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Networking feminino: muitas oportunidades

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Networking entre mulheres virou palavra da moda, dessas que aparecem em painéis corporativos, cafés patrocinados e posts com filtro bege. Mas, por trás do verniz otimista, existe um fenômeno social mais antigo, mais complexo e — convém dizer — mais político do que parece. Mulheres sempre criaram redes. O que muda agora é o reconhecimento público de que essas conexões não são apenas afeto, mas estratégia.

Durante séculos, enquanto os homens se articulavam em clubes, conselhos e mesas de bar onde decisões eram tomadas sem ata, as mulheres teciam suas alianças em espaços informais: cozinhas, filas, salas de espera, associações de bairro, grupos de mães, redes de cuidado. Era networking sem nome em inglês, sem crachá e sem coffee break gourmet. E, ainda assim, funcionava. Funcionava para sobreviver, resistir e, quando possível, avançar.

“Há algo de profundamente subversivo quando mulheres compartilham contatos sem medo, recomendam sem ciúmes e celebram conquistas alheias sem o velho mito da “vaga única”. Isso desmonta uma narrativa conveniente ao status quo: a de que mulheres competem naturalmente entre si. Competem, sim, como qualquer grupo colocado em escassez artificial.”

O discurso contemporâneo sobre networking feminino costuma vendê-lo como algo leve, quase terapêutico: “troca”, “acolhimento”, “escuta”. Tudo isso importa, claro. Mas há um risco em romantizar demais a ideia e esquecer o essencial: rede também é poder. Conexão é capital simbólico, social e, em muitos casos, econômico. Fingir que não é pode soar bonito, mas é politicamente ingênuo.

Hoje, quando mulheres se conectam profissionalmente, não estão apenas “se apoiando”. Estão disputando espaço em estruturas ainda desenhadas por e para homens. Estão criando atalhos onde antes havia muros. Estão compartilhando informações que, historicamente, lhes foram negadas: salários reais, bastidores de cargos, critérios não escritos de promoção. Networking feminino, quando bem feito, é quase um ato de desobediência civil elegante.

Entre apoio genuíno e marketing pessoal

Aqui entra a parte espinhosa — e necessária — da conversa. Nem toda rede é horizontal. Nem toda conexão é sincera. Há networking que emancipa e há networking que reproduz hierarquias, só que com outro figurino. Eventos que falam de sororidade, mas funcionam como vitrines de autopromoção. Grupos que pregam união, mas silenciam dissensos. Afinal, mulheres não são um bloco homogêneo, e fingir que são pode ser tão opressor quanto excluí-las.

Também é preciso cuidado com a lógica da performance. A pressão para estar sempre “conectada”, disponível, sorridente e inspiradora pode se tornar mais uma carga mental. Como se, além de trabalhar bem, fosse obrigação ser uma excelente networker, estrategista social e embaixadora de causas. Nem toda mulher quer — ou pode — transformar cada conversa em oportunidade. E tudo bem.

Por outro lado, negar a importância dessas redes é fechar os olhos para a realidade. Dados mostram que indicações ainda pesam mais que currículos em muitas contratações. Mentorias informais decidem carreiras. Portas se abrem para quem conhece o caminho — ou quem tem a chave. Se mulheres historicamente ficaram fora desses circuitos, construir redes próprias não é privilégio: é correção de rota.

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Há algo de profundamente subversivo quando mulheres compartilham contatos sem medo, recomendam sem ciúmes e celebram conquistas alheias sem o velho mito da “vaga única”. Isso desmonta uma narrativa conveniente ao status quo: a de que mulheres competem naturalmente entre si. Competem, sim, como qualquer grupo colocado em escassez artificial. Mas, quando a escassez é questionada, a lógica muda.

Marcado por desigualdades persistentes, o networking feminino ganha contornos ainda mais urgentes. Ele cruza gênero com raça, classe, território. Não basta falar de conexões entre mulheres se as mesmas mulheres de sempre continuam ocupando o centro da rede. Inclusão real exige desconforto, revisão de privilégios e disposição para ouvir quem raramente é ouvido.

Mulheres sempre criaram redes. O que muda agora é o reconhecimento público (Foto: Wiki)
Mulheres sempre criaram redes. O que muda agora é o reconhecimento público (Foto: Wiki)

No fim das contas, networking entre mulheres não é sobre trocar cartões ou seguidores. É sobre construir pontes onde antes havia isolamento. É sobre entender que relações também são infraestrutura. E que, quando mulheres se conectam com consciência crítica, não estão apenas ampliando oportunidades individuais — estão redesenhando, fio a fio, o mapa do poder.


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