Surubão de Noronha: fato ou fake?
Há boatos que nascem pequenos, quase anedóticos, e outros que já vêm ao mundo com vocação para lenda urbana. O chamado “Surubão de Noronha” pertence, sem pudor, à segunda categoria. Surgiu em 2019 como quem não quer nada, mas rapidamente ganhou musculatura simbólica, virou trending topic, piada recorrente e, como toda boa fofoca nacional, atravessou o carnaval, o ano e a pandemia sem pedir licença. A pergunta que resta, anos depois, não é apenas se aconteceu, mas por que colou tão bem.
Fernando de Noronha, convenhamos, ajuda. O arquipélago é quase um personagem pronto: paradisíaco, exclusivo, caro, envolto em um certo erotismo turístico que o imaginário popular adora projetar sobre celebridades. Some-se a isso a curiosidade histórica do brasileiro pela vida íntima dos famosos — um misto de inveja, fascínio e ressentimento — e está armado o palco. Quando um perfil anônimo no Instagram resolveu misturar nomes conhecidos, insinuações sexuais e um cenário idílico, a fagulha encontrou pólvora seca.
“Há também um aspecto moral curioso. O mesmo público que se diz cansado de fake news alimenta, com voracidade, histórias como essa. Talvez porque o “Surubão” não ameaçasse eleições, vacinas ou instituições — apenas reputações já blindadas pela fama. Era uma mentira confortável, recreativa, sem consequências aparentes.”
Mas o timing foi ainda mais cirúrgico. O boato explodiu justamente quando a separação de Débora Nascimento e José Loreto dominava o noticiário de entretenimento. Nos bastidores, falava-se de uma traição com Marina Ruy Barbosa durante as gravações de O Sétimo Guardião. O público queria culpados, detalhes, lágrimas e vilões. Em vez disso, recebeu uma história tão exagerada quanto difusa: uma suposta orgia coletiva envolvendo atores globais na pousada de Bruno Gagliasso e Giovanna Ewbank. Era mais fácil rir do que apurar.
A fofoca, como toda narrativa eficiente, cumpriu sua função social. Criou ruído. Dispersou a atenção. Transformou um caso relativamente banal — traições no meio artístico não são exatamente novidade desde as tragédias gregas — em um carnaval de absurdos. Enquanto se discutia quem teria ido para Noronha e quem teria ficado de fora, a pergunta central se diluía. Quem traiu quem? E por quê? A resposta, soterrada por memes, perdeu valor noticioso.
A indústria da distração emocional
Anos depois, a cortina de fumaça foi admitida quase com naturalidade. Bruno Gagliasso e a própria Débora Nascimento reconheceram que o “Surubão” serviu como distração. Não no sentido de uma conspiração digna de John le Carré, mas como um deslocamento espontâneo da curiosidade pública. O boato oferecia algo mais saboroso do que a realidade: excesso, transgressão, uma suposta libertinagem tropicalizada. A verdade, mais prosaica, não competia em audiência.
O curioso é perceber como o episódio revela muito mais sobre o ecossistema midiático do que sobre a vida sexual de celebridades. Vivemos uma era em que a narrativa importa mais do que o fato, e o engajamento vale mais do que a veracidade. O “Surubão de Noronha” foi, nesse sentido, um produto perfeito: simples, escandaloso, replicável e impossível de comprovar. Uma fake news que não precisava convencer; bastava entreter.
A transformação do boato em meme foi o passo seguinte. A expressão passou a designar qualquer situação nebulosa, exagerada ou moralmente ambígua. Virou piada de bar, bordão de internet, referência pop. O casal Gagliasso-Ewbank chegou a se apropriar do imaginário ao criar um programa sobre relacionamentos, quase como quem doma o monstro rindo dele. A fofoca, domesticada, virou conteúdo.
Há também um aspecto moral curioso. O mesmo público que se diz cansado de fake news alimenta, com voracidade, histórias como essa. Talvez porque o “Surubão” não ameaçasse eleições, vacinas ou instituições — apenas reputações já blindadas pela fama. Era uma mentira confortável, recreativa, sem consequências aparentes. Um luxo narrativo, por assim dizer.

No fim das contas, o “Surubão de Noronha” não aconteceu como evento factual. Não houve orgia organizada, lista de presença ou roteiro digno de filme B. O que houve foi algo mais revelador: a prova de que, no Brasil, a fofoca bem contada pode ser mais poderosa do que a verdade mal explicada. Entre o fato e o fake, escolhemos quase sempre o que dá mais ibope. E depois fingimos surpresa.
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Emanuelle Plath assina a seção Sob a Superfície, dedicada ao universo 18+. Com texto denso, sensorial e muitas vezes perturbador, ela mergulha em territórios onde desejo, poder e transgressão se entrelaçam. Suas crônicas não pedem licença — expõem, invadem e remexem o que preferimos esconder. Em um portal guiado pela análise e pelo pensamento crítico, Emanuelle entrega erotismo com inteligência e coragem, revelando camadas ocultas da experiência humana.




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