Cidadão Kane: Rosebud era outra coisa…
Há obras que envelhecem como vinho, e há Cidadão Kane. O filme de Orson Welles, lançado em 1941, é um desses raros monumentos do cinema que, mesmo sob a poeira de oito décadas, ainda ofusca quem tenta tocá-lo. Não porque seja um filme perfeito — e não é —, mas porque ousou ser um filme livre, insolente e megalomaníaco como seu próprio protagonista. Charles Foster Kane, inspirado descaradamente no magnata da imprensa William Randolph Hearst, não é apenas o retrato de um homem devorado por seu próprio poder: é o espelho de uma América que acreditava ter encontrado no jornal e no dinheiro a nova Bíblia e o novo Deus.
Orson Welles, com apenas 25 anos, escreveu, dirigiu, produziu e atuou. A audácia já seria blasfêmia suficiente. Mas o que ele fez, na prática, foi reinventar o modo de contar histórias com uma câmera. O uso inovador da deep focus, os ângulos baixos, as sobreposições e o jogo de luz e sombra de Gregg Toland transformaram o filme em um tratado visual. O que o público viu pela primeira vez foi a narrativa cinematográfica se desamarrando da linearidade teatral. Cada cena parecia dizer: “O cinema pode mais.” E podia mesmo.
“Tecnicamente, o filme continua uma aula. O uso da profundidade de campo permite que três ações ocorram simultaneamente em planos diferentes — uma inovação que dá ao espectador o papel de cúmplice. A câmera deixa de ser testemunha e passa a ser consciência.”
A lenda de Cidadão Kane cresceu tanto que passou a sufocar o próprio filme. Décadas de reverência o transformaram num troféu acadêmico, um símbolo de erudição obrigatória. Mas, ao revisitar a obra com os olhos de 2025, percebe-se que há algo ainda mais fascinante que sua técnica — há uma melancolia quase premonitória. O filme antecipa a solidão digital antes que houvesse sequer televisores em todas as casas. Kane é o primeiro “influenciador” da história, fabricando manchetes e versões convenientes de si. A torre de Xanadu é só um prenúncio dos castelos de ego erguídos hoje nas redes sociais.
Por isso, quando ele pronuncia “Rosebud”, o público moderno entende mais do que Welles talvez imaginasse. Não se trata apenas de um trenó, da inocência perdida ou da nostalgia da infância. “Rosebud” é o código de acesso à fragilidade humana diante do tempo e da glória. É a senha esquecida do nosso próprio passado.
O mito, o menino e o magnata
O mito de Cidadão Kane é, paradoxalmente, o mito da queda. Welles criou um herói que não se redime, um homem cercado de luxo e poder que não consegue comprar afeto nem memória. A narrativa fragmentada — uma sucessão de lembranças e testemunhos sobre Kane — sugere que ninguém o conheceu de fato. Nem mesmo ele. Essa estrutura, hoje banalizada por séries e filmes que brincam com cronologias partidas, era revolucionária em 1941. Welles não queria apenas contar uma história; queria desmontar a ideia de verdade.
Há quem diga que o filme é um ataque pessoal a Hearst, que tentou censurá-lo e quase conseguiu. Mas, se há vingança, ela é mais poética que política. Kane é menos um vilão do que um homem devorado pela própria capacidade de criar mitos — inclusive o seu. E nesse ponto o filme se aproxima de uma tragédia shakespeariana. Há em Kane um toque de Macbeth, um pouco de Lear, uma pitada de Fausto. O poder, como sempre, é um espelho quebrado.
Tecnicamente, o filme continua uma aula. O uso da profundidade de campo permite que três ações ocorram simultaneamente em planos diferentes — uma inovação que dá ao espectador o papel de cúmplice. A câmera deixa de ser testemunha e passa a ser consciência. A montagem de Robert Wise, a trilha de Bernard Herrmann (que depois trabalharia com Hitchcock) e a encenação teatral fazem de Cidadão Kane um híbrido fascinante entre cinema, literatura e ópera. É uma ópera de ego.
E, no entanto, há ironia até no próprio sucesso póstumo da obra. Welles, que foi chamado de gênio precoce, acabou exilado de Hollywood, engolido pelo sistema que desafiou. Morreu filmando comerciais e dublando desenhos animados, enquanto o mundo acadêmico canonizava o filme que o condenou. Kane e Welles confundem-se — dois homens que tocaram o céu e caíram sozinhos.
Hoje, quando tudo é medido por algoritmos e engajamento, Cidadão Kane soa quase profético. Kane não queria leitores; queria ser amado. Assim como muitos hoje não querem público, querem seguidores. “Rosebud” talvez fosse só uma lembrança de quando ele ainda não precisava provar nada. De quando bastava ser.
Talvez seja por isso que o filme continua a incomodar. Não é apenas sobre ambição, poder ou mídia: é sobre o buraco negro do eu. E todo espectador, em algum nível, sente o puxão desse abismo.
Rever Cidadão Kane é redescobrir que o cinema, quando feito por alguém que ousa pensar, ainda é a mais perigosa das artes. Welles não filmou um homem — filmou um espelho. E cada geração, ao encará-lo, enxerga o seu próprio reflexo: deformado, vaidoso, inacabado.

No fim, Rosebud nunca foi só um trenó. Foi o primeiro grito cinematográfico contra a ilusão de que o poder — seja político, midiático ou digital — pode preencher o vazio da alma. Welles sabia: o verdadeiro mistério de Kane não estava no que ele possuía, mas no que lhe faltava. E é isso que continua a nos assombrar.
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