Philip Morris: 10 anos sem fumaça
A Philip Morris International (PMI) completa dez anos de um reposicionamento de marca ousado e calculado. A mesma multinacional que, por décadas, liderou o mercado global de cigarros tradicionais agora celebra sua metamorfose rumo a um futuro “livre de fumaça”. Em seu sexto Relatório Integrado Anual, a empresa exibe números que impressionam: mais de 38 milhões de adultos no mundo já adotaram alternativas sem combustão, disponíveis em 95 mercados e responsáveis por 39% da receita líquida da empresa em 2024.
Essa virada estratégica é parte de um esforço que se iniciou de forma mais intensa em 2008, com investimentos que ultrapassam US$ 14 bilhões em pesquisa e desenvolvimento de produtos alternativos, como o IQOS (dispositivo de tabaco aquecido) e os sachês de nicotina ZYN. Ambos foram aprovados pela FDA (Food and Drug Administration), dos Estados Unidos, como alternativas menos nocivas aos cigarros convencionais. Não são isentos de risco, vale lembrar — mas o reconhecimento regulatório da FDA sugere que, para fumantes que não desejam ou não conseguem parar, esses produtos são considerados uma forma de redução de danos.
“Contudo, essas iniciativas, embora louváveis, continuam vinculadas a uma atividade industrial que continua produzindo e promovendo o consumo de um produto nocivo à saúde.”
A Philip Morris tem promovido com afinco uma narrativa de transformação, incorporando palavras como sustentabilidade, inclusão e inovação em sua comunicação institucional. O relatório de 2024 destaca a expansão de programas ambientais, como o aumento do número de fábricas com certificação de neutralidade de carbono (de 43% em 2023 para 61% em 2024) e projetos de conservação de recursos naturais, como o “Protetor das Águas”, desenvolvido no Brasil, na cidade de Vera Cruz (RS). O programa atua com mais de 100 produtores na preservação de nascentes e tem gerado impactos ambientais positivos na região.
É inegável que há progresso. O cenário atual da PMI parece distar muito do passado da companhia, marcado por escândalos, campanhas publicitárias controversas e estratégias agressivas de mercado que impactaram gerações inteiras de consumidores. Mas seria essa mudança um verdadeiro compromisso com a saúde pública e o meio ambiente — ou apenas uma resposta inteligente às pressões regulatórias e sociais que tornaram o cigarro um produto cada vez mais marginalizado?
Uma nova narrativa, velhas contradições
Ainda que os dispositivos sem fumaça representem um avanço do ponto de vista tecnológico e possam de fato reduzir os danos associados ao fumo tradicional, é necessário olhar com cautela para o contexto em que são oferecidos. O discurso corporativo da PMI frequentemente ressalta que seus novos produtos são voltados para adultos fumantes, e não para novos consumidores. No entanto, em vários países, há preocupações legítimas sobre o apelo desses dispositivos a públicos mais jovens, especialmente quando sabores e designs atraentes são utilizados.
Além disso, a empresa ainda lucra, em muitos mercados, com a venda de cigarros tradicionais. A meta de “tornar os cigarros obsoletos” segue sendo uma promessa com data indefinida, enquanto as vendas convencionais continuam representando uma fatia relevante do negócio — especialmente em países em desenvolvimento, onde as regulações são mais brandas e o controle estatal sobre a indústria do tabaco é menos rigoroso.
No Brasil, por exemplo, onde os produtos sem fumaça da PMI ainda não são regulamentados, a Philip Morris Brasil (PMB) atua focada em sustentabilidade operacional, o que inclui ações importantes como o combate ao trabalho infantil na cadeia produtiva do tabaco e projetos de conservação ambiental. Contudo, essas iniciativas, embora louváveis, continuam vinculadas a uma atividade industrial que continua produzindo e promovendo o consumo de um produto nocivo à saúde.

A PMI parece entender que o futuro dos negócios não está mais no cigarro em si, mas no controle da transição entre formas de consumo da nicotina. Assim, a empresa não abandona o passado: ela o reconstrói. Reposiciona-se não apenas como fornecedora de produtos, mas como agente de transformação — uma mudança que, se bem-sucedida, permitirá que a empresa mantenha seu domínio no setor, agora sob o manto da “responsabilidade”.
O caso da PMI é um exemplo sofisticado de adaptação empresarial frente à crise de reputação que afetou todo o setor do tabaco nas últimas décadas. A pergunta que resta é se essa transição será capaz de realmente produzir benefícios significativos para a saúde pública global — ou se, no final das contas, será mais uma mudança de embalagem do mesmo problema. A resposta, talvez, só venha com o tempo. Mas uma coisa é certa: mesmo sem fumaça, a polêmica ainda paira no ar.
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