Ouro, Megalópolis, Abras…
Nem todo mundo tem tempo (ou estômago) para acompanhar o noticiário inteiro. É guerra lá fora, escândalo aqui dentro, político fazendo dancinha no TikTok e economista prometendo milagre com inflação alta. Enquanto isso, você tenta sobreviver à vida real. A gente entende.
Por isso nasceu o Condensado: uma dose diária de realidade em 6 tópicos, com informação quente, ironia fria e aquele comentário ácido que você gostaria de ter feito — mas estava ocupado demais trabalhando pra pagar o boleto.
Aqui não tem enrolação, manchete plantada ou isenção fake. Tem olho cirúrgico e língua solta. O que rolou (ou rolará) de mais relevante no Brasil e no mundo vem aqui espremido em 10 linhas (ou menos) por item. Porque o essencial cabe — e o supérfluo, a gente zoa.
Informação? Sim. Respeito à inteligência do leitor? Sempre. Paciência com absurdos? Zero.
Bem-vindo ao Condensado. Pode confiar: é notícia, com ranço editorial.
Ouro, contratos futuros, Markowitz e a salvação dourada do investidor cansado de ver o Ibovespa e o IPCA andarem de mãos dadas rumo ao abismo da mesmice tropical
Enquanto o brasileiro médio corre atrás da ação da vez como quem persegue um pombo dourado no calçadão de Copacabana, os mais atentos começam a flertar com um velho conhecido da humanidade: o ouro. A B3, sempre atrasada mas vaidosa, estreia os contratos futuros do metal como quem finalmente descobre que existia vida fora do CDB com cashback. A conversa é outra: descorrelação, proteção e sofisticação — três palavras que, para 90% dos investidores locais, ainda soam como jargão de seita esotérica. Mas o ensinamento de Harry Markowitz, que já tentava ensinar finanças modernas quando o Brasil ainda combatia inflação com tabelinha, reaparece como luz no fim do túnel da carteira monotemática. Diversificação, aqui, não é trocar Magalu por Itaú e chamar isso de “proteção”. Ouro não é aposta, é antídoto contra a insanidade cíclica da política monetária doméstica. E o contrato GLD, mais complexo que tutorial de imposto de renda, chega para um público que sabe que hedge não é cerca viva. Quem sabe, talvez, a B3 esteja se dando conta de que o Brasil precisa menos de euforia e mais de estratégia. Mesmo que seja à base de metal velho e brilho eterno.

