“Cut Piece”: o que Yoko pretendia?
Poucas obras de arte performática carregam um peso tão desconfortável e, ao mesmo tempo, tão magnético quanto “Cut Piece” (1964), da então jovem Yoko Ono. Não se tratava de uma escultura, uma pintura ou uma instalação: era a própria artista que se tornava o objeto a ser “trabalhado” pelo público. Sentada imóvel no palco, vestida com suas roupas de uso cotidiano, Yoko oferecia ao público uma tesoura e uma permissão: cortar pedaços do seu traje até o limite do decoro — ou além dele. Era performance, provocação, filosofia zen e talvez até um auto-sacrifício mascarado de happening. Mas a pergunta que ecoa até hoje, mais de meio século depois, é: o que Yoko realmente pretendia?
É possível arriscar múltiplas respostas, e todas se chocam como prismas que distorcem a luz. Para alguns, “Cut Piece” foi um manifesto feminista radical, antecipando a discussão sobre objetificação do corpo feminino, anos antes de as ruas gritarem pelo fim da opressão de gênero. Para outros, foi uma experiência quase masoquista, uma oferenda de carne e tecido a um público ávido por transgredir sem culpa. Há ainda os que enxergam na peça uma metáfora política, uma crítica silenciosa à violência latente nas sociedades pós-guerra. Yoko nunca entregou um manual de instruções — e talvez o grande poder da performance resida justamente nessa recusa em ser decifrada de forma única.
“Talvez o que Yoko pretendia fosse justamente essa exposição das engrenagens invisíveis de poder que operam em silêncio no convívio humano. Cada corte era um voto secreto, um ato íntimo, mas realizado em público.”
É irônico que o trabalho mais discutido de Ono seja também o mais simples em termos de execução. Não há cenários elaborados, não há trilha sonora, não há recursos visuais. Apenas uma cadeira, uma mulher e uma tesoura. Mas é nesse minimalismo extremo que reside a sua potência: colocar o espectador frente ao dilema ético de cortar ou não cortar, e até onde levar esse corte. O ato banal de picotar tecido transforma-se, diante do olhar coletivo, em uma coreografia de poder, desejo e, inevitavelmente, de violência.
O desconforto cresce quando se percebe que, à medida que o público vai cortando, Yoko permanece estática, quase monástica, recusando qualquer reação emocional. Se os cortes chegassem à roupa íntima, a responsabilidade não era dela, mas da plateia. Nessa inversão cruel, a obra se tornava um espelho das pulsões humanas — e não é exagero dizer que muitos preferiam não se olhar refletidos nele.
Entre happening, sacrifício e espetáculo
É curioso notar que, enquanto os anos 60 estavam fervilhando com happenings cheios de barulho, improviso e caos performático, Yoko Ono optou por um gesto de silêncio. Nada de guitarras distorcidas, nada de manifestos gritados contra o Vietnã. Seu protesto — se é que podemos chamá-lo assim — foi se colocar vulnerável diante de desconhecidos, desarmada, imóvel e, ainda assim, paradoxalmente no controle. Pois, embora a tesoura estivesse nas mãos do público, era ela quem havia estabelecido as regras do jogo.
Alguns críticos acusaram a performance de pura autopromoção, um golpe calculado para gerar escândalo e projetar o nome de Yoko em um meio artístico dominado por homens. Outros aplaudiram a coragem do gesto, lendo nele uma ressignificação radical do papel da mulher na arte — não mais musa passiva a ser retratada, mas sujeito que expõe sua própria carne ao escrutínio. Yoko, como sempre, alimentava-se desse embate, deixando espaço para interpretações contraditórias.
Décadas depois, a performance ainda repercute porque toca em pontos que permanecem dolorosamente atuais. Em tempos de redes sociais, “Cut Piece” parece quase uma antecipação do espetáculo contemporâneo da vulnerabilidade, onde corpos são oferecidos ao corte — não com tesouras, mas com likes, comentários e julgamentos virtuais. A diferença é que, no palco de 1964, havia ao menos uma honestidade brutal: o gesto era físico, palpável, inescapável.
Talvez o que Yoko pretendia fosse justamente essa exposição das engrenagens invisíveis de poder que operam em silêncio no convívio humano. Cada corte era um voto secreto, um ato íntimo, mas realizado em público. E o acúmulo dos pedaços arrancados construía, ao final, não apenas uma nova imagem da artista, mas uma nova imagem da plateia: cúmplice, agressora, cúmplice de novo.
“Cut Piece” não oferece respostas, mas lança perguntas que incomodam: até onde você iria, se tivesse a tesoura na mão? Até onde vai sua ética quando ninguém lhe impõe limites, exceto a vergonha coletiva? E, no fim das contas, não seria isso a essência da arte — cutucar nossos instintos mais primários, despindo-nos da civilidade educada que carregamos como uniforme?

Yoko, acusada tantas vezes de ter “destruído os Beatles”, já havia demonstrado com “Cut Piece” que sua vocação era justamente essa: desconstruir certezas, rasgar tecidos simbólicos e nos deixar diante da nudez desconfortável da nossa própria humanidade. Se esse era o objetivo, ela conseguiu. E talvez seja por isso que a performance ainda arde na memória cultural: porque não fala apenas de Yoko, mas de todos nós com a tesoura na mão.
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