Queermuseu: polêmica e conservadorismo
A história do Queermuseu — Cartografias da diferença na arte brasileira parece saída de um roteiro que mistura Macunaíma com 1984: um país dividido entre a ousadia artística e o moralismo de auditório. Em 2017, quando a mostra foi aberta no Santander Cultural, em Porto Alegre, o Brasil descobriu que a arte ainda pode causar escândalo — algo raro num tempo em que tudo já parece ser permitido desde que seja pasteurizado. Mas bastaram algumas imagens circulando nas redes, recortadas, descontextualizadas e temperadas por indignação seletiva, para transformar uma exposição de arte em caso de polícia.
O Movimento Brasil Livre — aquele que nasceu contra a corrupção e acabou militando contra o nu artístico — acusou a mostra de apologia à pedofilia, à zoofilia e de vilipêndio religioso. Três palavras fortes, inflamáveis, perfeitas para acionar o alarme moral nas redes sociais. A tempestade digital veio rápida: hashtags, vídeos indignados, ameaças e o inevitável cancelamento, não das ideias, mas da própria exposição. O Santander, com sua alma de banco e não de mecenas, recuou. Alegou que algumas obras “desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas”. Tradução: o caixa eletrônico não gosta de confusão.
“O cancelamento da mostra, porém, gerou um efeito inverso. Transformou o Queermuseu em símbolo da resistência cultural. Em 2018, com financiamento coletivo, a exposição renasceu no Parque Lage, no Rio de Janeiro, recebendo mais de dez mil visitantes. A censura acabou servindo de marketing involuntário.”
O episódio transformou o país em palco de uma discussão sobre os limites da liberdade artística e o poder das redes em moldar a censura contemporânea. De um lado, artistas e intelectuais defenderam a mostra como expressão legítima da diversidade e da reflexão sobre sexualidade, religião e poder. Do outro, grupos conservadores viram blasfêmia, pornografia e decadência moral. No meio, uma multidão de espectadores atônitos — muitos sem ter visto sequer uma obra — assistia à fogueira simbólica arder pelas telas do celular.
O curador Gaudêncio Fidelis, convocado coercitivamente ao Senado por Magno Malta, virou o vilão oficial de um enredo que misturava arte contemporânea e tribunal de inquisição. Ele explicou o óbvio: das 263 obras expostas, apenas cinco foram usadas para sustentar as acusações, e mesmo assim fora de contexto. Um detalhe irrelevante num país onde o contexto raramente sobrevive ao compartilhamento.
A CPI dos Maus-Tratos Infantis quis transformar um debate estético em caso criminal. E quando o relator apresentou uma obra que nem fazia parte da mostra como “prova”, o teatro da moralidade atingiu o clímax.
A arte como bode expiatório
O que se viu no caso Queermuseu não foi apenas censura, mas a reedição tropical de um velho ritual: o sacrifício da arte em nome da pureza dos bons costumes. Em vez de perguntar o que essa obra quer dizer, preferiu-se perguntar quem ela ofende. É um sintoma do nosso tempo — e também de uma fragilidade coletiva diante daquilo que desafia a norma. A arte, quando toca em nervos sociais, costuma ser confundida com provocação gratuita. Mas seu papel sempre foi esse: incomodar. Um país que teme o incômodo é um país que desconfia da própria liberdade.
Adriana Varejão, uma das artistas envolvidas na polêmica, resumiu bem: sua obra “é uma compilação de práticas sexuais existentes, históricas, literárias, ou observadas — não para julgar, mas para iluminar o que se esconde”. Essa ideia — iluminar o escondido — parece ser o verdadeiro pecado. O Brasil aceita a violência no noticiário e a hipersexualização na publicidade, mas se escandaliza diante da representação artística do mesmo fenômeno. É a velha contradição moral que nos assombra desde a Colônia: pecamos à vontade, desde que ninguém pinte o quadro.
O cancelamento da mostra, porém, gerou um efeito inverso. Transformou o Queermuseu em símbolo da resistência cultural. Em 2018, com financiamento coletivo, a exposição renasceu no Parque Lage, no Rio de Janeiro, recebendo mais de dez mil visitantes. A censura acabou servindo de marketing involuntário. O que antes era um evento local virou bandeira nacional de defesa da arte livre. Ironia das ironias: os que queriam “proteger as crianças” acabaram dando publicidade gratuita a uma exposição que poucos conheciam.
O caso deixou sequelas. Após o acordo com o Ministério Público, o Santander pagou R$ 420 mil, parte destinada a projetos culturais ligados a direitos humanos. Um gesto reparatório — ou um recibo moral de quem tenta limpar a imagem. Em 2021, surgiu a mostra “Fora da Margem”, dedicada a artistas LGBTQIA+, como resposta direta ao fechamento do Queermuseu. A arte, como sempre, não morre: apenas muda de endereço.
Mas a lição maior permanece. O Queermuseu expôs, mais do que corpos nus, a nudez da nossa democracia cultural. Mostrou o quanto ainda somos vulneráveis ao pânico moral e à chantagem do conservadorismo digital. E revelou que a censura contemporânea não precisa mais de decreto — basta um trending topic. Vivemos o tempo em que a indignação virou passatempo e o julgamento, entretenimento.

Em um país onde bancos cancelam exposições e senadores interrogam curadores, a arte continua sendo a última trincheira da liberdade — e também a primeira vítima da ignorância. O Queermuseu não foi o escândalo que disseram; foi o espelho que muitos se recusaram a encarar. E é sempre assim: quando a arte nos mostra o que somos, preferimos quebrar o espelho a admitir o reflexo.
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