Roger Vadim: uma anedota em sua morte
Roger Vadim talvez seja menos lembrado por seus filmes do que por seu currículo amoroso, um legado que incomoda e fascina em igual medida. O cineasta francês, nascido Roger Vadim Plemiannikov, foi uma figura que soube ocupar o espaço entre a cinefilia intelectualizada da Nouvelle Vague e o fascínio mundano das colunas de fofoca. Entre Bardot, Deneuve e Jane Fonda, ele parecia mais um colecionador de musas do que um diretor com um projeto estético consistente. E, no entanto, há quem sustente que ele transformou o cinema francês dos anos 50 e 60, abrindo espaço para uma sensualidade que a tela ainda tratava com constrangimento.
Sua obra-prima não é consenso, mas muitos lembram de E Deus Criou a Mulher (1956), estrelado por Brigitte Bardot, como um divisor de águas: de repente, a juventude ganhou corpo, pele e desejo. Vadim, nesse sentido, foi menos um criador de estilo do que um catalisador de época. Fez filmes que hoje parecem datados, mas que à época explodiam como manifesto de liberdade. Ele próprio encarnava o personagem que filmava: charmoso, boêmio, adepto do hedonismo sem culpa. Sua filmografia se espalha entre dramas eróticos e experimentos de fantasia, sempre mais interessados em corpos do que em ideias.
“No Cemitério Marinho de Saint-Tropez, um repórter teria se aproximado de um homem que chorava inconsolável. Perguntou-lhe: “Era parente dele?”. O sujeito, em meio às lágrimas, respondeu: “Precisa ser alguém para chorar pela morte do homem que transou com Brigitte Bardot, Catherine Deneuve e Jane Fonda?”
No entanto, Vadim não era apenas um “sedutor serial” disfarçado de cineasta. Havia nele uma intenção de desafiar convenções burguesas, de mostrar que o erotismo feminino não era propriedade masculina. Em suas atrizes, a sensualidade vinha acompanhada de uma autonomia incômoda, algo que críticos misóginos da época interpretaram como vulgaridade. Para o bem ou para o mal, Vadim plantou sementes de um cinema que reconhecia o corpo feminino como potência narrativa. Ainda que sua câmera tivesse mais desejo que crítica, abriu caminhos para que outras vozes mais contundentes viessem depois.
Vadim morreu em 2000, vítima de câncer, com 72 anos. Sua morte encerrou não apenas uma vida, mas uma era de glamour franco-hollywoodiano que hoje parece ingênua diante das obsessões digitais contemporâneas. O enterro, em Saint-Tropez, não foi apenas o adeus a um homem: foi o epitáfio de um estilo de viver e filmar. E é aqui que entra a anedota, meio trágica, meio cômica, quase uma metáfora perfeita do que foi sua existência.
O choro, a piada e o mito
No Cemitério Marinho de Saint-Tropez, um repórter teria se aproximado de um homem que chorava inconsolável. Perguntou-lhe: “Era parente dele?”. O sujeito, em meio às lágrimas, respondeu: “Precisa ser alguém para chorar pela morte do homem que transou com Brigitte Bardot, Catherine Deneuve e Jane Fonda?”. A frase, cruel e espirituosa, talvez resuma melhor a biografia de Vadim do que qualquer ensaio acadêmico. Seu legado, ao menos para a memória popular, não foi a câmera ou a mise-en-scène, mas a lista de mulheres com quem se envolveu. É triste? É. Mas também é irônico que um diretor que tentou dar ao corpo feminino centralidade cinematográfica tenha ele mesmo sido reduzido a uma caricatura de Don Juan.
Essa anedota, repetida em revistas e conversas de bastidores, revela a ambiguidade que Vadim cultivava sem querer: era artista, mas virou lenda sexual. Talvez ele não se importasse. Talvez até preferisse. Afinal, o escândalo sempre foi combustível de sua carreira. Seu cinema nasceu do choque, da insinuação, da libertinagem que irritava conservadores. No fim, a piada do cemitério é apenas a última cena de um roteiro que ele próprio escreveu com sua vida.
E há algo de profundamente francês nesse desfecho. A França tem esse talento peculiar de transformar o escândalo em charme, o excesso em cultura. Vadim entra nessa galeria de figuras que fizeram do prazer uma estética, que transformaram a vida privada em espetáculo público. Enquanto Hollywood endeusava a moralidade hipócrita, ele oferecia o anti-herói do amor livre, o cineasta que se confundia com seus personagens.
No entanto, talvez seja injusto lembrar de Vadim apenas pelo anedotário de alcova. Ele foi também o homem que abriu portas para atrizes se tornarem ícones globais, que acreditou no carisma magnético de Bardot antes de todos, que ajudou a projetar Catherine Deneuve e que desafiou Jane Fonda a se reinventar no cinema europeu. Sua contribuição, ainda que irregular, está no impacto cultural que provocou. Foi mais faísca do que fogo, mas sem a faísca, o incêndio da modernidade não teria começado.

Hoje, ao revisitar sua obra, o espectador encontra mais curiosidade histórica do que prazer estético. Mas há um frescor insolente que ainda pulsa. Vadim pode não ter sido um gênio do cinema, mas foi um protagonista da cultura, alguém que entendeu que o século XX queria ver mais pele, mais liberdade e mais desejo. Morreu cedo demais para ver como esse desejo se dissolveria no pornô industrial e nas redes sociais, mas talvez, se estivesse vivo, até risse da ironia: agora todos são Roger Vadim em potencial, com suas câmeras na palma da mão.
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