A tensa autobiografia de Malcolm X
Há livros que pedem silêncio respeitoso; outros exigem resposta. A Autobiografia de Malcolm X, escrita em colaboração com Alex Haley, pertence à segunda categoria. Não é leitura para quem busca conforto moral ou linearidade edificante. Trata-se de um relato em combustão contínua, onde cada capítulo parece querer corrigir o anterior, como se o próprio autor estivesse em permanente estado de revisão de si mesmo. Essa tensão — entre passado e presente, fé e política, raiva e lucidez — é o verdadeiro motor do livro.
Publicado em 1965, logo após o assassinato de Malcolm X, o texto carrega uma aura quase testamentária. Não porque seja sereno, mas porque soa definitivo naquilo que tem de inacabado. Malcolm narra sua trajetória da marginalidade à militância com uma franqueza que desconcerta: o jovem Malcolm Little, o detento autodidata, o ministro inflamado da Nação do Islã, o dissidente solitário e, por fim, o homem que começa a rever certezas duramente conquistadas. Poucas autobiografias expõem com tamanha crueza o direito de mudar de ideia.
“Malcolm X não é confortável: critica o racismo branco sem suavizantes, mas também questiona ilusões internas ao movimento negro. Ele exige responsabilidade, organização e clareza política — palavras que nunca envelhecem bem.”
Alex Haley, muitas vezes lembrado apenas como coautor, funciona aqui como mediador e editor de uma voz que não aceitava domesticação. O mérito do livro está justamente nessa fricção: Malcolm X não se transforma em personagem dócil nem em herói embalado para consumo liberal. Ao contrário, o texto preserva contradições, excessos retóricos, radicalismos e recuos. Há momentos em que o leitor concorda; em outros, recua um passo, incomodado. Esse desconforto não é defeito — é método.
É impossível ignorar o contexto histórico que atravessa cada página. Os Estados Unidos dos anos 1950 e 1960, marcados por segregação racial institucionalizada, violência policial e hipocrisia democrática, aparecem não como pano de fundo, mas como antagonista ativo. Malcolm escreve contra algo — e alguém — o tempo todo. Sua linguagem é direta, por vezes brutal, mais próxima de um discurso de esquina do que de uma tese universitária. Ainda assim, há erudição ali: leituras, referências históricas e uma consciência política que se refina à medida que o livro avança.
Uma autobiografia que se contradiz
O subtítulo implícito da obra poderia ser “relato de uma metamorfose inacabada”. Diferentemente de muitas autobiografias políticas, que se organizam para justificar um ponto de chegada, esta se estrutura como processo. Malcolm X não escreve para provar que sempre esteve certo, mas para explicar por que esteve errado — várias vezes — e o que aprendeu com isso. Essa honestidade intelectual é rara, sobretudo em líderes transformados em ícones.
A fase ligada à Nação do Islã, por exemplo, é apresentada com fervor e disciplina quase militar. Malcolm defende ideias que hoje soam sectárias e essencialistas, sem pedir desculpas retroativas. Mas o livro não termina aí. A ruptura com Elijah Muhammad e a peregrinação a Meca abrem fissuras decisivas em seu pensamento. O homem que retorna vê o mundo com mais nuances, menos dogmas e mais perguntas. A tragédia está em saber que esse novo Malcolm teve pouco tempo para se desenvolver.
No Brasil, onde o livro foi publicado pela Editora Record — com edições hoje esgotadas ou fora de catálogo —, a obra sempre circulou mais como referência do que como leitura popular. Talvez porque sua radicalidade não se encaixe facilmente nem na esquerda acadêmica, nem no liberalismo identitário. Malcolm X não é confortável: critica o racismo branco sem suavizantes, mas também questiona ilusões internas ao movimento negro. Ele exige responsabilidade, organização e clareza política — palavras que nunca envelhecem bem.
Lido hoje, o livro mantém uma atualidade incômoda. Em tempos de discursos pasteurizados sobre diversidade e inclusão, Malcolm X soa como um lembrete rude de que direitos não foram concedidos por gentileza, mas arrancados sob conflito. Ao mesmo tempo, sua trajetória final aponta para algo igualmente necessário hoje: a capacidade de revisar posições, dialogar além das bolhas e reconhecer a complexidade do mundo sem abdicar da luta.

A Autobiografia de Malcolm X não é um manual, nem um catecismo. É um documento humano, falho, intenso e, por isso mesmo, indispensável. Quem o lê esperando um santo encontrará um homem. Quem busca slogans encontrará contradições. E quem aceita esse pacto — ler sem anestesia — sai transformado, ainda que desconfortavelmente. Afinal, como o próprio Malcolm parece nos dizer entre linhas: a pior forma de traição não é mudar, mas parar de pensar.
Édipo Rei: uma peça que ainda choca
janeiro 7, 2026L’Ami du peuple: uma lâmina revolucionária
janeiro 5, 2026O Exorcista: a grande obra-prima do terror
janeiro 2, 2026Revisitando o genial O Analista de Bagé
dezembro 31, 2025O fim imerso do raro Arnaud Rodrigues
dezembro 29, 2025Alô, Alô Marciano: nada mudou (ainda)
dezembro 26, 2025Sol Poente e o desprezo pela arte
dezembro 24, 2025O que sobrará na TV brasileira?
dezembro 22, 2025Ela: IA, carência, solidão e vazio...
dezembro 19, 2025A ascensão e queda de Robert Evans
dezembro 15, 2025As indagações de O Cheiro do Ralo
dezembro 12, 2025A impactante Medusa de Caravaggio
dezembro 10, 2025
Eder Fonseca é o publisher do Panorama Mercantil. Além de seu conteúdo original, o Panorama Mercantil oferece uma variedade de seções e recursos adicionais para enriquecer a experiência de seus leitores. Desde análises aprofundadas até cobertura de eventos e notícias agregadas de outros veículos em tempo real, o portal continua a fornecer uma visão abrangente e informada do mundo ao redor. Convidamos você a se juntar a nós nesta emocionante jornada informativa.




Facebook Comments