Chacon e Corona: o HIV no destino
A história de Thales Pan Chacon e Lauro Corona não é apenas sobre dois artistas talentosos que encantaram plateias e espectadores brasileiros nos anos 1970, 1980 e 1990. É também um retrato doloroso de um país e de um tempo em que a AIDS era cercada de preconceito, silêncio e estigma — um verdadeiro labirinto moral em que a morte, muitas vezes, chegava antes da palavra. Ambos foram símbolos de uma juventude inquieta e de um talento luminoso, mas também se tornaram, involuntariamente, personagens de um drama social mais amplo: a epidemia do HIV no Brasil.
Chacon era paulistano, de traços europeus e alma brasileira, bailarino formado na dureza dos palcos e nos exercícios quase monásticos de Maurice Béjart, na Bélgica. Corona era carioca da gema, galã solar, criado à beira-mar e projetado diretamente para os lares brasileiros pela teledramaturgia da Rede Globo. Em comum, além do brilho precoce, havia o destino trágico e silencioso — o vírus que se infiltrava na vida privada, ameaçava carreiras públicas e destruía corpos e reputações num tempo em que “HIV” era sinônimo de tabu.
“Se hoje o HIV é tratável, com expectativa de vida quase normal para quem tem acesso a medicamentos, isso se deve a uma mudança radical de políticas e mentalidades — uma mudança que veio tarde para eles, mas que talvez não tivesse acontecido sem o choque causado por mortes tão simbólicas.”
Ambos viveram intensamente a explosão cultural dos anos 1980. Chacon no teatro musical e na dança contemporânea, lapidando a cena brasileira com coreografias ousadas e interpretações que misturavam paixão e rigor técnico. Corona, por sua vez, dominava o horário das seis, arrebatava multidões e ditava moda, seja com bandanas ou cortes de cabelo. Eles eram, cada um a seu modo, ícones de uma geração que queria modernizar o país, tornar a vida mais aberta, plural e cosmopolita. Mas o vírus da AIDS surgiu como uma sombra contrária àquele desejo de abertura, um lembrete cruel de que nem todo salto cultural vinha acompanhado de segurança ou compreensão.
Se Chacon assumiu para si o combate silencioso — um retorno ao palco após uma pneumonia grave, um último filme com Carla Camurati (ex-mulher e amiga) — Corona se refugiou na negação. Um escolheu a discreta resistência; o outro, a fuga para dentro de si, recobrindo-se com homeopatia e sigilo. O Brasil, nessa época, era um país que olhava para a AIDS como uma doença “dos outros”: dos gays, dos artistas, dos “marginais” — e não como uma questão de saúde pública. Assim, ambos foram também vítimas de um contexto histórico em que o preconceito matava tanto quanto o vírus.
O espelho rachado da fama
Enquanto Thales Pan Chacon continuava a trabalhar, coreografar, atuar e criar, Lauro Corona se apagava gradualmente. Seu personagem em “Vida Nova” precisou ser encerrado às pressas, numa cena simbólica de despedida — um carro que parte na noite chuvosa ao som de Fernando Pessoa. Era a metáfora perfeita para um país que não sabia lidar com a morte pública de seus ídolos, muito menos com as causas reais dessas mortes. A televisão preferia encobrir, a imprensa especulava e as famílias impunham silêncio. A AIDS, assim, se tornava um fantasma, não uma estatística.
O contraste entre os dois não deve, porém, nos enganar. Ambos estavam enfrentando o mesmo inimigo, mas sem as armas adequadas: não havia tratamento antirretroviral eficaz no Brasil dos anos 1980, o acesso à informação era limitado e o preconceito imperava até nos hospitais. A discrição era, muitas vezes, a única defesa possível contra a execração pública. Na morte de Lauro Corona, por exemplo, a palavra “AIDS” não apareceu no atestado de óbito — um gesto revelador da mentalidade da época, como se omitir a causa pudesse apagar o fato.
Esse silêncio não era apenas pessoal; era coletivo. O Brasil demorou a assumir a AIDS como questão de Estado, apesar de, paradoxalmente, tornar-se depois referência mundial no fornecimento gratuito de antirretrovirais. Mas quando Chacon e Corona precisaram, esse sistema ainda não existia, e a doença era quase sempre uma sentença de morte. Ainda assim, suas trajetórias funcionaram como um alerta para uma geração: por trás do glamour, havia vulnerabilidade; por trás do mito, havia carne e sangue.
No teatro, Chacon deixou um legado de ousadia e beleza. Na televisão, Corona foi talvez o último galã inocente, antes que o Brasil mergulhasse em uma teledramaturgia mais cínica, mais fragmentada. Os dois sintetizam um momento em que a cultura popular e a cultura erudita estavam mais próximas do que hoje: bailarinos podiam virar atores de novela, galãs de novela podiam virar cantores ou apresentadores. Essa fluidez, porém, não os protegeu do vírus nem da ignorância social.
Se hoje o HIV é tratável, com expectativa de vida quase normal para quem tem acesso a medicamentos, isso se deve a uma mudança radical de políticas e mentalidades — uma mudança que veio tarde para eles, mas que talvez não tivesse acontecido sem o choque causado por mortes tão simbólicas. O Brasil chorou Lauro Corona; lamentou Thales Pan Chacon; e, de algum modo, aprendeu com isso.
Ainda assim, é impossível não sentir o vazio deixado por esses artistas. Como seria a televisão se Corona tivesse envelhecido diante das câmeras? Que coreografias teríamos visto de Chacon, amadurecido? Essas são perguntas retóricas que expõem o tamanho da perda.

Mais do que tragédias pessoais, Chacon e Corona representam uma época e um país. Um país que aprendeu, às duras penas, que fama não imuniza contra vírus, que beleza não blinda contra preconceito e que silêncio não salva-vidas. Ao entrelaçar suas histórias, percebemos não apenas o drama de dois homens, mas o drama de toda uma sociedade diante do HIV: medo, negação, estigma e, finalmente, luto. Um luto que, se bem compreendido, pode ser também transformação.
Assim, lembrar de ambos não é apenas reverenciar suas carreiras, mas reconhecer que suas mortes foram parte de um capítulo sombrio e, ao mesmo tempo, educativo da história brasileira. Eles abriram caminhos sem querer, ensinaram sem saber, e se tornaram símbolos involuntários de uma luta que ainda não acabou. E é justamente nesse entrelaçamento — dança, novela, palco e vida — que Chacon e Corona permanecem vivos, não como mártires, mas como alertas e inspirações.
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