Como a marca Ducal Roupas virou pó?
Durante algumas décadas do século XX, vestir-se bem no Brasil passava, quase obrigatoriamente, por uma vitrine da Ducal. A marca foi mais do que uma rede de lojas de roupas masculinas: foi um símbolo de modernidade possível, de consumo parcelado e de elegância ao alcance do bolso. Seu nome carregava nobreza — remetia ao título de duque — mas também uma esperteza popular: “Ducal” vinha de “duas calças”. Comprava-se um terno e saía-se com duas calças, uma para o batente e outra para o lazer. Marketing simples, direto e absolutamente eficaz.
Nos anos 1950 e 1960, a Ducal ocupou um lugar privilegiado no imaginário da classe média-baixa urbana. Não prometia alta-costura nem cortes milimétricos de alfaiataria italiana. Oferecia algo mais pragmático: roupa decente, durável, pagável em suaves prestações. Era o terno do funcionário público, do bancário, do vendedor e do pai de família que queria “parecer sério” sem precisar vender a alma — ou o salário inteiro — para isso. A Ducal entendia o Brasil real antes que essa expressão virasse clichê acadêmico.
“A Ducal era filha de um tempo em que marca forte bastava. Não houve renovação estética consistente, nem reposicionamento simbólico. Enquanto o Brasil urbano começava a flertar com o jeans, com a informalidade e com novos códigos de masculinidade, a Ducal permanecia presa ao figurino do “homem respeitável” de outra era. Elegante, sim. Atual, não mais.”
O sucesso não veio por acaso. José Vasconcelos de Carvalho, seu fundador, soube combinar aprendizados administrativos importados dos Estados Unidos com a intuição comercial herdada do comércio familiar. Crédito farto, parcelamento longo e publicidade agressiva fizeram da Ducal uma potência varejista. A marca vestiu anônimos e famosos, expandiu-se por Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais e consolidou um modelo de negócio que parecia à prova de crises.
Mas talvez o maior pecado da Ducal tenha sido o excesso de virtude. O grupo cresceu demais, rápido demais e confiante. Não era só moda: havia indústrias, supermercados, banco, financeira, imobiliária, agência de publicidade, empresa de dados e até galeria de arte. Um verdadeiro conglomerado avant la lettre, num país que ainda engatinhava em termos de governança corporativa e proteção macroeconômica.
Crédito, inflação e o tempo que não perdoa
O problema é que o Brasil mudou — e mudou mal. A inflação crônica dos anos 1960 foi o cupim invisível que roeu os alicerces da Ducal. O modelo de vendas em até 24 prestações fixas, que havia sido o motor do crescimento, tornou-se um pesadelo financeiro. O dinheiro que entrava já não valia o mesmo quando a última parcela era paga. A cada terno vendido, a empresa perdia um pouco sem perceber. Era o lucro evaporando no ar quente da economia descontrolada.
A tentativa de salvação veio com a fusão com a Bemoreira, outra gigante do varejo. Por um breve período, a união pareceu funcionar. Mas o mundo já não era o mesmo. A moda masculina mudava, os costumes se informalizavam, o terno perdia centralidade e o consumidor começava a desconfiar do crediário longo. O que antes era sinônimo de acesso virou sinônimo de armadilha.
Além disso, a Ducal era filha de um tempo em que marca forte bastava. Não houve renovação estética consistente, nem reposicionamento simbólico. Enquanto o Brasil urbano começava a flertar com o jeans, com a informalidade e com novos códigos de masculinidade, a Ducal permanecia presa ao figurino do “homem respeitável” de outra era. Elegante, sim. Atual, não mais.
O silêncio midiático foi o último sinal. Quando uma marca some da propaganda, costuma desaparecer também da memória coletiva. As lojas fecharam aos poucos, como quem apaga a luz de um prédio andar por andar. A última resistência, em Duque de Caxias, fechou em 1986. Sem escândalos, sem grandes manchetes, sem épica. Apenas o fim.

A história da Ducal é, no fundo, uma aula brasileira de capitalismo tropical. Mostra como inovação sem adaptação vira armadilha, como crédito sem inflação controlada vira veneno e como marcas, por mais fortes que sejam, não sobrevivem apenas de nostalgia. A Ducal virou pó não por incompetência, mas porque o tempo passou — e ela não passou junto. Hoje, resta como memória elegante de um país que acreditou, por algumas décadas, que era possível comprar o futuro em suaves prestações.
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