Nicky Hopkins: um Crohn no caminho…
Durante as décadas douradas do rock, havia um nome que ecoava entre os bastidores e os estúdios de gravação com reverência quase litúrgica: Nicky Hopkins. Um pianista brilhante, prolífico, discreto e — como tantos gênios — atormentado. Se o palco era dominado por guitarras incendiárias e vozes estridentes, era Hopkins quem soprava alma às canções com seus dedilhados etéreos. Beatles, Rolling Stones, The Who, Kinks, Jeff Beck, Jerry Garcia — todos quiseram o toque do mago. E todos o tiveram. Ainda que, paradoxalmente, poucos fãs soubessem seu nome.
Nascido em 1944, em Londres, Hopkins era o tipo de talento que surge uma vez por geração. Estudou piano clássico, venceu concursos, mergulhou nos intricados caminhos da música erudita — para depois desaguar nas revoluções do rock britânico. Mas o que poderia ter sido uma carreira solo monumental, digna de arenas e aplausos ensurdecedores, foi contida por uma doença implacável: a Doença de Crohn. Diagnosticado na juventude, Nicky tornou-se um prisioneiro do próprio corpo, vivendo entre sessões de gravação e longas temporadas em hospitais.
“Quantos Nicky Hopkins existem hoje, sufocados por métricas e vaidades? Quantos gênios anônimos estão compondo trilhas para estrelas que mal sabem afinar instrumentos?”
O Crohn foi, de certa forma, o grande sabotador da história de Hopkins. Sua fragilidade física o impedia de sair em turnês, o que, no mundo do rock dos anos 60 e 70, equivalia a um quase anonimato. Enquanto os Stones se consagravam em palcos de estádio, Hopkins — que tocava Angie, Sympathy for the Devil e She’s a Rainbow com uma delicadeza sobrenatural — permanecia nos créditos miúdos dos encartes. Um artista de estúdio. Um lorde das entrelinhas.
Ainda assim, foi impossível apagá-lo. Suas contribuições são pedras angulares de algumas das obras mais célebres da música popular do século XX. É dele o piano hipnótico em Jealous Guy, de Lennon. É dele o lirismo em You Are So Beautiful, de Joe Cocker. E mesmo que muitos tentem resumir sua carreira como a do “pianista de aluguel”, isso é reduzir o Everest a um monte. Nicky Hopkins era parte da estrutura. Um arquiteto harmônico, sutil e — aqui vai o sarcasmo — absolutamente indispensável.
A glória do anonimato
Vivemos num tempo em que a fama virou um valor em si. Ser reconhecido vale mais que ser relevante. Influencers, TikTokers, youtubers e a fauna adjacente lotam os feeds com dancinhas, gritos e monólogos vazios. Nesse cenário, a trajetória de Nicky Hopkins soa como um insulto à lógica moderna: um homem que moldou a história da música e que morreu praticamente desconhecido do grande público. Morreu aos 50 anos, em 1994, vítima das complicações do Crohn — sem fortuna, sem pompa, mas com um legado que os algoritmos não conseguem deletar.
E o que esse legado nos diz? Que talento não garante prestígio. Que os bastidores podem ser mais nobres do que o centro do palco. Que a genialidade, por vezes, não cabe sob holofotes. Hopkins era o anti-ídolo perfeito: magro, frágil, introspectivo, sem carisma midiático — mas com uma música que arrancava lágrimas de guitarristas com egos do tamanho da Muralha da China.
É curioso pensar como os próprios colegas o reverenciavam. Keith Richards chamava-o de “o melhor músico que já passou pelos Stones”. Pete Townshend dizia que ele transformava qualquer faixa numa peça de arte. George Harrison o tratava como um iluminado. E, no entanto, o grande público continuava perguntando: “Nicky quem?”.
Isso revela algo incômodo: o quanto a música — e a arte em geral — pode ser injusta com seus heróis ocultos. Quantos Nicky Hopkins existem hoje, sufocados por métricas e vaidades? Quantos gênios anônimos estão compondo trilhas para estrelas que mal sabem afinar instrumentos?
Em um tempo que valoriza mais a performance do que a substância, Hopkins permanece como um lembrete de outra era: a dos músicos que faziam música — e não marketing. Ele é, por isso mesmo, uma espécie de santo patrono dos talentos invisíveis. Aqueles que, mesmo sem aplausos, fazem o espetáculo acontecer.

Nicky Hopkins teve um Crohn no caminho, sim. Mas o que fez com esse caminho — entre dores, internações e teclas — é de uma beleza que transcende a biografia. Ele não foi apenas um pianista. Foi o coração invisível de uma revolução sonora. E como todo coração invisível, pulsava sem que notássemos — mas era ele quem nos fazia dançar.
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