Dita Von Teese: a renovadora do burlesco
Num tempo em que a nudez foi banalizada por selfies em filtros, pornografia gratuita e espetáculos de mau gosto, foi uma mulher de espartilho e lábios rubros quem reensinou o mundo a arte do erotismo com classe. Heather Renée Sweet, mais conhecida como Dita Von Teese, não apenas encarnou uma personagem — ela criou uma estética. Pin-up de outra era, mas com o controle absoluto de uma CEO, ela fez do burlesco uma indústria e de seu corpo um manifesto estético, político e financeiro.
Dita é mais do que uma artista performática. Ela é uma empresária, designer, modelo, autora e, por que não, um oráculo da feminilidade vintage. Quando surgiu nos anos 1990, parecia uma anomalia. O showbiz estava afogado em ícones siliconados e programas de auditório saturados. Mas ali, entre plumas, taças de martíni gigantes e música jazz, surgiu uma mulher que oferecia ao público algo inesperado: o mistério.
“Se alguém ainda acha que burlesco é só “tirar a roupa com música de fundo”, perdeu o fio da história. A arte burlesca tem raízes na sátira política e no deboche aristocrático.”
Sua performance não é uma mera dança sensual. É coreografia de precisão, é artesania visual. Suas roupas (ou a retirada lenta delas) são o oposto da vulgaridade instantânea. O que Dita faz, desde o início, é um jogo de sedução baseado na antecipação — uma arte perdida num mundo de “nudes” instantâneos e impulsivos “likes”.
Mas não nos enganemos: por trás das rendas está uma mulher de negócios com rara inteligência de marca. Dita não se despiu para os outros — ela se vestiu de si mesma. A curadoria de sua imagem é obsessiva. Não há um cabelo fora do lugar, um sapato aleatório, uma lente errada. O que poderia soar como rigidez é, na verdade, o segredo do feitiço. Sua constância é o que a tornou única. É como se o século XXI tivesse colidido com os anos 1940 — e perdido.
Entre o fetiche e o feminismo
Há quem veja contradição entre o burlesco e o empoderamento feminino. Mas Dita nunca se propôs a agradar todas as alas. Ela se encaixa mal nos rótulos prontos. É feminista? Sim. Mas em seus próprios termos. O corpo, para ela, é propriedade intelectual. Suas performances exaltam o prazer feminino — e não o da submissão. É o olhar dela que conduz a cena, mesmo quando a plateia pensa que está no controle. Ela não oferece seu corpo como objeto, mas como argumento.
Sim, há fetiche. Sim, há artifício. Mas há também liberdade. E há lucro — o que para algumas militantes mais ortodoxas pode ser um incômodo. Dita é uma capitalista do charme. Tem linha de lingerie própria, perfumes, livros e turnês milionárias. Numa cultura que consome mulheres e as descarta na primeira ruga, ela venceu o relógio. Aos 52 anos, comanda plateias globais e é celebrada em Paris, Tóquio, Los Angeles e Berlim como uma diva contemporânea.
Se alguém ainda acha que burlesco é só “tirar a roupa com música de fundo”, perdeu o fio da história. A arte burlesca tem raízes na sátira política e no deboche aristocrático. Era, desde o século XIX, um modo de inverter papéis de poder. Dita reatualizou isso com requinte. O que ela faz não é só dança ou strip-tease: é metalinguagem corporal, ironia embalada em tule.
E, como toda arte que incomoda, ela divide opiniões
Alguns críticos mais ranzinzas insistem em minimizar sua influência, chamando-a de “artista de nicho”. Mas que outro “nicho” consegue lotar casas de espetáculo com ingressos que ultrapassam os 500 dólares, vendendo perfume com nome próprio e colaborando com marcas de alta costura? Seu alcance não se mede pela TV aberta, mas pelos efeitos de longo prazo no imaginário pop. Basta observar como o burlesco foi revalorizado por uma geração inteira de performers — homens e mulheres — que encontraram nela um novo cânone.
Dita não precisou da vulgaridade para chamar atenção. Seu silêncio entre os gestos vale mais que qualquer grito. E o que talvez mais incomode é que ela se recusa a ser uma “mulher moderna” nos moldes rasos. Não quer parecer despojada, não quer dizer que “acorda assim”, não está interessada em descontruir sua beleza. Ela é a favor da construção — meticulosa, metódica e exageradamente bela.
Talvez seja justamente isso o mais provocativo em Dita Von Teese. Enquanto o mundo clama por autenticidade de forma cada vez mais histérica, ela oferece ilusão com honestidade. “Sou uma fantasia, e sei disso.” Não há hipocrisia em sua persona, o que ironicamente a torna mais autêntica que muitas influencers que vendem imperfeições maquiadas de espontaneidade.
A renovação do burlesco que ela protagonizou não é só estética: é simbólica. Ela resgatou uma arte decadente e a reposicionou como expressão de poder feminino, de economia criativa e de provocação cultural. A vaidade, em Dita, é discurso. Cada camada de maquiagem é um ensaio sobre a construção da mulher. Cada espartilho é uma crítica ao próprio olhar masculino que espera a nudez como prêmio.
Se no século XXI os grandes artistas são os que conseguem criar mundos e permanecer fiéis a eles, Dita Von Teese está entre os gigantes. Como Madonna redefiniu o pop, como David Bowie encarnou personagens para driblar os clichês, Dita reconstruiu um gênero inteiro e o vestiu com sua pele.

Ela é, em todos os sentidos, uma autora de si mesma. E isso — com ou sem plumas — é uma forma de arte.
Última atualização da matéria foi há 6 meses
Kenneth Cooper: o pai da aeróbica moderna
dezembro 31, 2025A sofisticação musical de Roland Orzabal
dezembro 17, 2025Clint Eastwood: o anti-herói magistral
dezembro 3, 2025A arte singular de Beatriz Milhazes
novembro 19, 2025Dua Lipa: sinônimo de sexy appeal
novembro 12, 2025O cinema vigoroso de Spike Lee
outubro 29, 2025Slavoj Žižek: o astro pop da filosofia
outubro 22, 2025Joss Stone: "negra" de pele branca
outubro 15, 2025Oliver Stone: o mestre da controvérsia
outubro 8, 2025Al Gore: um autêntico ambientalista?
outubro 1, 2025Ken Loach e a arte como martelo
setembro 24, 2025Peter Tuchman: o Einstein de Wall Street
setembro 17, 2025
Eder Fonseca é o publisher do Panorama Mercantil. Além de seu conteúdo original, o Panorama Mercantil oferece uma variedade de seções e recursos adicionais para enriquecer a experiência de seus leitores. Desde análises aprofundadas até cobertura de eventos e notícias agregadas de outros veículos em tempo real, o portal continua a fornecer uma visão abrangente e informada do mundo ao redor. Convidamos você a se juntar a nós nesta emocionante jornada informativa.




Facebook Comments