Assim Falou Zaratustra: simples e complexo
Há livros que atravessam os séculos como pedras de tropeço: ora iluminam, ora derrubam. Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, é um desses monumentos literários que ninguém consegue ler de forma indiferente. Publicado em quatro partes entre 1883 e 1885, o livro mistura filosofia, poesia, parábola, sátira e uma boa dose de provocação intelectual. É uma obra que tanto inspira quanto desconcerta, porque está menos preocupada em oferecer respostas do que em demolir certezas. Nietzsche quis criar uma espécie de “bíblia sem Deus” e acabou erguendo um livro que parece um sermão — só que contra todos os sermões.
A figura central, Zaratustra, é uma caricatura e uma reinvenção do profeta persa Zoroastro, transformado em porta-voz de ideias explosivas. Ele desce da montanha, como um Moisés às avessas, não para entregar mandamentos divinos, mas para anunciar a morte de Deus e o nascimento do além-do-homem (Übermensch). Aqui já começa a ironia nietzschiana: usa a forma de um texto religioso para demolir o próprio fundamento da religião. É como se alguém pregasse num púlpito para declarar que o púlpito não tem sentido.
“Nietzsche não queria ser manual de filosofia; queria ser obra de arte. E conseguiu. É por isso que sua leitura provoca tanto fascínio quanto exasperação.”
O livro é escrito em estilo poético, cheio de repetições, imagens e metáforas grandiosas. Nietzsche parece brincar de oráculo, ao mesmo tempo, em que encarna um bufão literário que desafia os leitores. A prosa não flui como tratado acadêmico; é ritmada, teatral, quase musical. Há quem a ache sublime, há quem a considere ininteligível. Talvez esteja aí sua genialidade: ao exigir que o leitor dance entre poesia e filosofia, Nietzsche transforma a leitura em performance intelectual. Quem lê Zaratustra não o entende de imediato — precisa mastigá-lo, engoli-lo com cuidado e, às vezes, vomitá-lo para recomeçar.
Esse é o ponto: Assim Falou Zaratustra não é para digestões rápidas. Ele pede releitura, resistência e disposição para o desconforto. O livro não foi escrito para agradar, mas para incomodar. Nietzsche propõe ideias que desafiam não apenas crenças religiosas, mas também morais, políticas e culturais. A cada página, o autor parece cutucar a ferida da civilização ocidental, lembrando que as verdades absolutas estão mais mortas que o próprio Deus que ele declarou falecido.
O eterno retorno do leitor perdido
Entre os conceitos mais enigmáticos apresentados está o do eterno retorno. Nietzsche propõe que tudo o que acontece já aconteceu e voltará a acontecer infinitamente, num ciclo sem fim. A ideia, que soa como delírio metafísico ou como experimento mental, é também um teste moral: você suportaria viver a mesma vida repetidas vezes, sem variação? A pergunta é quase uma tortura filosófica. Para alguns, trata-se de uma metáfora da responsabilidade radical: se o destino é repetir, então cada ato pesa como se fosse eterno. Para outros, é só Nietzsche rindo da nossa obsessão por sentido.
Mas a obra não é feita apenas de conceitos pesados. Há também um tom satírico que lembra tanto os pregadores de feira quanto os palhaços de circo. Zaratustra discursa para multidões, mas é raramente compreendido. Fala do além-do-homem, da vontade de potência, critica os “últimos homens” — seres acomodados, satisfeitos, medianos —, e ainda assim parece dialogar com um público que prefere cochilar. O drama cômico é que Zaratustra fala alto demais para ouvidos tão pequenos. É Nietzsche zombando da própria condição de filósofo que ninguém entende de primeira.
Ao longo das páginas, aparecem personagens alegóricos: os santos, os animais falantes, os anões, os acrobatas. É um teatro de símbolos que torna o livro tanto fascinante quanto irritante. Quem busca clareza cartesiana se perde. Quem aceita o jogo literário encontra uma obra que mistura tragédia grega com sátira popular. Nietzsche, afinal, não queria ser sistemático; queria ser intempestivo, escrever contra o seu tempo — e, por tabela, contra o nosso também.
Ler Assim Falou Zaratustra hoje é perceber que a crise de valores não envelheceu. Continuamos oscilando entre deuses mortos, ideologias em frangalhos e promessas de salvação tecnológica que lembram os velhos messianismos. O “último homem”, aquele ser preguiçoso, conformado e consumista descrito por Nietzsche, parece ter se multiplicado no século XXI em escala industrial. Zaratustra, se aparecesse agora, talvez trocasse o púlpito pela timeline do Instagram — e, ainda assim, seria ignorado entre um meme e outro.
No fim das contas, o livro é simples e complexo ao mesmo tempo. Simples, porque gira em torno de algumas ideias centrais (a morte de Deus, o além-do-homem, o eterno retorno). Complexo, porque essas ideias são apresentadas em estilo literário que desorienta. Nietzsche não queria ser manual de filosofia; queria ser obra de arte. E conseguiu. É por isso que sua leitura provoca tanto fascínio quanto exasperação.

Eis a contradição deliciosa de Assim Falou Zaratustra: é livro para eruditos e para curiosos, para quem gosta de filosofia e para quem gosta de poesia, para quem busca respostas e para quem se diverte com perguntas sem resposta. Talvez o segredo esteja justamente aí: em não procurar decifrá-lo como código fechado, mas dançar com ele como música. Nietzsche, o maestro do desconforto, compôs uma sinfonia filosófica que, 140 anos depois, ainda ecoa — ora como hino, ora como gargalhada.
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