A Fogueira das Vaidades: retrato social
Em 1987, Tom Wolfe publicou A Fogueira das Vaidades, romance que se tornaria um dos grandes retratos sociais da Nova York da década de 1980. Embora se passe há quase 40 anos, a obra segue atual em muitos aspectos — e, na Nova York (ou São Paulo, ou Rio de Janeiro) de hoje, suas reflexões continuam ecoando.
Wolfe construiu uma narrativa satírica sobre o choque de classes, o racismo estrutural e o oportunismo midiático em uma sociedade marcada pela busca incessante por status e dinheiro. No centro da trama está Sherman McCoy, um operador financeiro de Wall Street, que vê sua vida desmoronar após um acidente em que seu carro atropela um jovem negro no Bronx. O incidente, inicialmente banalizado por Sherman, ganha proporções gigantescas quando explorado pela mídia sensacionalista e pelo sistema judicial, ávidos por um vilão de colarinho branco para expiar as tensões sociais acumuladas na metrópole.
“Não à toa, a expressão “fogueira das vaidades” resume perfeitamente o espírito da trama: todos ali, ricos ou pobres, jornalistas ou promotores, querem ascender socialmente e serem admirados — mesmo que para isso precisem alimentar as chamas que destruirão uns aos outros.”
Mas A Fogueira das Vaidades não se limita à trajetória de queda de um único homem. Wolfe constrói um mosaico cruel e cômico dos personagens que orbitam essa história: jornalistas medíocres em busca de fama, promotores de justiça interessados em votos e reconhecimento, políticos manipulando a opinião pública e moradores da periferia usados como peões em uma guerra social invisível.
O tom ácido e impiedoso de Wolfe não poupa quase ninguém. Sua prosa detalhista, quase barroca, funciona como uma lente de aumento sobre as vaidades individuais e coletivas que sustentam a desigualdade urbana.
Ambição, poder e espetáculo
A obra é muitas vezes lembrada pelo seu retrato mordaz da elite de Manhattan, mas seu verdadeiro poder está em revelar como diferentes camadas sociais se aproveitam umas das outras. Wolfe demonstra como a elite financeira vive cercada por um pacto de silêncio e impunidade — até que um deslize expõe o sistema inteiro à luz crua da opinião pública.
Mas não são apenas os ricos que alimentam essa engrenagem. O sistema judicial, a polícia e a imprensa participam avidamente do espetáculo. Cada personagem tenta extrair o máximo de vantagem pessoal de uma tragédia. O que importa não é a justiça, mas a narrativa que pode ser vendida aos leitores, eleitores e espectadores.
Wolfe anteviu o que, décadas depois, se tornaria uma engrenagem global: a espetacularização da crise, o julgamento midiático antes do tribunal, e o linchamento público como forma de catarse coletiva. O romance antecipa o tribunal da opinião pública que hoje domina as redes sociais. No ano vigente, com algoritmos moldando emoções e preferências, a fogueira das vaidades ganhou combustível infinito.
Outro mérito do livro é evidenciar o racismo estrutural de forma sofisticada, sem panfletarismo. Wolfe deixa claro como a cor da pele e o CEP definem quem é “suspeito” e quem é “cidadão de bem” aos olhos da polícia e da imprensa. Embora Sherman McCoy seja um homem branco e privilegiado, ele também se torna um peão quando interesses maiores precisam ser atendidos.
Não à toa, a expressão “fogueira das vaidades” resume perfeitamente o espírito da trama: todos ali, ricos ou pobres, jornalistas ou promotores, querem ascender socialmente e serem admirados — mesmo que para isso precisem alimentar as chamas que destruirão uns aos outros.
Hoje, o romance funciona como um lembrete incômodo: a sociedade continua dependente da ilusão de mérito e sucesso enquanto esconde, sob camadas de espetáculo, desigualdade e injustiça.
Com um olhar crítico e irônico, Wolfe conseguiu captar uma essência que, mesmo quase quatro décadas depois, ainda define o jogo social nas grandes cidades: a luta por poder não é apenas econômica ou política, mas também simbólica. Aparências, prestígio e narrativa valem mais que fatos ou dignidade.

Se hoje vivemos em bolhas digitais, nos anos 80 era o sensacionalismo impresso quem moldava o julgamento público. Apenas mudou a plataforma; a lógica, porém, segue intacta.
A Fogueira das Vaidades permanece um espelho desconfortável. Wolfe não ofereceu soluções — apenas escancarou a vaidade como um traço permanente do comportamento humano. E, olhando à nossa volta, não há como negar que ele estava certo.
A bíblia do caos de Millôr Fernandes
fevereiro 2, 2026Dener: o artista da bola não estourou
fevereiro 1, 2026A Baleia: a redenção como objetivo
janeiro 30, 2026Lampião da Esquina: ícone da causa gay
janeiro 19, 2026The Last Airbender é um filme horrendo?
janeiro 16, 2026Os Miseráveis: espólio cultural da Terra
janeiro 14, 2026Os últimos minutos de Anthony Bourdain
janeiro 12, 2026Cabeça Dinossauro: uma obra da cracia?
janeiro 9, 2026Édipo Rei: uma peça que ainda choca
janeiro 7, 2026L’Ami du peuple: uma lâmina revolucionária
janeiro 5, 2026O Exorcista: a grande obra-prima do terror
janeiro 2, 2026Revisitando o genial O Analista de Bagé
dezembro 31, 2025
Eder Fonseca é o publisher do Panorama Mercantil. Além de seu conteúdo original, o Panorama Mercantil oferece uma variedade de seções e recursos adicionais para enriquecer a experiência de seus leitores. Desde análises aprofundadas até cobertura de eventos e notícias agregadas de outros veículos em tempo real, o portal continua a fornecer uma visão abrangente e informada do mundo ao redor. Convidamos você a se juntar a nós nesta emocionante jornada informativa.




Facebook Comments