Como as Democracias Morrem: alerta letal
Em 2018, dois professores de Harvard — Steven Levitsky e Daniel Ziblatt — lançaram uma bomba em forma de livro. Como as Democracias Morrem não era apenas mais uma obra acadêmica destinada a acumular poeira nas estantes universitárias. Pelo contrário: soava como o sino fúnebre de um regime político que insiste em se vender como eterno, mas que vive tropeçando nas próprias contradições. Democracias não caem mais com tanques nas ruas; elas se esfarelam com tapinhas nas costas, sorrisos de palanque e leis feitas sob medida para os donos do poder. O livro tornou-se, quase instantaneamente, um manual de sobrevivência cívica — e um aviso incômodo.
Levitsky e Ziblatt descrevem um processo lento, às vezes quase imperceptível, em que políticos eleitos democraticamente corroem os próprios pilares da democracia em nome de uma suposta “salvação nacional”. Não é novidade. Do fascismo italiano ao chavismo venezuelano, passando pelos arroubos autoritários de líderes eleitos com discursos messiânicos, o roteiro é quase sempre o mesmo: primeiro se despreza a imprensa, depois se desacredita o Judiciário, em seguida se demonizam os opositores. O truque é antigo, mas sua eficácia continua aterrorizante.
“O tom dos autores é de advertência, mas não de pessimismo absoluto. Eles mostram que há anticorpos possíveis: instituições independentes, sociedade civil vigilante, cultura política que valorize o pluralismo.”
O mérito do livro está em traduzir para o leitor comum aquilo que cientistas políticos colecionaram em décadas de pesquisa: democracias não morrem de infarto fulminante, mas de uma série de pequenos infartos mal tratados. São cortes discretos, “canetadas” que parecem banais, reformas eleitorais aparentemente técnicas, mas que, somadas, equivalem a um envenenamento em doses homeopáticas. A ameaça é sutil — e por isso mesmo letal.
E não se trata de um manual datado. Ao contrário, cada crise contemporânea parece confirmar os diagnósticos de Harvard. O populismo digital, por exemplo, opera como um novo tipo de combustível autoritário. Aquele líder que, antes, precisava de rádios oficiais e jornais dóceis, hoje monta sua máquina de manipulação com memes, robôs e influenciadores sem rosto. O efeito é o mesmo: corroer a confiança pública, esgarçar as instituições e, de quebra, transformar a arena política em um reality show de mau gosto.
O alerta que não envelhece
Como as Democracias Morrem incomoda porque aponta o dedo para algo que preferimos ignorar: a democracia não é garantida por decreto, tampouco por tradição. É um organismo frágil, que depende da boa-fé de seus atores. Quando essa boa-fé desaparece, resta apenas o teatro democrático — eleições, tribunais, parlamentos — sem substância. O livro lembra que mesmo a Constituição mais bem desenhada pode ser distorcida se cair nas mãos erradas.
O tom dos autores é de advertência, mas não de pessimismo absoluto. Eles mostram que há anticorpos possíveis: instituições independentes, sociedade civil vigilante, cultura política que valorize o pluralismo. Contudo, não deixam de ironizar a ingenuidade de quem acredita que basta “cumprir a letra da lei” para manter a democracia de pé. Se fosse assim, regimes autoritários que mantêm eleições de fachada já seriam modelos de liberdade.
O debate, claro, incomoda setores que preferem acreditar na mística da “força do povo” como se fosse uma vacina automática contra a tirania. Levitsky e Ziblatt lembram que o povo também pode se apaixonar pelo autoritarismo embalado em discursos patrióticos. Hitler, afinal, não chegou ao poder por golpe, mas pelo voto. É aí que o livro se torna um espelho incômodo: se uma sociedade inteira pode cair no canto da sereia, quem garante que nós não cairíamos?
E é justamente nesse ponto que a obra se torna mais relevante hoje do que em seu lançamento. O mundo, tomado por líderes midiáticos, algoritmos que potencializam o extremismo e crises econômicas cíclicas, parece repetir as mesmas tentações que já nos levaram a becos sombrios. A história, como sempre, insiste em rimar.
O recado final de Como as Democracias Morrem é claro, embora desconfortável: a democracia é uma conquista, não um presente eterno. Ou cuidamos dela com vigilância diária — como quem rega uma planta frágil — ou assistiremos à sua lenta decomposição, celebrada com fogos de artifício por aqueles que, ironicamente, dizem defendê-la.

Levitsky e Ziblatt nos oferecem não apenas uma análise, mas um espelho. O reflexo é perturbador: democracias morrem porque cidadãos comuns as deixam morrer. O alerta é letal, mas talvez ainda reste tempo de ouvir o sino antes que ele toque a nossa própria marcha fúnebre.
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