Cabeça Dinossauro: uma obra da cracia?
Há discos que envelhecem como vinho; outros, como fósseis bem preservados. Cabeça Dinossauro, dos Titãs, pertence a uma terceira categoria mais rara: a dos álbuns que envelhecem como ferida aberta. Lançado em 1986, quando o Brasil reaprendia a respirar depois de duas décadas de autoritarismo, o disco não pediu licença para existir. Ele chegou urrando — e não por acaso sua capa traz um desenho de Leonardo da Vinci que parece capturar exatamente isso: um homem em transe, entre o grito e a fúria, entre a lucidez e o desespero. Era o retrato sonoro de um país que tentava se reconhecer no espelho rachado da redemocratização.
O contexto importa, e muito. O Titãs vinha de um momento delicado após o desempenho aquém do esperado de Televisão. A banda, que sempre flertou com a ironia pop e o experimentalismo urbano, decidiu que era hora de endurecer o som e o discurso. Some-se a isso a prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto no fim de 1985 — um episódio que funcionou como choque de realidade e combustível criativo — e o resultado foi um disco que abandonou a timidez para abraçar o confronto. Cabeça Dinossauro não quer ser simpático. Quer ser ouvido com o corpo tenso.
“O reconhecimento veio rápido. Primeiro disco de ouro da banda, aclamação crítica, lugar garantido no cânone do rock brasileiro, inclusive na lista histórica da Rolling Stone Brasil. Mas talvez o maior mérito de Cabeça Dinossauro seja outro: ele não virou peça de museu. Continua soando incômodo, atual, desconfortável. Em tempos de nostalgia fácil e reedições assépticas, o álbum lembra que o rock, quando levado a sério, não serve para decorar playlists, mas para perturbar consciências.”
A entrada de Liminha como produtor foi decisiva. Ex-Mutantes, com faro aguçado para o espírito do tempo, ele ajudou a canalizar a raiva difusa da banda em canções curtas, diretas, quase violentas. Punk, pós-punk, funk rock, reggae: tudo se mistura numa estética que parece caótica, mas é rigorosamente pensada. Não há gordura. Cada faixa soa como um soco de três minutos, sem refrão açucarado nem esperança fácil. O disco é seco como manchete de jornal ruim.
“Homem Primata” é o manifesto inaugural: o sujeito esmagado pelo sistema, reduzido à engrenagem, cantado com sarcasmo e desespero. “Família”, por sua vez, é a crônica cruel da instituição mais celebrada da sociedade brasileira, exposta como vitrine de hipocrisia, silêncio e repetição. Já “Bichos Escrotos”, talvez a mais emblemática, enfrentou a censura mesmo em tempos oficialmente democráticos — prova de que o autoritarismo não sai de cena com a troca de figurino político.
Um grito coletivo em forma de vinil
O que faz de Cabeça Dinossauro um disco da redemocratização não é apenas sua data de lançamento, mas sua postura. Ele não celebra a democracia como conquista plena; ao contrário, desconfia dela. Questiona instituições, ridiculariza discursos prontos, aponta o dedo para o conservadorismo entranhado no cotidiano. É um álbum que entende que a ditadura acabou, mas deixou herdeiros: na polícia, na família, na moral, no trabalho, na linguagem. O dinossauro do título não é só o regime que caiu — é tudo aquilo que insiste em não morrer.
Há também algo profundamente urbano no disco. Ele soa como São Paulo em horário de pico: buzinas, concreto, gente espremida, raiva contida. Não é música para escapar da realidade; é música para esfregar a realidade na cara do ouvinte. Nesse sentido, os Titãs dialogam com o espírito punk não como moda importada, mas como atitude local. É o punk possível num país que saía da mordaça sem saber muito bem o que dizer — então gritava.
O reconhecimento veio rápido. Primeiro disco de ouro da banda, aclamação crítica, lugar garantido no cânone do rock brasileiro, inclusive na lista histórica da Rolling Stone Brasil. Mas talvez o maior mérito de Cabeça Dinossauro seja outro: ele não virou peça de museu. Continua soando incômodo, atual, desconfortável. Em tempos de nostalgia fácil e reedições assépticas, o álbum lembra que o rock, quando levado a sério, não serve para decorar playlists, mas para perturbar consciências.

Quase quarenta anos depois, Cabeça Dinossauro segue nos encarando com a mesma expressão da capa: boca aberta, dentes à mostra, sem pedir desculpas. Um disco que não explica o Brasil, mas ajuda a senti-lo — no estômago, no nervo, no osso. E isso, convenhamos, é coisa de clássico que se recusa a virar dinossauro.
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