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Cassiano Gabus Mendes: o último ato

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Cassiano Gabus Mendes é um daqueles nomes que soam como um eco sofisticado no corredor da televisão brasileira. Um sujeito que parecia não se contentar em ser apenas um pioneiro — precisava, também, ser uma espécie de arquiteto da leveza, um engenheiro do entretenimento. Nasceu em 1927, no berço da comunicação, e morreu em 1993, deixando um legado de histórias que, mesmo disfarçadas de comédias de costumes, continham mais bisturi do que pincel. Cassiano entendia o Brasil como poucos: por trás da espuma das novelas das sete, havia sempre a navalha escondida, cortando o verniz da hipocrisia social com um sorriso elegante.

Antes de virar o escritor que redefiniria o horário das 19h da Globo, Cassiano foi tudo — sonoplasta, contrarregra, ator, roteirista e, sobretudo, diretor artístico da primeira emissora de TV do país, a Tupi. O primeiro a dar ordem de “gravando” em uma televisão brasileira. Ironia fina do destino: um homem que ajudou a inaugurar a TV morre de infarto em plena novela, O Mapa da Mina, antes que o público descobrisse o final. Talvez o maior símbolo de sua própria dramaturgia — o autor interrompido pelo próprio roteiro da vida.

“Cassiano morreu no meio do caminho, como quem apaga a luz do estúdio antes do “corta” final. Seu infarto foi mais simbólico que biológico — o coração de um homem que narrava o Brasil finalmente cansou.”

Cassiano era o que se pode chamar de um cronista da futilidade. Suas tramas — Anjo Mau, Brega & Chique, Ti Ti Ti, Elas por Elas, Locomotivas — pareciam girar em torno de amores e trapaças leves, mas tinham um veneno diluído em champanhe. O público ria; Cassiano observava, com aquele meio sorriso de quem sabe que está expondo a alma coletiva do país. Por trás das intrigas de salão e das brigas de classe média alta, havia uma crítica ferina à vulgaridade com que o Brasil se via no espelho.

A crítica, claro, demorou a entender. Via-o como um autor de frivolidades — como se o humor desqualificasse a inteligência. Só depois se percebeu que Cassiano, esse suposto comediante de costumes, era um moralista invertido: mostrava a decadência de uma sociedade que fingia ser o que não era, e fazia isso com elegância, ironia e timing cômico impecável. A leveza, nele, era apenas a embalagem de uma acidez profunda.

O retratista dos superficiais

Cassiano gostava de personagens que não se davam conta de sua própria mediocridade — uma espécie de dramaturgo da vaidade humana. Em Brega & Chique, mostrou que o dinheiro e o amor são os dois grandes mal-entendidos nacionais; em Ti Ti Ti, transformou o plágio e a rivalidade em metáfora para o Brasil competitivo e farsesco; em Que Rei Sou Eu?, sua sátira política disfarçada de fantasia medieval, ele riu da corte de Brasília antes que Brasília percebesse que estava sendo ridicularizada. Era um intelectual que preferia o disfarce do humor. Um Brecht tropical, servindo champanhe com limão.

Sua prosa televisiva tinha o dom raro de parecer simples e ser sofisticada. Limitava-se a 30 personagens — um detalhe técnico, mas revelador de sua precisão narrativa. Nada sobrava. Cassiano sabia que excesso de gente é o que mata as boas histórias — e, às vezes, as más repúblicas. Foi esse rigor que moldou autores como Sílvio de Abreu, Maria Adelaide Amaral e Carlos Lombardi, que o reverenciam até hoje.

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O que talvez poucos saibam é que Cassiano não era um homem de vaidades. Dizia que preferia ser autor porque assim não precisava ir todos os dias à emissora. Um criador de bastidores, discreto, quase invisível. Enquanto outros se vendiam como gênios midiáticos, ele escrevia para o país, não para a câmera. E talvez por isso suas novelas envelheceram bem: falam de uma elite vazia, de um país que ainda tenta entender o que é ser moderno sem perder a mania de parecer rico.

Mesmo quando a Tupi ruiu — como o império de um rei ridículo que ele próprio teria escrito — Cassiano não se reinventou: apenas continuou sendo o mesmo. Na Globo, achou um território perfeito para seu humor ácido. Locomotivas bateu recordes, Elas por Elas virou espelho de amizade e traição, e Que Rei Sou Eu? cravou sua assinatura definitiva: rir da desordem nacional.

Cassiano morreu no meio do caminho, como quem apaga a luz do estúdio antes do “corta” final. Seu infarto foi mais simbólico que biológico — o coração de um homem que narrava o Brasil finalmente cansou.

Hoje, o país das novelas e dos reality shows parece ter esquecido o pioneiro que desenhou seu DNA. Mas toda vez que alguém liga a TV e vê uma trama sobre o falso moralismo, o luxo cafona ou a esperteza nacional, há um pouco de Cassiano ali — disfarçado de piada, travestido de romance, escondido no roteiro.

Cassiano era o que se pode chamar de um cronista da futilidade (Foto: Divulgação)
Cassiano era o que se pode chamar de um cronista da futilidade (Foto: Divulgação)

Ele foi o dramaturgo que tratou o ridículo com respeito e o poder com deboche. Um humorista da alma brasileira, que entendeu que rir é a forma mais elegante de acusar. Cassiano Gabus Mendes não apenas fez a televisão brasileira rir de si mesma — ensinou-a a se olhar no espelho e, pela primeira vez, perceber o quão patética e fascinante ela era. A cortina fechou subitamente, sim, mas o palco continua sendo dele.


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