Z: ou como não anistiar ninguém
Costa-Gavras nunca foi apenas um cineasta; foi um arquivista das deformações do poder. Em Z (1969), ele nos apresenta uma Grécia em que a justiça é um teatro mal ensaiado, a verdade uma coreografia de conveniências, e o Estado, esse Leviatã gorduroso, está sempre disposto a amputar qualquer corpo estranho que lhe questione a ordem. O filme começa com o assassinato político de um deputado progressista, mas, na verdade, termina em algo mais inquietante: a constatação de que a justiça, quando corrompida, não apenas falha em punir os culpados — ela os premia. Um manual, em celuloide, de como absolver poderosos e esmagar os dissidentes.
Não é difícil traçar a linha que une aquela Grécia pós-golpe de 1967 ao Brasil contemporâneo. Aqui, não temos generais vestidos de capa e boina ocupando as ruas com tanques; temos advogados de colarinho engomado, parlamentares desfiando discursos histéricos e uma plateia que confunde “anistia” com “amnésia”. Jair Bolsonaro pode ser condenado a até 43 anos de prisão na próxima semana. A acusação? O enredo já conhecido: conspiração contra a democracia, tráfico de ilusões golpistas e a orquestração, direta ou indireta, do 8 de janeiro de 2023 — aquele dia em que Brasília virou parque temático do vandalismo político.
“No Brasil, não faltam atores para esse drama farsesco: quem pede “paz e amor” em nome da reconciliação nacional está, no fundo, pedindo silêncio cúmplice.”
E é justamente aí que Z se encaixa como um soco no estômago. No filme, o juiz começa determinado, imparcial, comprometido com os fatos. Aos poucos, vai sendo tragado pela engrenagem do poder, até transformar a investigação num espetáculo sem catarse. No Brasil, não faltam atores para esse drama farsesco: quem pede “paz e amor” em nome da reconciliação nacional está, no fundo, pedindo silêncio cúmplice.
Porque anistiar golpistas, aqui ou na Grécia de Costa-Gavras, não é sobre pacificação — é sobre apagar o crime para que se repita amanhã com menos resistência.
Justiça de memória curta, democracia de pernas bambas
“Deixar pra lá” é o mantra nacional. Não é à toa que, desde a Ditadura Militar, cultivamos esse hábito tóxico de confundir perdão com covardia institucional. A Lei da Anistia de 1979 foi vendida como instrumento de reconciliação, mas, na prática, blindou torturadores e generais que jamais pagaram pelos crimes hediondos. Hoje, o fantasma dessa anistia volta a assombrar: setores do Congresso e parte da opinião pública flertam com a ideia de que, para “virar a página”, seria preciso aliviar Bolsonaro e seus seguidores. Como se a democracia fosse um álbum de figurinhas que se completa sem enfrentar a sujeira colada no verso.
Mas Costa-Gavras nos ensina outra lição: quando a justiça se curva, a democracia tropeça. Os golpistas de ontem e de hoje dependem, antes de tanques ou massas enfurecidas, da conivência das instituições. E se essa conivência vier disfarçada de anistia, melhor ainda. Porque nada é mais conveniente para o autoritário do que a certeza de que, ao final, sempre haverá um tapete vermelho para varrer seus crimes.
A ironia é que o Brasil adora frases feitas — “somos um povo pacífico”, “precisamos de união”, “é hora de olhar para frente”. Mas a história insiste em puxar o freio de mão. Sem punição exemplar, os arruaceiros de 8 de janeiro se tornam mártires de botequim, e Bolsonaro vira herói de capa e espada em grupo de WhatsApp. A anistia, nesse cenário, não é bálsamo; é gasolina despejada sobre o esqueleto ainda quente da democracia.

E aqui convém a provocação final: quem defende anistia não defende paz, defende poder. Quer a manutenção de um jogo em que os fortes nunca caem, apenas tropeçam. Costa-Gavras, com seu olhar corrosivo, já havia denunciado esse teatro em Z. O Brasil, em 2025, tem a chance de reescrever o roteiro — mas tudo indica que a tentação do “deixar pra lá” continua sedutora. Talvez, no fim, sejamos todos figurantes de um mesmo drama cíclico, onde a justiça entra em cena, declama belas falas, mas sempre sai de fininho antes do aplauso.
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