Um estro esquecido chamado Sérgio Sampaio
Há nomes na música brasileira que parecem viver em um limbo desconfortável: conhecidos demais para serem chamados de obscuros, ignorados demais para figurarem nas prateleiras luminosas da memória oficial. Sérgio Sampaio é um desses casos incômodos. Um artista que teve brilho, coragem estética, parcerias importantes e uma obra de respeito — mas que, por uma conjunção de azar, rebeldia e mercado ingrato, acabou relegado ao rodapé da história enquanto outros, talvez menos inventivos, ascenderam ao panteão.
Filho de Cachoeiro de Itapemirim, o mesmo berço de Roberto Carlos, Sampaio tentou trilhar seu próprio caminho no Rio nos anos 1970. Não tinha a voz aveludada do conterrâneo, tampouco a docilidade melódica que fazia o país inteiro suspirar nas paradas de sucesso. O que ele tinha era outra coisa: inquietação. Daquelas que não se vendem por metragem. Uma inquietação que se torce, que ruge, que ironiza, que se embebeda, que protesta. E, claro, que incomoda.
“Sérgio Sampaio ocupava — e ocupa — outra geografia. A geografia dos inquietos. Dos que preferem a fissura ao acabamento. Dos que não têm medo de cantar desafetos, delírios, fracassos e pequenas epifanias urbanas.”
Seu grande estouro — ou aquilo que passou por um estouro — foi “Eu Quero É Botar Meu Bloco na Rua”, em 1972. A canção virou espécie de hino de inconformados, derrotados altivos e boêmios filosóficos que não pedem licença para existir. É um desses raros momentos em que um artista marginal encontra uma veia popular sem perder o faro de ruptura. Mas ali, ironicamente, começava também seu calvário: o rótulo de “cantor de um sucesso só”, injustamente colado, e a incapacidade da indústria fonográfica de entender alguém que não se enquadrava no tipo ideal de artista vendável da época.
Sérgio Sampaio não era fácil, dizem alguns. Era inquieto, dizem outros. Era complexo, diriam os mais generosos. Talvez fosse tudo isso, mas também é verdade que, no Brasil, artistas complexos costumam ser punidos com o esquecimento — especialmente quando não têm a blindagem de gravadoras, empresários ou narrativas épicas prontas para o consumo.
O marginal luminoso da MPB
Nos anos seguintes ao sucesso, Sampaio seguiu produzindo. Lançou discos que passaram longe do estrelato, mas perto da ousadia: Tem Que Acontecer (1976), por exemplo, mostra um compositor mais maduro, mais afiado, mais disposto a desobedecer padrões. Ainda assim, nada de retorno comercial. As rádios queriam música doméstica, polida, previsível. Ele oferecia desacato poético — e um tanto de verdade crua.
Sua convivência com outros nomes desse universo, como Raul Seixas e o genial e sempre misterioso Sérgio Ricardo, revela que Sampaio era respeitado por seus pares. Aqueles que realmente entendiam de música sabiam reconhecer uma caneta que não tremia diante do risco. Mas respeito de colegas é moeda que não paga aluguel. O Brasil, como sabemos, gosta de dizer que valoriza seus artistas, mas se distrai com facilidade. Quando percebe, já deixou para trás mais um talento que não cabia no molde.
A morte precoce de Sérgio Sampaio, em 1994 (faleceu de pancreatite crônica, agravada pelo consumo de álcool, cigarro e má alimentação), apenas selou esse destino melancólico. Uma espécie de “última injustiça” contra alguém que — ainda que conturbado — merecia mais espaço, mais aplauso, mais permanência. A posteridade, no entanto, é caprichosa. E, vez ou outra, ela permite resgates tardios mas valiosos.
No caso de Sampaio, seu renascimento silencioso tem vindo a conta-gotas: homenagens de músicos independentes, reedições de discos, documentários, pequenos cultos entre estudiosos da MPB. Não se trata de transformá-lo num mito (o Brasil adora fabricar mitos com atraso, como se pedisse desculpas pelo esquecimento). Trata-se de reconhecer a força de um compositor que ousou ser dissonante numa época em que a música brasileira vivia numa passarela entre o engajamento politizado e o romantismo aveludado.
Sérgio Sampaio ocupava — e ocupa — outra geografia. A geografia dos inquietos. Dos que preferem a fissura ao acabamento. Dos que não têm medo de cantar desafetos, delírios, fracassos e pequenas epifanias urbanas.
Talvez por isso continue tão atual. Em um Brasil que ainda se debate com desigualdades, autoritarismos travestidos, desilusões cíclicas e esperanças ressuscitadas a cada eleição, sua música ressoa como diagnóstico e confissão. O bloco de Sampaio nunca saiu totalmente da rua — apenas foi caminhando por becos mais discretos.
Hoje, revisitar sua obra é também um gesto de reparação. É admitir que o país perdeu tempo ignorando alguém que tinha muito a dizer. Que preferiu o silêncio fácil às vozes incômodas.

Se existe justiça tardia, ela começa assim: lendo seu nome, ouvindo seus discos, reconhecendo seu estro. Sérgio Sampaio não foi uma nota isolada. Foi um acorde dissonante — e, justamente por isso, belo. Um compositor que ainda nos olha, com ironia suave, como quem diz: “Vocês demoraram, mas chegaram.”
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