Sua Página
Fullscreen

Por que a pirataria não acabará?

Anúncios
Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

A cada nova operação policial — como a que recentemente derrubou mais de 30 serviços piratas a partir da Argentina — renova-se a esperança de que, quem sabe desta vez, o monstro seja abatido. Mas, como nos velhos mitos mediterrâneos, corta-se uma cabeça e nascem duas. O golpe argentino, que silenciosamente tirou do ar queridinhos da ilegalidade como My Family Cinema, TV Express e Eppi Cinema, foi celebrado como um duro baque no submundo do streaming clandestino. Para muitos usuários brasileiros, porém, significou apenas um sábado de fúria: acessos perdidos, reclamações aos montes, pedidos de reembolso em sites como o Reclame Aqui e um déjà-vu quase romântico — o fim repentino de mais um serviço pelo qual juravam amor eterno por R$ 20 mensais.

A Anatel, que desta vez ficou apenas nas arquibancadas observando a ação coordenada pela Aliança Contra a Pirataria Audiovisual, fez questão de lembrar: desde 2018, apreendeu 1,5 milhão de aparelhos ilegais e bloqueou milhares de IPs e domínios usados pelos famosos “TV boxes” — ou, como preferem nos botecos digitais do país, o velho e fiel “gatonet”. Mas a lógica parece funcionar como jardinagem ao avesso: quanto mais se poda, mais cresce.

“Enquanto isso, empresas como a Sky comemoram a eficácia das operações antipirataria — e elas de fato trazem resultados importantes. Mas o entusiasmo esbarra numa questão estrutural: a pirataria não é apenas um crime a ser combatido; é também uma resposta social a um modelo de negócios pouco adaptado à realidade latino-americana. É sintoma e consequência.”

O que chama atenção, além da magnitude do golpe, é a dissonância quase poética entre duas realidades. De um lado, instituições internacionais se unem para derrubar o colosso pirata sediado em Buenos Aires, com mais de 4,5 milhões de assinantes brasileiros — um número que não faria feio diante de muitas plataformas legítimas. De outro, milhões de pessoas que, ao apertarem “play” num filme recém-lançado, tendem a ver o preço de um serviço oficial como algo mais assustador que o próprio vilão do longa. Num país onde o salário mínimo mal cobre o básico, esperar que o consumidor banque cinco, seis ou sete serviços de streaming ao mesmo tempo, é quase um convite à rebeldia silenciosa.

A pirataria, afinal, não se alimenta apenas de má-fé: nutre-se de desigualdade, custo, conveniência e de uma indústria que insiste em se fragmentar até o absurdo. Como exigir fidelidade de um público que precisa assinar três plataformas para acompanhar uma única série? Ou que vê estreias pularem de um catálogo para outro como quem troca de sofá?

A Hidra Digital e o Brasil real

É nesse cenário que tecnologias como IPTV ganharam brilho — ou melhor, ganharam uma ambígua aura de modernidade. O conceito em si é legítimo: transmitir conteúdo televisivo pela internet, com qualidade e estabilidade, não é crime. O problema é que a sigla, nas esquinas virtuais, virou quase sinônimo de acesso irregular a canais premium, eventos esportivos e estreias cinematográficas. Enquanto isso, vendedores de TV boxes não certificados oferecem o paraíso por preços módicos, sem avisar que o pacote inclui portas abertas para hackers, invasões e ataques cibernéticos capazes de transformar a smart TV em um cavalo de Troia doméstico.

Leia ou ouça também:  "Liberdade, Liberdade": ambição vs opressão

A Anatel alerta, com razão, que esses aparelhos podem comprometer redes inteiras e interferir em dispositivos legítimos. Mas, cá entre nós, quantos brasileiros pensam em cibersegurança quando o pacote promete Champions League, novelas, filmes recém-saídos do forno e 2 mil canais por menos do que o valor de um sanduíche gourmet?

O fato é que a pirataria prospera onde a economia formal tropeça. Em média, uma família que queira ser “honesta” e consumir conteúdo de maneira 100% legal paga facilmente mais de R$ 200 por mês em serviços fragmentados. Isso em um país onde grande parte da população ainda negocia troco, faz malabarismo para fechar o mês e vê o entretenimento como um dos poucos respiros possíveis.

Enquanto isso, empresas como a Sky comemoram a eficácia das operações antipirataria — e elas de fato trazem resultados importantes. Mas o entusiasmo esbarra numa questão estrutural: a pirataria não é apenas um crime a ser combatido; é também uma resposta social a um modelo de negócios pouco adaptado à realidade latino-americana. É sintoma e consequência.

A pergunta certa, portanto, não é “como acabar com a pirataria?”, mas “como tornar o consumo legal mais acessível, unificado e racional?”. Enquanto a indústria continuar vendendo pedaços isolados de um quebra-cabeça caro, o Brasil continuará buscando alternativas. E enquanto houver desigualdade e excesso de plataformas disputando migalhas do mesmo bolso esvaziado, a pirataria seguirá viva, resiliente, reinventada — uma hidra digital que, por mais golpes desferidos, insiste em renascer.

My Family Cinema, TV Express, Eppi Cinema foram retiradas do ar recentemente (Foto: Wiki)
My Family Cinema, TV Express, Eppi Cinema foram retiradas do ar recentemente (Foto: Wiki)

No fim das contas, não se trata de um combate entre mocinhos e vilões, mas de um descompasso entre mundos. E, nesse descompasso, a pirataria continuará sendo, para milhões, não a opção correta — mas a única possível.


Compartilhe este conteúdo com seus amigos. Desde já obrigado!

Facebook Comments

Anúncios
Acessar o conteúdo
Verified by MonsterInsights