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A frieza sanguinária de Anders Breivik

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Em 22 de julho de 2011, a Noruega — um país pacífico, conhecido por sua estabilidade política e baixos índices de criminalidade — foi palco de uma das mais brutais tragédias da história recente da Europa. O responsável pelo massacre foi Anders Behring Breivik, então com 32 anos, um extremista de direita que arquitetou e executou friamente dois ataques consecutivos: a explosão de uma bomba no centro de Oslo e o subsequente massacre a tiros na ilha de Utøya, onde um acampamento da juventude do Partido Trabalhista estava em curso. No total, 77 pessoas morreram, a maioria adolescentes. Catorze anos depois, o nome de Breivik ainda ressoa como um dos maiores símbolos contemporâneos do terrorismo doméstico movido por ideologia.

Ao contrário de muitos atentados cometidos por fanáticos religiosos ou grupos organizados, a ação de Breivik foi um ato solitário, meticulosamente planejado ao longo de anos. O ataque não foi resultado de impulso, mas de um projeto político macabro. No dia da tragédia, Breivik deixou publicado um manifesto de mais de 1.500 páginas em que expunha suas ideias ultranacionalistas, islamofóbicas e antimarxistas. Ele se via como um “cruzado moderno”, encarregado de salvar a Europa daquilo que considerava uma “islamização” do continente promovida pela esquerda progressista.

“Breivik pode ser uma das figuras mais frias e calculistas do século XXI, mas sua tentativa de iniciar uma “guerra cultural” fracassou. A sociedade norueguesa — e a europeia em geral — segue enfrentando desafios com resiliência.”

A principal motivação de Breivik era o ressentimento com as políticas multiculturais adotadas pelos governos escandinavos e, mais especificamente, com o Partido Trabalhista norueguês, que ele via como traidor dos valores europeus. Por isso, escolheu como alvo principal o acampamento juvenil da legenda, onde matou friamente 69 pessoas. Ao chegar na ilha vestido como policial, ele enganou os presentes antes de iniciar o massacre. Relatos dos sobreviventes descrevem uma atuação impiedosa: Breivik atirava para matar, sem hesitar, perseguindo jovens em fuga com precisão calculada. A bomba em Oslo, que matou oito pessoas horas antes, havia sido apenas uma distração.

A frieza com que Anders Breivik conduziu seus atos permanece um objeto de estudo para criminólogos e psicólogos forenses. Não havia sinais clínicos evidentes de psicose ou insanidade mental. Ao contrário: Breivik mostrou-se lúcido, coerente com sua ideologia, e obstinado em seu propósito. Isso gerou um intenso debate na Noruega e fora dela sobre os limites entre extremismo ideológico e patologia. O país optou por tratá-lo como um criminoso comum, julgando-o por seus atos dentro da legalidade e impondo-lhe a pena máxima permitida: 21 anos de prisão com possibilidade de extensão indefinida, se ele continuar a representar uma ameaça à sociedade.

Ideologia, sistema penal e memória

Em 2022, ele teve uma audiência para solicitar liberdade condicional, negada. A promotoria alegou, com base em laudos psicológicos, que ele não demonstrava remorso e ainda mantinha as mesmas convicções extremistas. A discussão sobre sua possível soltura continua a gerar tensão. A cada novo recurso judicial, as famílias das vítimas revivem o trauma, enquanto o sistema de justiça norueguês tenta equilibrar seus princípios humanistas com a necessidade de proteger a sociedade de um indivíduo que segue irredutível em suas ideias.

Breivik também tenta, de dentro da prisão, manter certa visibilidade. Suas tentativas de enviar cartas a simpatizantes, processar o Estado por supostas violações de direitos humanos na prisão e solicitar acesso à mídia revelam um interesse contínuo por protagonismo. Ele se vê como um mártir de uma causa que, felizmente, permanece amplamente rejeitada pela maioria da população europeia.

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Há, porém, um ponto delicado na forma como a sociedade trata casos como o de Breivik: o risco de fetichização ou de transformação de terroristas em ícones para grupos radicais. A extrema-direita europeia, que voltou a ganhar espaço em vários países, às vezes recorre a narrativas distorcidas de mártires ou heróis “perseguidos” pelo sistema, e Breivik já foi mencionado em alguns fóruns da internet como tal. Isso exige vigilância, não apenas das autoridades, mas também dos educadores, comunicadores e pesquisadores.

 A explosão de uma bomba no centro de Oslo causada por Breivik (Foto: Arquivo)
A explosão de uma bomba no centro de Oslo causada por Breivik (Foto: Arquivo)

A memória do que ocorreu em Utøya deve continuar sendo preservada como um alerta e uma lição. A Noruega, apesar do trauma, respondeu ao ataque com dignidade: em vez de endurecer leis de forma drástica ou perseguir minorias, reforçou sua aposta em democracia, diálogo e instituições fortes. Anders Breivik matou dezenas de jovens, mas não conseguiu destruir o espírito de uma nação que acredita que responder ao ódio com mais ódio é alimentar o ciclo da violência.

Breivik pode ser uma das figuras mais frias e calculistas do século XXI, mas sua tentativa de iniciar uma “guerra cultural” fracassou. A sociedade norueguesa — e a europeia em geral — segue enfrentando desafios com resiliência. E mesmo que o nome de Breivik permaneça como sinônimo de barbárie, o que importa agora é a resistência democrática ao tipo de ideologia que ele representa. Uma resistência que se constrói com memória, educação e compromisso com a civilidade.

Última atualização da matéria foi há 7 meses


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