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O que ainda explica o bolsonarismo?

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É possível que a primeira reação de quem acompanha a política brasileira com algum cuidado ao ver Jair Bolsonaro liderando cenários de segundo turno para 2026 seja uma mistura de perplexidade e déjà-vu. Afinal, estamos falando de um ex-presidente que se encontra inelegível por decisão unânime da Justiça Eleitoral, réu no Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe e diretamente associado a uma gestão trágica da pandemia. Como, então, ele ainda figura com quase 44% das intenções de voto? A resposta não é simples, mas é urgente.

Há, antes de tudo, um dado estrutural da política brasileira que precisa ser considerado: Bolsonaro representa uma identidade, um sentimento, e não apenas um projeto político convencional. Sua candidatura em 2018, com o discurso anticorrupção e anti-establishment, canalizou uma indignação difusa contra o sistema político tradicional, que encontrou eco justamente no antipetismo e no desgaste institucional da época. Essa identidade permanece viva entre setores importantes da sociedade, mesmo com o desgaste do bolsonarismo formal.

“O mais grave é que esse quadro reforça uma política marcada pelo ressentimento e pela negação — vota-se não por projeto, mas contra o outro. Vota-se por antipatia, não por esperança.”

Mais que isso: uma parte significativa do eleitorado brasileiro não está preocupada propriamente com a legalidade ou com o histórico judicial de Bolsonaro. Para essa parcela, o que importa é a capacidade simbólica dele em vocalizar ressentimentos, simplificar problemas complexos e oferecer respostas fáceis para dilemas difíceis. A política é, muitas vezes, um território de afetos mais do que de argumentos racionais. Bolsonaro pode ser inelegível, mas é visto por muitos como um símbolo de enfrentamento contra “o sistema”, contra “as elites”, contra a “velha política”. Não importa que tudo isso seja, na prática, uma construção retórica que mascara alianças conservadoras e fisiológicas — a imagem prevalece sobre o conteúdo.

Além disso, é preciso reconhecer o papel da polarização radicalizada no cenário atual. As opções testadas pela pesquisa — Lula, Fernando Haddad e Tarcísio de Freitas — reforçam que o eleitorado permanece dividido em dois polos quase imutáveis desde 2018. Bolsonaro, mesmo proibido de concorrer, ainda exerce o papel de principal catalisador desse sentimento conservador e antipetista. Seu nome na pesquisa é, mais do que uma medição real de uma possível candidatura, um termômetro da força desse campo político.

Tarcísio, Haddad e o voto órfão

Outro aspecto que a pesquisa CNT/MDA revela é o enfraquecimento das alternativas. Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, aparece empatado tecnicamente com Lula e à frente de Haddad. Ainda assim, não demonstra carisma ou musculatura nacional suficiente para, hoje, herdar com força o eleitorado bolsonarista. Isso indica que, por ora, boa parte desse contingente ainda prefere responder com o nome “Bolsonaro” por ausência de um sucessor natural.

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No campo petista, Fernando Haddad surge como a alternativa previsível a Lula — mas não exatamente uma alternativa entusiasmante. Sua dificuldade de furar a bolha petista, aliada ao desgaste inevitável da política econômica sob seu comando no Ministério da Fazenda, limita seu potencial. O PT continua forte, mas segue prisioneiro da imagem de Lula, que por sua vez enfrenta o desgaste de um terceiro mandato, críticas econômicas e a fadiga do eleitorado.

Esse cenário alimenta a ideia de um “voto órfão”. Bolsonaro é o pai simbólico desse eleitorado conservador, mas seu afastamento formal abre um vácuo que nenhum nome ocupou de maneira clara ainda. Tarcísio tenta, mas não consegue seduzir plenamente. Do outro lado, Lula é visto como representante de uma política que muitos rejeitam, mas Haddad ainda não conseguiu se afirmar como novidade.

O mais grave é que esse quadro reforça uma política marcada pelo ressentimento e pela negação — vota-se não por projeto, mas contra o outro. Vota-se por antipatia, não por esperança.

Bolsonaro representa um sentimento, e não apenas um projeto político (Foto: Arquivo)
Bolsonaro representa um sentimento, e não apenas um projeto político (Foto: Arquivo)

Bolsonaro ainda aparece nas pesquisas porque encarna mais um sentimento do que uma candidatura possível. O bolsonarismo continua relevante como fenômeno cultural e político, ainda que a figura de Bolsonaro esteja judicialmente limitada. As eleições de 2026 prometem ser menos sobre projetos e mais sobre identidades feridas, rancores acumulados e a busca por uma “vingança simbólica” no voto.

Se ninguém ocupar esse espaço com responsabilidade e visão, é possível que continuemos presos ao ciclo vicioso de candidatos improvisados e polarização vazia — tudo isso temperado pelo velho drama brasileiro: o medo do passado e a descrença no futuro.


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