somar cômodos e escolher onde ficar. Quando descrevemos um local pequeno, logo pensamos em divisão de espaços e ambientes, numa área que não permite ocultar faces. Some-se a esse ficar em casa com pessoas do seu convívio 24 horas por dia, 7 dias por semana por quase dois anos, os colegas de trabalho, as chefias de departamento, os gerentes, os diretores, os donos de empresas, não de apenas um dos residentes, mas de todos os moradores empregados da casa. Para muitos, não foi um isolamento social, mas um “espancamento emocional”. E isso, claro, afetou relações que até então estavam apaziguadas.

O campo ficou minado para explosões de violências verbais e físicas, além de separações momentâneas e definitivas. No campo profissional, o assédio moral esteve presente. A sensação e percepção de perda de poder por alguns líderes fez com que muitos exagerassem nas solicitações das tarefas do home office, com pedidos que não estavam nas atribuições do colaborador e com o agendamento de reuniões intermináveis. Isso porque o distanciamento social não permitia o contato presencial e as telas dos computadores e celulares passaram a ser uma grande barreira para aqueles que já apresentavam problemas de comunicação com suas equipes e, muito menos, adeptos da tecnologia. Se isso se refletiu sobre os relacionamentos? Com toda certeza, quem não fica ainda mais nervoso com sobrecarga de trabalho e falta de reconhecimento? É importante ressaltar que mesmo com todos esses fatores qualquer tipo de violência não se justifica. Um relacionamento deve se basear no diálogo, na empatia e na generosidade com o outro. É preciso respeitar os espaços conquistados e as histórias pessoais e profissionais escritas individualmente.

Em que instante acredita que ocorreu o “ponto alto” desses desgastes durante o momento pandêmico?

No momento em que as pessoas se sentiram invadidas em seus espaços. Em que o egoísmo tomou conta dos ambientes e a competitividade avançou sobre as relações. Houve mau compartilhamento de tarefas domésticas; de ajuda na educação das crianças; aconteceu disputa para utilização de ferramentas de acesso à internet, consequentemente, sobre qual trabalho era mais importante e rentável para a família; além de desconfianças e ciúmes nas ligações e vídeos recebidos de membros da empresa. Outros problemas decorreram do medo da doença, de demissões em massa, dificuldades financeiras, falta de alimentos para todos, etc.

Como enxerga essa questão num mundo pós-Covid?

Creio que todos esperávamos que as pessoas saíssem mais conscientes da importância de se preservar o amor e a paz após esse período de pandemia. Que os preconceitos e abusos contra os mais fracos e as minorias não acontecessem mais, assim como o combate ao racismo, a violência aos idosos, às crianças fossem vistos com mais intenção de ajudar do que de divulgar. Mas não há mágica nesse processo. Não é o encontro com a fragilidade da vida que faz o ser humano mudar, pelo contrário, é a certeza de sua fortaleza, de que ele não precisa subjugar ou pisar em ninguém para ser feliz. Entretanto, alguns ainda não encontraram amor-próprio, autoconfiança e proatividade suficientes para seguir o próprio caminho, e, portanto, estão distantes do amor e do respeito ao próximo. Uma pessoa forte não precisa do exercício do poder e da violência para ser.

As pessoas carregaram muitos fardos de terceiros nesse período em sua visão?

Não sei se é uma questão de carregar fardos. As pessoas estavam confinadas em suas residências e é natural que os receios, os desabafos, as mágoas se sobressaiam num momento de crise. Quando amamos alguém, os problemas e frustrações da outra parte não podem ser consideradas um fardo e, sim, medos e fraquezas que também estamos sujeitos. Precisamos lembrar que a humanidade foi pega de surpresa. Se por um lado alguns casais não souberam aproveitar esse período juntos, outros se fortaleceram no companheirismo e na reciprocidade. Veja que a condição era a mesma, mas nesses casos houve aproveitamento do tempo e do espaço. Ressalto que essas pessoas estavam inseguras e apavoradas também, muitas delas, passando até necessidades. Por que não sentiram esse fardo? Porque souberam manter o diálogo, principalmente, se colocaram como bons ouvintes e confidentes um do outro. Foram essencialmente generosos, ou seja, utilizaram o princípio dos bons relacionamentos.

Falando um pouco mais sobre fardos. Quando ter a noção de largar algo que não lhe pertence?

Quando o amor acaba é preciso se dar nova oportunidade. Quando você se levanta e não tem vontade mais de ir ao seu trabalho é porque está na hora de produzir em outro lugar. Perceba que aqui falamos de fardos que criamos e nos recusamos a acreditar que somos os principais investidores de nossos problemas.

Há pessoas que têm dificuldade em aceitar que errou ao escolher alguém, ou que se equivocou ao aceitar uma proposta de emprego. Prefere o peso de uma companhia ou de uma estabilidade temporárias a encarar mudanças.

O apego a situações, condições, padrões, sentimentos, finanças fazem com que muita gente carregue relações tóxicas e abusivas por meses, anos, até que seja insustentável tal fardo. É comum ao culto do apego a inversão de valores, a redução da autoestima, a aceitação de migalhas.

Nesse estágio de carregar fardos, certamente, a pessoa já tem consciência de que não está satisfeita e de que permanecer ali é andar pra trás. A não ser que ela viva sob ameaça constante, e aí o assunto é outro, como disse no início da entrevista, não há razão que justifique alguém subir e descer todo dia até o calvário da desilusão e da submissão.

Existem dores quando é preciso largar algo que não lhe pertence?

Sim. Tem pessoa extremamente apaixonada por quem abusa de sua boa-fé. Principalmente, no começo da relação, em que alguns(mas) abusadores(as) se utilizam muito da técnica do morde e assopra, ou seja, cometem um ato de violência e depois demonstram um pseudo arrependimento. Prometem nunca mais fazer aquilo até a oportunidade de um próximo evento. Então, voltam a se arrepender e continuam o ciclo da maldade. Até a pessoa perceber já está totalmente envolvida no relacionamento.

Some-se a esse fato a insegurança, a carência, a falta de amor-próprio e perceba o grau de dificuldade de quem está dentro dessa cilada. A pessoa se sente culpada e, consequentemente, tem pena de quem está lhe produzindo sofrimento. Ela não sente apenas as suas dores, mas as dores do outro, como se fossem dela. Não é um processo fácil de deixar, por isso, em muitos casos, apenas a ajuda de profissionais especializados pode fazer a vítima perceber que ela é a sofredora.

Quando uma vida de excessos se torna ruim?

Costumo dizer que todo excesso tem em sua raiz algo que não se resolveu bem. A válvula de escape, normalmente, é um vício, uma mania, um apelo, uma grosseria para chamar a atenção, que sempre irá transbordar em quem está próximo. O excesso de zelo pode ser sufocante; o de carinho, torturante; o de amor, obsessivo; o de ciúmes, irritante; o de franqueza pode ser falta de educação. Veja que não existe vida boa para quem comete e para quem recebe o resultado desses excessos: a pessoa que pratica está fadada à solidão e a que suporta predestinada à depressão.

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