Sua Página
Fullscreen

Sol Poente e o desprezo pela arte

Anúncios
Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

Há algo de profundamente simbólico — e involuntariamente revelador — na imagem de um quadro de Tarsila do Amaral apoiado no chão, escorado numa parede qualquer, como se fosse um espelho velho à espera de um prego. Sol Poente (1929), obra de uma artista que não apenas ajudou a inventar a modernidade brasileira, mas a vendê-la ao mundo com cores próprias, aparece ali reduzida a objeto doméstico, quase um móvel fora de lugar. Não é só um deslize estético; é um retrato moral.

A pintura, avaliada pela Justiça em cerca de 250 milhões de reais, não é apenas um ativo financeiro nem um troféu de sala de estar. Trata-se de um fragmento decisivo da história cultural do Brasil, um pedaço de imaginação nacional que atravessou o tempo. Quando uma obra desse calibre vai parar no chão, não é apenas o verniz que corre risco: é o pacto mínimo de respeito entre elite econômica e patrimônio simbólico.

“O problema não é o gosto pessoal, mas o deslocamento simbólico. Quem abriga uma obra desse porte não é apenas proprietário circunstancial: é depositário de um bem que ultrapassa o indivíduo. Arte dessa magnitude pede contexto, cuidado, consciência histórica — e limites claros entre o privado e o público.”

O que torna o episódio ainda mais revelador é o modo como veio a público. O registro não nasceu de uma investigação, nem de um vazamento constrangedor, mas da naturalidade desconcertante das redes sociais. Sol Poente (1929), pintura da artista brasileira mais valorizada no mundo, Tarsila do Amaral, foi vista no chão da casa de Roberto Setúbal, ex-presidente do Itaú, apenas escorada contra uma parede — como se aguardasse decisão sobre onde, ou mesmo se, merecia ser pendurada. A imagem foi compartilhada por Daniela Fagundes, influenciadora e empresária, à época ainda casada com o banqueiro, em publicações no Instagram que tratavam o episódio com a informalidade típica de quem exibe um detalhe de decoração, não um marco incontornável da história da arte brasileira.

Segundo a própria Daniela, o quadro havia chegado à residência no ano anterior por intermédio da galeria Almeida & Dale, hoje a mais poderosa do país. O dado é decisivo: não se tratava de um acaso doméstico, mas de uma circulação legitimada pelo topo do mercado de arte nacional. Entre stories, likes e comentários, uma obra avaliada em centenas de milhões de reais passava a operar como símbolo de distinção privada, enquanto seu peso histórico — e suas pendências legais — permaneciam deliberadamente fora do enquadramento.

Arte como luxo, não como legado

O caso ganha contornos ainda mais incômodos quando se lembra que Sol Poente estava envolta em problemas legais graves. A obra havia sido furtada de sua proprietária, Geneviève Boghici, viúva de Jean Boghici, um dos mais importantes colecionadores e negociantes de arte do Brasil, morto há cerca de uma década. Recuperado em 2022, o quadro passou a integrar um processo judicial que exige a abertura completa do inventário do marchand, incluindo todas as obras de arte, para serem listadas e divididas entre os herdeiros.

Nesse contexto, a circulação informal da pintura — ainda que apresentada como empréstimo ou visita temporária — deixa de ser detalhe e passa a ser sintoma. Revela um país onde obras fundamentais podem transitar em zonas cinzentas, amparadas por prestígio social, poder econômico e um mercado que muitas vezes opera mais por confiança entre iguais do que por transparência pública.

Não é a primeira vez que a elite brasileira confunde patrimônio simbólico com cenografia de poder. Quando Eike Batista, então o homem mais rico do Brasil, decorava sua sala com uma Lamborghini Aventador de 2,5 milhões de reais, o gesto já dizia muito sobre a estética do excesso e do espetáculo. Mais revelador ainda foi o episódio do chamado “ovo Fabergé” associado ao empresário: a peça, inicialmente tratada como raridade digna dos czares russos, revelou-se, após perícia da Polícia Federal em 2015, uma réplica barata, um souvenir de luxo que custava cerca de US$ 69. A falsidade, longe de ser detalhe, tornou-se símbolo: não apenas do colapso financeiro, mas da fragilidade cultural de um poder que se sustenta mais na aparência do que no lastro.

Leia ou ouça também:  Como estará a mídia em 2050?

Há, claro, uma ironia histórica difícil de ignorar. Sol Poente foi pintado em 1929, quando o Brasil tentava se imaginar moderno, autônomo, capaz de produzir uma estética própria. Tarsila pintava um país que desejava deixar de copiar a Europa para se interpretar a si mesmo. Quase um século depois, sua obra-prima repousa no chão, enquanto seguimos tropeçando na incapacidade de tratar nossa produção cultural como algo maior do que ornamento de elite.

Não se trata de exigir reverência litúrgica nem de transformar colecionadores em vilões automáticos. O problema não é o gosto pessoal, mas o deslocamento simbólico. Quem abriga uma obra desse porte não é apenas proprietário circunstancial: é depositário de um bem que ultrapassa o indivíduo. Arte dessa magnitude pede contexto, cuidado, consciência histórica — e limites claros entre o privado e o público.

O papel das grandes galerias, por sua vez, também merece escrutínio. Com poder de mercado vem responsabilidade institucional. Em um ambiente onde cifras são astronômicas e disputas patrimoniais complexas, espera-se rigor ético equivalente ao prestígio acumulado.

Sol Poente é avaliada pela Justiça em cerca de 250 milhões de reais (Foto: Reprodução)
Sol Poente é avaliada pela Justiça em cerca de 250 milhões de reais (Foto: Reprodução)

No fim, Sol Poente continua sendo um grande quadro. Mas o que ele ilumina agora é menos o céu imaginado por Tarsila e mais a sombra persistente do nosso desprezo pela arte — um desprezo elegante, educado, bem iluminado para fotos, mas ainda assim profundo.


Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

Facebook Comments

Anúncios
Acessar o conteúdo
Verified by MonsterInsights