O Xangô de Baker Street: fraco?
Há trinta anos, “O Xangô de Baker Street” continua uma espécie de elefante literário no salão brasileiro: grande, vistoso, simpático, mas cuja elegância é sempre questionada pelos convidados. Publicado em 1995, o romance de Jô Soares virou um daqueles artefatos culturais que, mais do que lidos, são lembrados — e essa lembrança vem carregada de adjetivos extremos, do “brilhante” ao “cafona”. É um livro que, ao mesmo tempo, incomodou críticos, seduziu leitores e inaugura uma época em que o humorista queria ser reconhecido como escritor sério (ou como escritor debochado, o que também demanda seriedade). A pergunta que sobrevoa o texto, porém, é a mais trivial e cruel: é bom ou ruim?
Para começar, ele é um romance histórico-pastelão que imagina Sherlock Holmes investigando assassinatos no Rio de Janeiro imperial. A ideia é tão absurda que seduz automaticamente quem aprecia a combinação do refinado britânico com o bizarro tropical. Jô Soares se diverte com detalhes históricos, exageros comportamentais e notas pornográficas de humor — e o leitor, se souber entrar no registro, também se diverte. Mas o humor do livro, datado nos anos 90, carrega tiques que hoje soam meio esgotados: erotismo caricatural, feminilidade caricata, personagens-clichê e digressões intermináveis que parecem esquetes televisivas transcritas.
“Há quem considere “O Xangô” um pastiche preguiçoso, com humor rasteiro e personagens descartáveis. Esse grupo tem bons argumentos: Jô se repete, exagera, alonga demais certas passagens e subestima o leitor ao recorrer a trocadilhos previsíveis. Mas a crítica, muitas vezes, confunde gosto estético com diagnóstico cultural.”
É quase impossível não enxergar o humorista por trás do narrador, e talvez esteja aí a maior fraqueza formal. Jô escreve como se contasse uma história em mesa de bar: há graça, há irreverência, há ritmo — e há zero preocupação com rigor estilístico. Não que ele não saiba escrever; ele simplesmente escreve como quem não está nem aí. Para alguns, isso gera charme libertário; para outros, descuido irritante. A prosa é recheada de referências históricas, mas raramente chega à densidade literária que os apaixonados por romances históricos esperam. O livro flerta mais com Monty Python do que com Umberto Eco.
Outro ponto problemático é que, embora a premissa seja engenhosa, a execução narrativa é irregular. O romance tem picos hilários, cenas memoráveis e diálogos afiados — e, entre eles, longos trechos morosos que parecem escritos para alongar a piada, não a história. A impressão de que o livro envelheceu mal não vem da sua trama, mas da sua forma: a cultura pop dos anos 90 tinha essa cara de colagem caótica e dispersiva. Hoje, esse mesmo traço soa cansaço estrutural.
Um romance querido, odiado e necessário
Se “O Xangô de Baker Street” estivesse condenado apenas à sua fragilidade estrutural, já teria sido esquecido. Mas ele sobrevive porque, no fundo, é um livro necessário na memória cultural brasileira. Colocar Sherlock Holmes no Rio de Janeiro é uma operação simbólica de alto humor: a importação da sofisticação inglesa para o país das elites improvisadas e dos ritos afro-brasileiros. O livro é, antes de tudo, uma sátira do Brasil — do Brasil de 1880, mas também do Brasil de 1995, e o resultado involuntário é que diz algo sobre o Brasil de hoje.
Jô Soares ironiza a elite nacional, a política, a sexualidade, o formalismo inglês e o exotismo brasileiro com a mesma malícia. Há, claro, quem diga que o autor se contenta com a piada fácil e que, ao transformar tudo em deboche, ele acaba atirando para todos os lados e acertando poucos alvos. É verdade. Mas, dentro do caos, existe uma inteligência satírica notável: o livro expõe a vocação brasileira para a farsa — e para transformar suas barbáries em entretenimento.
É, portanto, uma obra que não “funciona” pelos critérios tradicionais de grande literatura, mas que funciona como documento cultural: um retrato de como a elite urbana dos anos 90 enxergava a própria história, com cinismo, autodepreciação e piadas sujas. O fato de muitos leitores amarem o livro sem culpa diz muito sobre o país que amamos rir de si porque teme se levar a sério.
O problema é que nem todo mundo acha graça. Há quem considere “O Xangô” um pastiche preguiçoso, com humor rasteiro e personagens descartáveis. Esse grupo tem bons argumentos: Jô se repete, exagera, alonga demais certas passagens e subestima o leitor ao recorrer a trocadilhos previsíveis. Mas a crítica, muitas vezes, confunde gosto estético com diagnóstico cultural. O livro é tosco porque representa uma cultura tosca — e, paradoxalmente, é aí que reside sua genialidade.
Dizer que o romance é fraco é fácil. Difícil é reconhecer que sua fraqueza é parte de um projeto estético: ele retrata um Brasil grotesco com linguagem grotesca. Não há sutileza porque o objeto não a merece. Não há personagens profundos porque a elite brasileira nunca foi profunda — apenas performática. Não há erudição porque a erudição tropical sempre pareceu fantasia de salão.

“O Xangô de Baker Street” não é grande literatura, mas é grande acontecimento. Mexeu com leitores, críticos, cineastas, acadêmicos e, acima de tudo, com o imaginário popular. Jô Soares sabia que escreveria um livro polêmico, que agradaria uns e desagradaria outros — e, no Brasil, isso já é obra de arte. Se o romance é fraco? Talvez. Mas, no país dos projetos inacabados, ele é um fracasso mais interessante, mais divertido e mais inesquecível do que muito sucesso “sério” que ninguém teve paciência de terminar.
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