As bizarrices na morte de Eva Péron
Setenta e três anos após sua morte, a figura de Eva Duarte de Péron continua a provocar tanto fascínio quanto desconforto. Evita, como era conhecida carinhosamente pelos argentinos, morreu em 26 de julho de 1952, aos 33 anos, vítima de um câncer de colo do útero. Mas foi o que aconteceu com seu corpo depois disso que escancarou uma sucessão de absurdos que envolvem culto à personalidade, necropolítica, embalsamamento extremo e uma odisseia macabra de mais de 20 anos.
Na Argentina dos anos 1950, Evita era praticamente uma santa laica. Ícone das classes trabalhadoras, esposa de Juan Domingo Perón e principal articuladora da política de bem-estar social do regime peronista, sua morte provocou uma comoção nacional. Natural, portanto, que o governo decidisse prestar-lhe homenagens fúnebres à altura de uma lenda. Mas os planos não pararam por aí: Evita não seria enterrada, e sim imortalizada.
“Evita foi sequestrada por seus inimigos e transformada em troféu pelos próprios aliados. A história de sua morte, talvez ainda mais do que a de sua vida, escancara o teatro grotesco do poder.”
Juan Perón encomendou ao médico espanhol Pedro Ara a tarefa de embalsamar o corpo de Eva para que pudesse ser exposto permanentemente ao público, à semelhança de Lenin, na então União Soviética. O trabalho de Ara foi meticuloso, científico e, ao mesmo tempo, sombrio. O corpo de Evita permaneceu por meses sendo preparado em uma funerária de Buenos Aires. Os relatos dão conta de que a pele da ex-primeira-dama foi tratada com uma solução especial de cera e acetato de vinila, conferindo-lhe uma aparência quase de estátua. O resultado era, de fato, impressionante: Evita parecia viva. Tão viva que, segundo fontes da época, era possível acreditar que ela apenas dormia.
Mas esse “sono eterno” foi interrompido por um golpe militar. Em 1955, Juan Perón foi deposto e fugiu para o exílio. Os novos governantes, fortemente antiperonistas, viam o corpo embalsamado de Evita como uma ameaça simbólica. Afinal, tratava-se de um objeto de devoção das massas e, portanto, potencial ponto de coesão para a resistência política. O cadáver precisava desaparecer. Começava, então, uma sequência de bizarrices e violações que desafiam qualquer senso de normalidade.
O corpo foi sequestrado pelo novo regime. A existência da múmia virou segredo de Estado. Durante anos, ninguém soube onde ela estava. E, pior, há relatos de que, durante esse período, o cadáver foi mantido em diversos esconderijos, como em escritórios da inteligência militar e até mesmo sob uma escada em Buenos Aires. Soldados encarregados de sua guarda relataram episódios estranhos, como surtos de alucinação e paranoia, alimentando lendas de maldições e punições sobrenaturais.
Uma múmia perseguida por militares
Em 1957, o cadáver de Evita foi contrabandeado para a Itália, com a ajuda do Vaticano, e enterrado sob o nome falso de “Maria Maggi” em um cemitério de Milão. Foi uma tentativa do regime argentino de apagar simbolicamente a figura da ex-primeira-dama. Mas não adiantou. Evita continuava a ser cultuada, ainda que em silêncio, por milhões de argentinos. Juan Perón, exilado na Espanha, pressionava pelo retorno dos restos mortais de sua esposa.
Foi só em 1971, já em um momento de abertura política na Argentina, que o corpo foi exumado e entregue a Perón. As condições da múmia eram chocantes: apesar de a preservação ter sido extraordinária, havia sinais de maus-tratos. O cadáver apresentava marcas de pancadas e perfurações, e parte do nariz havia sido danificada. Mesmo assim, Perón decidiu manter o corpo em sua casa em Madri, ao lado de sua nova esposa, Isabelita, que mais tarde assumiria um papel central nessa história insólita.
Quando Perón retornou ao poder em 1973, trouxe Evita de volta. Após sua morte, em 1974, Isabelita — agora presidente — decidiu homenagear a memória da falecida rival e ordenou que os corpos de Evita e Perón fossem expostos lado a lado. Mas os tempos haviam mudado. A Argentina mergulhava novamente em instabilidade, e mais uma vez os militares tomaram o poder. Em 1976, Evita foi devolvida à sua família e sepultada, finalmente, no cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, em um jazigo fortemente blindado para evitar profanações.

Ao longo dessas décadas, o corpo de Eva Péron atravessou continentes, foi escondido, agredido, venerado e transformado em fetiche político. A obsessão com sua imagem — viva e morta — revela não apenas a força simbólica que Evita tinha (e ainda tem) na Argentina, mas também o modo como regimes autoritários se utilizam da morte para fins ideológicos. Evita foi sequestrada por seus inimigos e transformada em troféu pelos próprios aliados. A história de sua morte, talvez ainda mais do que a de sua vida, escancara o teatro grotesco do poder.
E mesmo agora, sua figura permanece envolta em lendas, adoração e teorias conspiratórias. Evita nunca descansou em paz — e talvez isso diga mais sobre a Argentina do que sobre ela mesma.
Última atualização da matéria foi há 7 meses
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Anacleto Colombo assina a seção Não Perca!, onde mergulha sem colete na crônica sombria da criminalidade, da violência urbana, das máfias e dos grandes casos que marcaram a história policial. Com faro apurado, narrativa envolvente e uma queda por detalhes perturbadores, ele revela o lado oculto de um mundo que muitos preferem ignorar. Seus textos combinam rigor investigativo com uma dose de inquietação moral, sempre instigando o leitor a olhar para o abismo — e reconhecer nele parte da nossa sociedade. Em um portal dedicado à informação com profundidade, Anacleto é o repórter que desce até o subsolo. E volta com a história completa.




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