O socialismo muçulmano abraçará NY?
Zohran Mamdani, o quase-poeta, ex-rapper de chapati, acadêmico por osmose familiar e agora prefeito eleito de Nova York, é mais do que uma singularidade biográfica interessante: é um fenômeno político que diz muito sobre para onde vai (ou para onde tenta ir) a maior cidade dos Estados Unidos. Aos 34 anos, ele rompeu a barreira simbólica dupla: ser o primeiro muçulmano a governar a cidade e fazê-lo com uma plataforma que flerta publicamente com aquilo que adversários chamariam de “socialismo urbano gourmet” e apoiadores descrevem como “justiça social pragmática”. O fato é simples: a eleição de Mamdani é uma espécie de terremoto — não o que derruba pontes, mas o que desloca placas tectônicas culturais, políticas e identitárias.
Seu discurso é acessível, quase pop. Congelar aluguéis. Tornar ônibus gratuitos. Creches universais. Supermercados subsidiados. Parece a reedição atualizada do “New Deal da Geração Z”, temperado com um imaginário global pós-colonial e referências ao Bronx High School of Science. Não surpreende que o presidente Donald Trump tenha enxergado nisso um sinal do Apocalipse Vermelho. Chamou-o de comunista — o insulto preferido de quem acredita que um desconto no metrô já é o prelúdio de um gulag. Mamdani, por sua vez, recusa o rótulo. Diz que sua mensagem ultrapassa partidos. Pode até ser verdade, mas não há como ignorar que ela transpira um igualitarismo ambicioso, às vezes ingênuo, às vezes calculado, sempre estratégico.
“Nova York é famosa por triturar prefeitos com muita fé e pouco poder orçamentário. Mas a pergunta mais interessante não é essa. A questão é: o que significa quando a maior cidade americana escolhe, conscientemente, um líder que articula a urgência de repensar a economia urbana, o peso das dívidas pessoais e a fragilidade da convivência multicultural?.”
Mas o realismo administrativo é outra história. Nova York não é uma cidade que se move apenas por vontade moral. Aluguéis congelados e transporte gratuito não nascem por geração espontânea. O prefeito precisa de autorização legislativa para aumentar impostos. E a governadora Kathy Hochul já sinalizou que, se ele insistir demais, talvez se veja responsável pelo maior êxodo imobiliário desde o “vou-me embora para Miami” dos super-ricos. Mamdani sabe disso — e ainda assim insiste. Sua aposta é uma espécie de “reforma na marra moral”: se a cidade quiser sobreviver como espaço habitável para algo além de influenciadores e fundos imobiliários, terá que reconsiderar seu pacto econômico. Bonito no discurso. Difícil, na prática. Mas não impossível.
E existe ainda a questão que, nos últimos anos, se tornou a areia movediça da política americana: Israel e Palestina. Mamdani não fugiu do tema. Pelo contrário. Falou em genocídio, falou em “globalizar a intifada”, explicou, contextualizou, mitigou e refez a frase — mas o estrago simbólico estava feito. O Museu do Holocausto o condenou. Democratas recuaram desconfortáveis. Aos olhos de críticos, ele cruzou uma linha. Aos olhos de seus apoiadores, ele fez aquilo que políticos raramente têm coragem: falou o que acredita, sem enxugar o suor de medo no rosto. Essa sinceridade é admirável para uns, incendiária para outros — e absolutamente central para entender sua vitória.
A cidade como laboratório de um novo imaginário
Nova York sempre foi o palco de experimentos ideológicos. Já foi símbolo do capitalismo exuberante, da decadência urbana dos anos 1970, da gentrificação gourmetizada dos anos 2000. Agora, talvez esteja abrindo espaço para um imaginário que mistura justiça social, identitarismo global e uma tentativa de redefinir o que significa “custo de existir” em uma megacidade. Mamdani encarna isso: não é apenas um político, é um signo. Sua eleição diz menos sobre o socialismo e mais sobre uma população que está cansada de pagar 4 mil dólares por um cubículo com vista para a parede do vizinho.
Se seus planos vão funcionar, ninguém sabe. Nova York é famosa por triturar prefeitos com muita fé e pouco poder orçamentário. Mas a pergunta mais interessante não é essa. A questão é: o que significa quando a maior cidade americana escolhe, conscientemente, um líder que articula a urgência de repensar a economia urbana, o peso das dívidas pessoais e a fragilidade da convivência multicultural? Significa que o centro de gravidade cultural do país mudou. Mesmo que os bilionários fujam para a Flórida e publiquem fotos sorrindo com flamingos infláveis, o debate já se deslocou.

Mamdani provavelmente não transformará Nova York em um kibbutz cosmopolita com passe livre infinito. Mas já alterou a temperatura da política nacional. A direita grita que é o início da queda do império. A esquerda vê um vislumbre de um futuro possível. No fim das contas, Nova York continua sendo Nova York: exagerada, conflituosa, teatral, indomável.
E talvez seja exatamente isso que ainda a mantém viva.
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