Sua Página
Fullscreen

EUA reeditam tutela armada no Caribe

Anúncios
Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

Há momentos em que a história não pede análise — exige convocação. Quando os navios voltam a cortar o Caribe como se o calendário tivesse parado em 1989, quando sanções viram retórica moral e a palavra “narcoterrorismo” passa a justificar tudo, do bloqueio à bala, é sinal de que o presente perdeu a vergonha de dialogar com o passado. A América Latina, esse continente sempre tratado como quintal estratégico, volta a ser cenário de ensaio imperial. E, como toda repetição mal disfarçada, vem acompanhada de novas palavras para velhas práticas. Há também um detalhe que nunca muda: nenhuma dessas operações começa admitindo interesses — todas começam proclamando virtudes. Fala-se em segurança, combate ao crime, defesa da democracia, enquanto frotas avançam e conceitos jurídicos se esticam até quase romper. O vocabulário muda conforme o governo, mas o gesto é o mesmo: pressão máxima, soberania mínima. Foi por isso que chamei Simón Bolívar. Não o Bolívar de estátua, bronze e manual escolar. Mas o Bolívar inquieto, exausto das traições internas, desconfiado das potências “libertadoras”, o homem que conheceu de perto o preço da tutela estrangeira e o veneno das guerras travestidas de moralidade. Se alguém pode olhar para a escalada entre Estados Unidos e Venezuela sem cair em slogans, é ele. Bolívar retorna não para defender governos, mas para interrogar impérios. Não para absolver Maduro, mas para desnudar a lógica que sempre transforma a América em laboratório de força. Agora, deixo que ele fale.

Frederic Chaz – Libertador, como o senhor interpreta a maior mobilização militar dos EUA no Caribe desde o fim da Guerra Fria?

Simón Bolívar – Interpreto como linguagem antiga com farda nova. Quando um império move navios, ele não está dialogando; está lembrando quem tem canhões. O Caribe sempre foi o corredor por onde passam interesses, não princípios. Mudam os presidentes, permanece a doutrina: controlar o entorno para disciplinar o sul.

Chaz – A comparação com a invasão do Panamá, em 1989, é inevitável. Faz sentido?

Bolívar – Faz, e isso é justamente o mais grave. Quando o presente se parece demais com o passado, é porque não aprendemos nada. Noriega foi o vilão útil de seu tempo; hoje, o papel muda de nome, não de função. O roteiro é conhecido: demonização, isolamento, força “necessária”.

Chaz – O governo Maduro afirma que os EUA querem retirá-lo do poder. O senhor concorda?

Bolívar – Os impérios raramente se interessam por quem governa; interessam-se por quem obedece. Se Maduro fosse dócil, seria tolerável. Como não é, torna-se ameaça. Isso não é defesa da virtude venezuelana, é leitura fria da geopolítica.

Chaz – Washington acusa o regime de integrar um “círculo de comparsas” ligado ao narcotráfico. Como o senhor vê isso?

Bolívar – Vejo um problema real sendo usado como pretexto conveniente. O narcotráfico é uma chaga latino-americana, mas nunca foi combatido com honestidade pelos que lucram com seu consumo. Criminalizar governos inteiros é mais fácil do que discutir responsabilidades compartilhadas.

Leia ou ouça também:  Democracia cercada por silêncios e conluios

Chaz – Casos como o dos “narcosobrinhos” enfraquecem a posição venezuelana?

Bolívar – Enfraquecem moralmente, sim. Poder que se mistura com crime perde autoridade. Mas cuidado: corrupção local não concede licença para tutela estrangeira. Um erro não legitima outro maior. A América já pagou caro por confundir punição com intervenção.

Chaz – A administração Trump usa o termo “narcoterrorismo” como base jurídica para suas ações. O que isso revela?

Bolívar – Revela criatividade semântica para justificar violência. “Narcoterrorismo” é palavra elástica: estica-se até caber qualquer inimigo. Quando o direito vira retórica, a guerra deixa de ter limites claros. É assim que exceções viram regra.

Chaz – Os EUA dizem estar em um “conflito armado não internacional” com cartéis. Isso preocupa?

Bolívar – Muito. Porque cartéis não assinam tratados, mas bombas não distinguem culpados. Quando Estados poderosos declaram guerra a entidades difusas, quem sofre são as populações e os países fracos. É a militarização da impotência política.

Chaz – Há base no direito internacional para essas ações no Caribe?

Bolívar – O direito internacional sempre foi frágil diante dos fortes. Ele existe para organizar o mundo, não para contê-lo quando os canhões falam. Quando um país decide que sua segurança vale mais que a soberania alheia, o direito vira nota de rodapé.

Chaz – O senhor vê risco de escalada regional?

Bolívar – Sempre. A América Latina é terreno fértil para conflitos importados. Basta um incidente, uma embarcação errada, uma retórica mais inflamada, e o tabuleiro se amplia. O fogo nunca respeita fronteiras desenhadas em mapas diplomáticos.

Chaz – Por fim, que advertência o senhor deixaria aos países da região?

Bolívar – Não confundam neutralidade com submissão, nem soberania com bravata. A independência não se preserva com discursos inflamados nem com alianças cegas, mas com instituições fortes e memória histórica. Quem esquece como os impérios agem acaba chamando de ajuda aquilo que sempre foi controle.

Última atualização da matéria foi há 4 dias


Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

Facebook Comments

Anúncios
Acessar o conteúdo
Verified by MonsterInsights