O primordial Cem Anos de Solidão
Há livros que não envelhecem, apenas amadurecem. Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, é um desses organismos literários que respiram mesmo quando fechados na estante. A obra, lançada em 1967, é uma espécie de Bíblia laica da América Latina — uma fusão de mitologia, política, sexo e poeira —, onde o realismo mágico não é apenas um estilo, mas um estado de espírito. Ler Cem Anos de Solidão em 2025 é confrontar a atualidade de uma loucura coletiva: a de uma humanidade que gira em círculos, tal como a família Buendía.
Macondo, o vilarejo imaginário onde tudo acontece (ou se repete), é a metáfora perfeita de um continente condenado a repetir seus próprios erros, entre golpes, coronéis e ilusões de progresso. García Márquez escreveu sobre a Colômbia, mas poderia estar falando do Brasil, da Venezuela ou de qualquer país que ainda sonhe com sua própria fundação. Seu realismo mágico é menos uma fuga da realidade e mais um espelho deformante — tão verdadeiro que chega a incomodar. Porque, convenhamos, o exagero é o modo mais honesto de retratar a América Latina.
“Ao reler o livro hoje, é impossível não pensar na solidão moderna — essa feita de telas, opiniões e pressa. O isolamento dos Buendía é físico, mas o nosso é digital. Macondo era uma aldeia perdida; nós, um conjunto de ilhas conectadas por Wi-Fi. E, no fundo, a sensação é a mesma: todos falando, ninguém escutando.”
Cada personagem da saga Buendía parece carregar uma maldição ancestral: o peso do tempo e a incapacidade de aprender com ele. José Arcadio Buendía, o patriarca, constrói Macondo como quem inventa o mundo, e termina afogado em seus próprios delírios científicos. Úrsula, a matriarca que vive mais de um século, tenta manter a casa e a moral em pé, mas é arrastada pela torrente do destino familiar. Amaranta, Aureliano, Remédios, Fernanda — todos os Buendía vivem tentando escapar de si, e falham gloriosamente. É como se a repetição fosse a verdadeira herança latino-americana.
A solidão do título é menos existencial do que coletiva. É a solidão de um povo que não se reconhece no outro, de uma história que insiste em recomeçar do zero. O livro é também uma enciclopédia da melancolia, onde o tempo é uma serpente que engole o próprio rabo. García Márquez cria uma narrativa que desobedece à cronologia — o tempo se dobra, se repete, se apaga. E nesse caos hipnótico, há uma sabedoria brutal: não há progresso sem memória, e Macondo é justamente o lugar onde a memória se apaga com o vento.
Um milagre literário que cheira a pólvora e maracujá
O realismo mágico de Márquez não é uma invenção gratuita, mas uma necessidade estética e política. Quando a realidade é absurda, só o delírio é capaz de dizer a verdade. Por isso, Cem Anos de Solidão mistura o nascimento de crianças com rabos de porco com guerras civis e chuva de flores amarelas. É uma narrativa que faz o impossível parecer cotidiano — e o cotidiano, absurdo. Márquez pega o improvável e o transforma em documento histórico. E é por isso que sua literatura continua viva, mesmo em tempos de redes sociais e inteligências artificiais que acham que poesia é só algoritmo.
Ao reler o livro hoje, é impossível não pensar na solidão moderna — essa feita de telas, opiniões e pressa. O isolamento dos Buendía é físico, mas o nosso é digital. Macondo era uma aldeia perdida; nós, um conjunto de ilhas conectadas por Wi-Fi. E, no fundo, a sensação é a mesma: todos falando, ninguém escutando. Se García Márquez escrevesse hoje, talvez Macondo tivesse um perfil no Instagram, e Aureliano Buendía seria um influenciador da melancolia, vendendo cápsulas de lembranças artificiais.
Mas não há IA capaz de recriar o perfume febril de Cem Anos de Solidão. Cada frase é um tecido bordado com mitologia, religião, política e desejo. Ler Márquez é como entrar numa missa tropical — com incenso, cigarras, santos e pecadores dançando no mesmo altar. O autor não escreve, ele invoca. E o leitor, coitado, se vê enredado nesse feitiço literário, tentando sair de Macondo e descobrindo que Macondo é o mundo inteiro.
Há quem diga que Cem Anos de Solidão é o romance mais importante do século XX. Talvez seja. Mas, acima de tudo, é um livro necessário. Porque ele nos obriga a lembrar que a história — pessoal, familiar ou continental — é um loop. E que, sem consciência, estamos condenados a repeti-la até o esquecimento final. A última linha do livro, em que se revela que “as estirpes condenadas a cem anos de solidão não têm uma segunda oportunidade sobre a terra”, não é apenas o destino dos Buendía: é um epitáfio para nós todos, que seguimos confundindo progresso com amnésia.

O primordial em Cem Anos de Solidão não é a magia, mas a lucidez escondida nela. É o aviso de que o homem, por mais tecnológico, ainda é uma criatura de poeira e mito. E que, no fundo, seguimos construindo nossos próprios Macondos — cheios de sonhos, erros e repetições. Talvez seja isso que chamamos de civilização. Ou, quem sabe, apenas outro século de solidão.
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