SBT reabilita o Chaves pela milésima vez e reduz programa policial que ninguém admite assistir mas todo mundo comenta no WhatsApp da família
E quando você pensava que a televisão brasileira não poderia mais recorrer ao passado, eis que o SBT anuncia: o seriado Chaves voltará a ocupar três horários diários em sua grade. Como se fosse 1998. O impacto é tamanho que até o programa Tá na Hora, que finge ser jornalístico mas é basicamente um Datena sem decibéis, vai encolher para dar espaço ao menino do barril. Dani Brandi permanece no comando do tele-plantão do apocalipse, mas com menos tempo para narrar tragédias e mais espaço para a reprise da reprise da reprise do episódio do sanduíche de presunto. Silvio Santos, em seu legado espectral no além, continua moldando a grade como quem organiza uma estante de VHS: emoção, violência e Chapolin Colorado. Ninguém mais sabe se o SBT é uma emissora ou um museu de grandes novidades. O certo é que, num Brasil em que a realidade parece roteirizada por um roteirista do próprio Chaves, voltar ao humor inocente e repetitivo pode ser um refresco. Ou um sintoma grave.
Francis Ford Coppola decide tornar Megalópolis ainda mais louco porque aparentemente Hollywood precisa de alguém que seja ao mesmo tempo gênio, herdeiro de vinícola e completamente descompromissado com a lógica
Francis Ford Coppola, o único cineasta que já gastou a fortuna do vinho para bancar a própria loucura estética, está de volta com mais uma volta em torno de si mesmo. Depois de dirigir, cortar, revisar e lançar Megalópolis, ele agora resolveu que não estava esquisito o suficiente. Vai reeditar o filme com sequências de sonho que foram deixadas de fora porque, segundo ele, “tornavam tudo muito estranho”. Agora, adivinhem? Elas voltam. E tudo ficará ainda mais bizarro. Mas Coppola pode — ele é dono da obra, do vinho e da paciência da cinefilia mundial. A nova versão será lançada ao lado de uma graphic novel, um documentário chamado Megadoc (nada modesto) e uma turnê que mistura exibição do filme com debates sobre “como mudar o futuro”. Como se assistir um filme megalomaníaco de três horas fosse o suficiente para reformar a civilização. Spoiler: não é. Mas, francamente, é melhor ver Coppola delirando em IMAX do que aturarmos mais um reboot da Marvel com CGI de plástico e roteiro de planilha.
Louise Brown faz 47 anos e lembra o mundo que foi o começo da ciência fertilizadora e do fim da desculpa de que só Deus pode brincar de gênesis
Em 25 de julho de 1978, nasceu Louise Brown, a primeira criança gerada por fertilização in vitro. Quase meio século depois, ela é uma senhora respeitável — e um lembrete de que a maternidade não é mais, necessariamente, fruto de acaso, vinho barato e músicas do Roupa Nova. Com seu nascimento, abriu-se a Caixa de Pandora da reprodução assistida: hoje temos bancos de óvulos, de sêmen, de úteros e, dependendo da clínica, até de esperanças. A medicina reprodutiva já virou indústria e o milagre da vida passou a ser parcelado em 12 vezes no cartão. Enquanto isso, o Brasil segue entre o juízo moral da bancada evangélica e os custos proibitivos da clínica de fertilização. Louise Brown virou ícone silencioso de uma revolução que ainda assusta muita gente, mas sem a qual milhares de famílias não existiriam. Afinal, se até os espermatozoides agora precisam de GPS e petição judicial, quem somos nós para criticar um laboratório que joga com as regras de Darwin, só que com jaleco.
Lula chama Bolsonaro de fujão, critica tornozeleira e transforma discurso em comício do VAR da história recente brasileira, com direito a pombo-correio e lágrimas presidenciais
Num daqueles momentos em que o presidente Lula alterna entre o palanque e o tribunal da memória, o petista resolveu soltar o verbo sobre Jair Bolsonaro e seu herdeiro político e biológico, Eduardo. Chamou o ex de fujão, o atual de vergonha alheia e o pacote completo de delinquência moral. Até a tornozeleira eletrônica ganhou espaço no discurso: Lula contou que recusou o adorno tecnológico durante sua prisão, porque não é pombo-correio. A metáfora, aliás, deve ter deixado meio mundo de juristas e criadores de aves ornamentais atônitos. Como sempre, o tom oscilou entre o messiânico e o ressentido, entre o relato histórico e a revanche simbólica. Para além da verborragia, o fato é que Lula segue no comando, Bolsonaro filho segue nos EUA e o Brasil continua discutindo 2022 como se fosse ontem. A direita chora na Flórida, a esquerda bate no peito em Brasília, e o eleitor médio sonha com um país onde nenhuma família presidencial precise de habeas corpus internacional.
Consumidor brasileiro troca arroz de marca genérica por arroz premium e Abras comemora que, no país da desigualdade crônica, pelo menos agora as compras são mais gourmetizadas
O consumo nos lares brasileiros subiu 2,83% em junho e a Abras celebrou como se o país tivesse vencido a Copa do Mundo da resiliência econômica. O consumidor, que até outro dia disputava frango congelado na promoção com técnicas de MMA, agora voltou a comprar produtos de preço médio e até alto. A leitura oficial: a inflação desacelerou, o mercado de trabalho deu uma trégua e as famílias estão se permitindo um sabão líquido mais cheiroso e um queijo ralado que vem com tampa. A leitura realista: depois de meses comendo o que dava, o povo cansou de ser minimalista à força. Com o real ligeiramente mais gordo, o carrinho de supermercado voltou a incluir mimos que estavam proibidos desde o último aumento da Selic. A Abras aponta isso como tendência. Nós chamamos de suspiro. A cesta básica ficou R$ 3,56 mais barata — o suficiente, talvez, para um bombom. Gourmet. Porque brasileiro sofre, mas com estilo.

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dezembro 30, 2025
Franco Atirador assina as seções Dezaforismos e Condensado do Panorama Mercantil. Com olhar agudo e frases cortantes, ele propõe reflexões breves, mas de longa reverberação. Seus escritos orbitam entre a ironia e a lucidez, sempre provocando o leitor a sair da zona de conforto. Em meio a um portal voltado à análise profunda e à informação de qualidade, seus aforismos e sarcasmos funcionam como tiros de precisão no ruído cotidiano.




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