Como estará a mídia em 2050?
É curioso pensar que, há pouco mais de duas décadas, o cheiro do jornal fresco ainda era o perfume matinal de milhões. De 2000 a 2025, assistimos — entre suspiros e “notificações” — ao crepúsculo dos impressos e à consagração do feed infinito. O jornalismo profissional, outrora a catedral da credibilidade, virou um templo saqueado pela pressa, pela opinião barata e, claro, pelos algoritmos famintos de engajamento. A mídia, que já foi o quarto poder, transformou-se num poder fragmentado, difuso, quase líquido, como se Bauman tivesse previsto também o colapso editorial.
Os anos 2000 começaram com obituários de luxo para marcas históricas. A Newsweek agonizou em PDFs antes de virar uma sombra digital. No Brasil, Jornal do Brasil, Gazeta Mercantil, Jornal da Tarde e tantas outras tombaram como se o tempo fosse um editor implacável. A Veja perdeu influência e “emagraceu”, a IstoÉ virou eco distante e o Estadão ainda resiste, como um velho samurai em campo de batalha tecnológica. As bancas desapareceram, e junto delas o ritual da leitura domingueira. O papel — outrora símbolo de seriedade — foi substituído por telas que se atualizam a cada segundo, mas esquecem com igual velocidade.
“No Brasil, o cenário não será muito diferente. As velhas empresas de mídia terão migrado totalmente para o digital, com redações descentralizadas e conteúdos financiados por assinaturas dinâmicas e micropagamentos instantâneos via blockchain.”
A internet, especialmente depois do 11 de setembro, acelerou a realidade. A transmissão ao vivo das torres gêmeas caindo inaugurou a era do “tempo real”, em que a notícia deixou de ser o relato do ocorrido e passou a ser o próprio acontecimento. A partir daí, nunca mais voltamos à normalidade. O mundo entrou no modo “breaking news” permanente, e a informação virou espetáculo — um looping infinito de tragédias, memes e teorias conspiratórias. Foi o início da era da pós-verdade, que consagrou o Google como o verdadeiro editor do planeta.
O Google, aliás, virou a redação do século XXI. Decidiu quem aparecia, quem sumia e quem merecia o clique. Já o Facebook, o Twitter (ou o que sobrou dele, agora X) e o TikTok transformaram cidadãos comuns em opinadores compulsivos. Influenciadores substituíram colunistas. Os fatos foram soterrados por emoções, e a viralização passou a valer mais que a verificação. O jornalismo, antes uma profissão de fé na verdade, tornou-se uma disputa de relevância. O pior: o público se acostumou com isso. A desinformação virou hábito — e vício.
Entre chips e consciências digitais
E agora, olhando para 2050, o que restará? O futuro da mídia parece uma mistura de ficção científica com sociologia distópica. No mundo, as grandes corporações de tecnologia já assumem oficialmente o papel de editoras universais. Google, Meta, Amazon e empresas ainda não inventadas decidirão o que é “realidade autorizada”. As redações, por sua vez, estarão reduzidas a equipes híbridas de jornalistas e inteligências artificiais — uma parceria tensa entre ética e algoritmo. O “repórter humano” será uma figura rara, talvez romântica, uma espécie de vinil num mundo de streaming informativo.
O consumo de notícias será majoritariamente sensorial. Haverá óculos de realidade aumentada que exibem manchetes no ar, lentes de contato que sugerem pautas conforme o humor e assistentes neurais que filtram o noticiário para evitar “estresse cognitivo”. A notícia será personalizada, feita sob medida para cada mente — o que soa conveniente, mas também perigoso. Afinal, se cada um tiver sua própria verdade, quem precisará de uma verdade comum?
No Brasil, o cenário não será muito diferente. As velhas empresas de mídia terão migrado totalmente para o digital, com redações descentralizadas e conteúdos financiados por assinaturas dinâmicas e micropagamentos instantâneos via blockchain. As TVs tradicionais perderão o horário nobre — porque o “nobre”, em 2050, será o tempo livre, não a faixa das oito. E os telejornais se tornarão interfaces visuais integradas ao cotidiano: o âncora, provavelmente um holograma interativo, comentará as notícias enquanto o espectador cozinha.
Mas a questão mais espinhosa será a confiança. Em 2050, o maior ativo da mídia será a credibilidade — justamente o que ela mais perdeu entre 2000 e 2025. O combate às fake news se tornará um campo de guerra automatizado, com bots checadores enfrentando bots desinformadores. Uma nova profissão surgirá: o curador de realidade, responsável por distinguir o factual do fabricado. Ironicamente, será uma função humana, não digital.
Há, porém, esperança. A saturação informacional tende a gerar o movimento oposto: um público cansado da velocidade e sedento por profundidade. Talvez voltem as “revistas lentas”, digitais, mas com alma impressa; as newsletters analíticas; os podcasts que preferem pensar a lacrar. Talvez, por paradoxal que pareça, o futuro da mídia seja o retorno a alguma forma de jornalismo artesanal, capaz de dizer: “isso aconteceu — e importa”.

Em 2050, talvez a mídia não precise mais de papel, mas continuará precisando de propósito. E, como em toda era, haverá quem lute por ele — mesmo que o mundo esteja distraído demais rolando o feed para notar.
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