A Baleia: a redenção como objetivo
Lançado em 2022, A Baleia (The Whale), dirigido por Darren Aronofsky, chegou cercado de expectativa, controvérsia e uma pergunta incômoda: até onde o cinema pode ir ao expor a dor humana sem transformar sofrimento em espetáculo? A obra, centrada em Charlie, um professor de redação recluso e com obesidade severa, não tenta ser confortável — e talvez aí esteja tanto sua força quanto sua fragilidade.
Charlie vive confinado em um apartamento, afastado do mundo, do corpo e das relações. Sua vida se resume a aulas online com câmera desligada, entregas de comida e uma culpa que pesa mais do que qualquer número na balança. Brendan Fraser, em um retorno que beira o gesto simbólico de redenção pessoal, entrega uma atuação densa, vulnerável e quase claustrofóbica. O filme depende dele — e ele sustenta, com o corpo e com o silêncio, uma história que poderia facilmente escorregar para o melodrama raso.
“Poucos filmes recentes encaram a morte com tamanha frontalidade, sem metáforas sofisticadas ou trilhas manipuladoras em excesso. O final, controverso, escolhe a elevação simbólica em vez do realismo cru.”
Aronofsky, conhecido por seu gosto por extremos (Réquiem para um Sonho, Cisne Negro, Mãe!), aqui parece mais contido, embora não menos cruel. A câmera insiste em espaços fechados, enquadramentos apertados, respiração pesada. Não há alívio visual. O espectador é obrigado a permanecer ali, como se também estivesse preso naquele apartamento, compartilhando o desconforto. É cinema que cutuca, não que embala.
Mas A Baleia não é apenas sobre obesidade, apesar de muita gente insistir em reduzi-lo a isso. O corpo de Charlie é sintoma, não causa. O centro do filme é a culpa — culpa pela morte do companheiro, culpa pelo abandono da filha, culpa por não ter sido capaz de viver como esperava. Comer, no filme, não é prazer; é anestesia. Uma escolha nada sutil, mas coerente com a proposta.
Até aqui, tudo parece caminhar para um drama humano clássico, quase teatral — afinal, o filme é baseado em uma peça. E é exatamente nesse ponto que surgem as divisões mais interessantes.
Entre o sermão e o abismo
Após o quarto parágrafo, é impossível ignorar o caráter quase catequético do roteiro de Samuel D. Hunter. Todos os personagens orbitam Charlie como figuras arquetípicas: a filha adolescente agressiva e ferida, a amiga-enfermeira que mistura cuidado e ressentimento, o jovem missionário que carrega sua própria crise de fé. Cada diálogo parece querer ensinar algo, como se o filme tivesse medo de que o público não entendesse a mensagem sem sublinhar três vezes.
Essa insistência na redenção como meta final é, em simultâneo, o motor e o limite do filme. Charlie acredita, quase religiosamente, que as pessoas são essencialmente boas. Ele repete isso como um mantra, como quem tenta se convencer antes de convencer o outro. É bonito? Sim. É simplista? Talvez. A bondade humana, quando tratada como certeza absoluta, corre o risco de virar frase de autoajuda colada na geladeira.
Ainda assim, há algo de provocativo nessa aposta. Em um mundo cínico, saturado de anti-heróis e sarcasmo, A Baleia ousa ser sincero até o constrangimento. Aronofsky parece perguntar: e se a redenção não vier do perdão externo, mas do último gesto honesto? E se não houver tempo para consertar tudo, apenas para tentar dizer algo verdadeiro antes do fim?
As críticas sobre exploração do corpo e do sofrimento não são infundadas. O filme flerta perigosamente com o voyeurismo emocional, especialmente em cenas de alimentação compulsiva, que parecem desenhadas para chocar mais do que para aprofundar. Há momentos em que a empatia é empurrada goela abaixo — sem trocadilhos — e isso pode afastar parte do público.
Por outro lado, negar a força de A Baleia seria desonesto. Poucos filmes recentes encaram a morte com tamanha frontalidade, sem metáforas sofisticadas ou trilhas manipuladoras em excesso. O final, controverso, escolhe a elevação simbólica em vez do realismo cru. Alguns veem ali poesia; outros, escapismo. Talvez seja os dois.

No fim das contas, A Baleia é um filme imperfeito, mas necessário. Não porque traga respostas novas, e sim porque insiste em perguntas antigas que evitamos fazer: o que fazemos com a culpa quando ela não cabe mais em palavras? Existe redenção sem reparação? E até que ponto contar uma história sobre dor é um ato de compaixão — ou de exposição?
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