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Laura Cardoso: o resplendor da longevidade

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Há artistas que envelhecem; há outros que se tornam, com o tempo, uma espécie de paisagem moral do país. Laura Cardoso pertence à segunda categoria. Não apenas atravessou gerações, regimes políticos, modas estéticas e tecnologias audiovisuais como também permaneceu inteira — no ofício, no rigor e na entrega. Seu nome não é apenas sinônimo de longevidade biológica, mas de permanência simbólica. Quando Laura aparece em cena, não entra apenas uma personagem: entra a própria história da dramaturgia brasileira.

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, no Bixiga paulistano, filha de imigrantes portugueses, Laura carrega no sotaque emocional de sua trajetória a marca de um Brasil popular, trabalhador e resiliente. Começou cedo, muito cedo, quando teatro ainda era brincadeira de rua e vocação não cabia em formulários. Aos 15 anos, contrariando expectativas familiares e o destino reservado às moças “de família”, mergulhou nas radionovelas da Rádio Kosmos. Ali, no som e na imaginação, começou a construir uma presença que ganharia mais tarde corpo, rosto e voz inconfundíveis.

“Viúva de Fernando Balleroni, parceiro de vida e de arte, Laura construiu uma carreira sem escândalos, sem mitomania e sem a necessidade de reinventar a própria biografia a cada década. Sua grande ousadia sempre foi trabalhar bem. Num país que frequentemente confunde barulho com relevância, isso é quase um ato subversivo.”

Laura não apenas assistiu ao nascimento da televisão brasileira: ela ajudou a parir o meio. Estreou nos teleteatros da TV Tupi em 1950, quando atuar era quase um exercício de sobrevivência técnica — sem videotape, sem edição, sem perdão. Errar era ao vivo, e o talento precisava ser imediato. Foi nesse ambiente rude e inaugural que Laura se consolidou como atriz de nervo firme e emoção precisa. Não é exagero dizer que ela aprendeu a atuar com a própria TV brasileira.

Ao longo de mais de sete décadas de carreira, acumulou números que impressionam, mas não definem sozinhos sua grandeza: mais de 100 trabalhos, mais de 60 novelas, dezenas de filmes, incontáveis personagens. Os prêmios — Grande Otelo, APCA, Troféu Imprensa, Shell, Troféu Mário Lago, Ordem do Mérito Cultural — funcionam quase como notas de rodapé diante do impacto real de sua obra. Laura não colecionou apenas troféus; colecionou memória afetiva nacional.

A arte de permanecer relevante quando tudo muda

O que torna Laura Cardoso fascinante não é apenas ter vivido muito, mas ter permanecido relevante em um país que costuma descartar seus veteranos com a mesma rapidez com que consome novidades. Laura atravessou a era do rádio, da televisão em preto e branco, da hegemonia das novelas, da crise do audiovisual nacional, da fragmentação do streaming — e, em todas elas, manteve-se necessária. Seu segredo nunca foi a adaptação oportunista, mas a fidelidade radical ao ofício.

Em novelas como Rainha da Sucata, Mulheres de Areia, A Viagem, Explode Coração e Chocolate com Pimenta, Laura ofereceu ao público algo raro: personagens que não eram caricaturas da velhice, mas figuras densas, contraditórias, humanas. Quando muitos roteiros insistiam em tratar idosos como ornamento ou alívio cômico, ela impunha gravidade, ironia, doçura e até crueldade — porque pessoas são assim. Laura sempre atuou contra a pasteurização.

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Há também um aspecto quase político em sua trajetória. Em um meio marcado por juventude compulsória, estética descartável e pressa narrativa, Laura é um lembrete incômodo de que profundidade exige tempo. Sua presença em cena desacelera, obriga o espectador a ouvir, a observar, a respeitar o silêncio. É uma atriz que não corre atrás da câmera; faz a câmera ir até ela.

Viúva de Fernando Balleroni, parceiro de vida e de arte, Laura construiu uma carreira sem escândalos, sem mitomania e sem a necessidade de reinventar a própria biografia a cada década. Sua grande ousadia sempre foi trabalhar bem. Num país que frequentemente confunde barulho com relevância, isso é quase um ato subversivo.

Laura ofereceu ao público algo raro: personagens que não eram caricaturas (Foto: Wiki)
Laura ofereceu ao público algo raro: personagens que não eram caricaturas (Foto: Wiki)

Laura Cardoso não é apenas uma atriz longeva. Ela é a prova viva de que o tempo, quando encontra talento e disciplina, não corrói — lapida. Seu resplendor não vem da nostalgia, mas da coerência. Em um Brasil que muda rápido e esquece fácil, Laura permanece como um farol discreto, elegante e incômodo: lembrando que excelência não tem prazo de validade.


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