George: samba do crioulo doido editorial
A revista George, sonho glamouroso e algo narcisista do igualmente glamouroso e um tanto narcisista John F. Kennedy Jr., surgiu em 1995 como uma dessas ideias que só poderiam brotar do cruzamento entre uma dinastia política e o star system midiático dos anos 1990: misturar política com cultura pop, poder com celebridade, ideologia com lifestyle, e, sobretudo, transformar a política em espetáculo. Não que isso fosse novidade — a política americana já vivia de show há décadas —, mas George decidiu assumir o show como projeto editorial, e não como subtexto. Assim, a revista vendia política com o mesmo entusiasmo com que a Rolling Stone vendia rock: capas chamativas, celebridades vestidas ou “posando” de figuras políticas, e uma crença juvenil — meio ingênua, meio oportunista — de que, se o público pudesse se divertir, até votaria melhor.
Claro, a revista nunca descobriu se os leitores queriam se divertir para votar ou para esquecer que votariam. Ainda assim, John-John — como era chamado, com a complacência afetiva da mídia — acreditava que poderia democratizar o interesse político dos jovens enquanto transformava ele mesmo num editor-influenciador avant la lettre. O problema é que, no meio do caminho, perdeu-se uma linha editorial clara. George nunca foi uma revista política séria, mas também não conseguiu ser futilmente pop como planejava. Era um híbrido instável, às vezes pretensioso, às vezes divertido, sempre bonito de olhar, ocasionalmente relevante. O tipo de produto que rende manchetes, coquetéis e depois, silêncio.
“É fácil zombar da revista com o distanciamento histórico, mas ela revela a transição de uma época. Não é que George tenha sido genial; ela apenas percebeu, antes de muitos, que política e espetáculo não se separariam mais. O que ela não imaginou é que, no futuro, o espetáculo traria a política pela coleira — e não o contrário. George acreditava que glamour tornaria o debate mais civilizado.”
O projeto editorial navegava numa limitação estrutural: tratava de política de forma performática, mas sem assumir nem o cinismo completo, nem a irreverência total. Às vezes criticava o establishment, mas o fazia com um verniz tão cosmético que, na prática, reforçava aquilo que parecia caricaturar. A estética editorial — capas com Cindy Crawford vestida de George Washington, por exemplo — parecia mais preocupada com o meme antes do meme existir do que com qualquer tese argumentativa minimamente robusta.
Se o objetivo era politizar os despolitizados, o resultado foi mais próximo de estetizar os já estetizados. Ou seja: a política virou arte pop, mas sem a densidade crítica da arte pop.
Um glamour editado com a mão trêmula
A revista também sofria do dilema ontológico de uma publicação criada por alguém cujo nome era, por si, um símbolo político americano. Kennedy Jr. queria despolitizar o sobrenome, profissionalizar a carreira e, simultaneamente, lucrar com o fetiche que o público tinha pelo sobrenome. Era como fugir do capital simbólico carregando-o na mochila. A contradição jamais se resolveu. George aspirava a ser outsider, mas nasceu dentro da elite; sonhava com rebeldia editorial, mas dependia de anunciantes conservadores; simulava transgressão, mas tinha medo de ofender.
O resultado foi uma revista com mais pose que punchline. O estilo era atrevido, porém, domesticado, como um rock star de terno Armani. A retórica editorial oscilava entre o libertário e o moralista, o ácido e o publicitário, o juvenil e o aristocrático. Por trás do discurso de “tornar política sexy”, havia uma crença quase patética de que estilo substitui substância — e que substância atrapalha estilo. Como experimento, foi audacioso; como jornalismo, confuso; como produto, irregular; como símbolo, irresistível.
Após a morte de Kennedy Jr., em 1999, a revista não perdeu apenas seu editor, mas sua razão de existir. George era, essencialmente, a extensão imagética e performática de seu fundador. Sem ele, evaporou. Continuou por alguns anos, mas com a mesma vitalidade de um clube sem sócios. Quando encerrou as atividades em 2001, pouca gente notou; quando foi relembrada, foi com nostalgia afetada, mais pela tragédia do que pelo conteúdo.
Hoje, revisitar George é revisitar um momento em que a política ainda fingia não ser entretenimento, e o entretenimento fingia não dominar o mundo. A revista antecipou algo: a estetização total do discurso público, a transformação do político em celebridade, e a conversão da opinião em performance. Mas o fez de forma hesitante, quase acidental, sem assumir o cinismo radical que hoje domina a esfera digital. Em 2025, quando a política virou TikTok e os políticos disputam likes com influencers, George parece menos uma inovação e mais uma utopia kitsch — um produto de elite tentando parecer cool, mas preso a uma elegância demodê.
É fácil zombar da revista com o distanciamento histórico, mas ela revela a transição de uma época. Não é que George tenha sido genial; ela apenas percebeu, antes de muitos, que política e espetáculo não se separariam mais. O que ela não imaginou é que, no futuro, o espetáculo traria a política pela coleira — e não o contrário. George acreditava que glamour tornaria o debate mais civilizado. A realidade mostrou que entretenimento torna qualquer debate mais infantil.

George foi o samba do crioulo doido editorial perfeito: pretensioso, confuso, sedutor, inteligente às vezes, bobo em outras, com o charme e o fracasso de quem tenta reinventar algo que não entende totalmente. Talvez por isso continue sendo lembrada: não como obra-prima, mas como símbolo de uma ambição impossível — a de transformar política em pop sem que o pop engula a política. Hoje sabemos o resultado: o pop sempre engole. E não mastiga.
Última atualização da matéria foi há 1 mês
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