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O Exorcista: a grande obra-prima do terror

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Há filmes que envelhecem como relíquias de museu: respeitados, mas empoeirados. O Exorcista não. Lançado em 1973, sob a batuta rigorosa de William Friedkin, ele continua vivo, inquieto e indecentemente atual. Mais do que um filme de terror, tornou-se um ritual coletivo, um desses raros fenômenos culturais capazes de atravessar gerações sem perder o poder de causar desconforto. Não é pouca coisa para uma obra que fala, essencialmente, de fé em crise, ciência limitada e do mal como presença cotidiana — às vezes silenciosa, às vezes barulhenta como uma cama sacudindo no quarto de uma adolescente.

A história é conhecida até por quem nunca teve coragem de assistir até o fim. Regan, uma menina aparentemente comum, começa a apresentar comportamentos estranhos após brincar com um tabuleiro ouija. Médicos entram em cena, exames clínicos se acumulam, diagnósticos falham. Quando a ciência bate em retirada, a religião é chamada ao front. É nesse atrito — razão contra fé, modernidade contra tradição — que o filme finca suas unhas. Friedkin não filma o sobrenatural como espetáculo fácil; ele o constrói como dúvida. E talvez aí esteja seu maior golpe baixo: o terror não vem apenas do demônio, mas da possibilidade de que ele exista mesmo quando preferimos acreditar que não.

“Culturalmente, O Exorcista redefiniu o terror. Abriu caminho para que o gênero fosse levado a sério pela crítica e pelo público adulto, algo impensável até então. Indicados ao Oscar, debates teológicos nos jornais, filas quilométricas nos cinemas. O filme transformou o medo em assunto respeitável. E, ironicamente, fez isso sem jamais oferecer respostas fáceis. O mal é derrotado? Talvez. Mas a que custo? E por quanto tempo?”

Ao contrário de muito do horror contemporâneo, O Exorcista não corre. Ele caminha, observa, acumula tensão como quem empilha lenha antes do incêndio. A câmera é sóbria, quase clínica. A trilha sonora, econômica e perturbadora. Nada sobra. Nada distrai. Até os momentos mais grotescos — e eles existem, em abundância — são tratados com uma seriedade desconcertante. Friedkin parece dizer ao espectador: “não ria, isso é sério”. E é justamente essa recusa do alívio que transforma o filme em experiência.

Há também uma camada filosófica que frequentemente passa batida entre vômitos verdes e cabeças giratórias. O padre Karras, interpretado por Jason Miller, é um homem dilacerado pela culpa e pela perda da fé. O exorcismo, nesse sentido, não é apenas de Regan, mas dele próprio. Já o padre Merrin, vivido por Max von Sydow sob pesada maquiagem, surge quase como uma entidade mítica, alguém que já viu o mal de perto e sabe que a vitória nunca é definitiva. O terror aqui não é pirotécnico: é existencial.

Bastidores tão assombrados quanto a tela

Se o filme é perturbador na tela, seus bastidores ajudaram a consolidar a aura quase maldita que o cerca. Durante as filmagens, um incêndio misterioso destruiu boa parte dos cenários, exceto — convenientemente — o quarto de Regan. O acidente atrasou a produção por meses e alimentou rumores de que algo “errado” rondava o set. Friedkin, longe de tranquilizar a equipe, decidiu chamar um padre para abençoar os estúdios. Marketing involuntário? Talvez. Mas a tensão era real.

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Linda Blair, então com apenas 14 anos, sofreu lesões na coluna durante as gravações de uma cena em que sua personagem é violentamente sacudida. O grito de dor que se ouve no filme é genuíno — e Friedkin manteve a tomada. Já Ellen Burstyn também se machucou seriamente ao ser puxada para trás em uma cena que não saiu exatamente como o planejado. O diretor, conhecido por seu estilo autoritário, acreditava que o realismo vinha antes do conforto. Hoje isso renderia processos; à época, rendeu um clássico.

Outra curiosidade: o icônico vômito de Regan foi resultado de uma mistura improvisada de sopa de ervilha e outros ingredientes pouco glamourosos. O efeito especial funcionou tão bem que virou imagem-síntese do horror cinematográfico. Mais do que choque, porém, o filme provocou reações físicas reais no público: desmaios, náuseas, crises de pânico. Sessões com ambulâncias à porta não eram exagero publicitário, eram rotina.

Culturalmente, O Exorcista redefiniu o terror. Abriu caminho para que o gênero fosse levado a sério pela crítica e pelo público adulto, algo impensável até então. Indicados ao Oscar, debates teológicos nos jornais, filas quilométricas nos cinemas. O filme transformou o medo em assunto respeitável. E, ironicamente, fez isso sem jamais oferecer respostas fáceis. O mal é derrotado? Talvez. Mas a que custo? E por quanto tempo?

Linda Blair, então com apenas 14 anos, sofreu lesões na coluna durante as gravações (Foto: Wiki)
Linda Blair, então com apenas 14 anos, sofreu lesões na coluna durante as gravações (Foto: Wiki)

Rever O Exorcista é constatar que ele não depende de sustos baratos nem de efeitos datados. Sua força está na atmosfera, no silêncio, na recusa em confortar. É um filme que não pede licença nem desculpas. Assusta porque leva suas próprias perguntas a sério — e porque, no fundo, suspeita que nós também deveríamos.


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