Ópera do Malandro: Chico em cena
Chico Buarque sempre foi mais do que músico. É cronista da alma brasileira, dramaturgo da picardia nacional, maestro de ironias. Quando lançou Ópera do Malandro em 1978, misturando teatro musical, sátira política e malandragem carioca, o Brasil ainda tentava respirar sob o sufoco da Ditadura Militar. Era preciso coragem para usar o palco como trincheira, e Chico fez isso com a elegância de quem sabia dar nó em censores com a mesma naturalidade com que compunha uma melodia de choro ou samba-canção.
A peça dialoga com Brecht e Weill, principalmente com a célebre Ópera dos Três Vinténs, mas traduzida para um Rio de Janeiro de contrabandistas, prostitutas, cafetões e burocratas. Não é cópia, é tropicalização crítica: a malandragem nacional, tão celebrada quanto condenada, virou metáfora de um país que sobrevive entre a esperteza e a esperteira. O público via no palco o espelho distorcido de um Brasil onde a moral oficial era tão duvidosa quanto os negócios dos personagens.
“Chico sabia onde cutucar. Ao colocar cafetões e militares, prostitutas e autoridades, cantando sob a mesma partitura, escancarava que a diferença entre o legal e o ilegal era só de conveniência.”
A música, claro, é um capítulo à parte. Canções como “Terezinha” e “Geni e o Zepelim” escaparam do palco e ganharam vida própria, atravessando décadas como hinos de ironia, tragédia e resistência. Poucos artistas conseguem condensar poesia popular e crítica social em versos que, de tão bem lapidados, soam naturais como ditados de botequim. Chico, com sua verve ambígua, conseguiu. E nisso, Ópera do Malandro é mais que espetáculo: é diagnóstico sociológico em compasso de samba.
Mas é preciso lembrar: não se trata apenas de arte contra ditadura. É também a denúncia de um Brasil permanente, onde o jogo de poder, o sexo e a economia convivem numa engrenagem imoral, mas funcional. A malandragem, afinal, não acabou com a redemocratização, apenas trocou de terno e gravata.
Entre a sátira e o espelho social
A crítica da época, entre encantada e desconfiada, oscilava entre considerar Chico um herdeiro de Brecht ou um cronista bem-humorado do submundo carioca. Os mais apressados o acusavam de estetizar a marginalidade. Os mais atentos perceberam que não se tratava de glamourizar o crime, mas de revelar que a sociedade brasileira, de cima a baixo, já estava organizada em torno de expedientes malandros. A peça não falava do submundo apenas: falava também do andar de cima, que negociava favores, cargos e vantagens com a mesma desenvoltura que um contrabandista negociava uísque no cais.
Chico sabia onde cutucar. Ao colocar cafetões e militares, prostitutas e autoridades, cantando sob a mesma partitura, escancarava que a diferença entre o legal e o ilegal era só de conveniência. O público ria, mas era riso nervoso — e talvez por isso a peça tenha se tornado um clássico. O riso crítico dói mais do que a pancada literal.
Hoje, quase meio século depois, Ópera do Malandro não perdeu frescor. Pelo contrário, ganhou novas camadas de interpretação. Se em 1978 denunciava a ditadura, em 2025 denuncia a democracia claudicante, onde a corrupção virou manchete cotidiana e a malandragem institucionalizou-se nos corredores do poder. O Brasil mudou de cenário, mas o enredo continua o mesmo — e a peça se mantém atual justamente por expor esse eterno retorno do oportunismo nacional.
O que dizer então de Chico? Continua sendo um dos poucos que conseguiram, ao mesmo tempo, traduzir a melancolia e a sagacidade brasileiras em letras afiadas, sempre oscilando entre a poesia e a ironia. Seus críticos ainda o acusam de elitismo artístico; seus defensores ainda o veneram como gênio. Talvez os dois estejam certos: Chico nunca quis ser populista no sentido raso, mas também nunca se afastou da alma popular, aquela que sabe rir da própria miséria.
No fundo, Ópera do Malandro é uma aula de como o teatro musical pode ser ferramenta de crítica e memória. É lembrar que a malandragem, aqui, nunca é apenas esperteza simpática: é também denúncia de um sistema que empurra o povo para sobreviver na astúcia, enquanto os poderosos fazem das instituições sua própria ópera privada.

Se a história se repete, a arte ao menos registra e incomoda. E, nesse sentido, Chico Buarque continua em cena — não apenas como músico ou dramaturgo, mas como cronista irônico do Brasil que insiste em ser malandro, até quando finge ser sério.
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