A ascensão e queda de Robert Evans
Hollywood gosta de mitos porque eles ajudam a disfarçar a planilha. Robert Evans foi um desses mitos fabricados à força de carisma, apostas altas e uma convicção quase patológica de que ele sabia mais do que todo mundo — e, por um bom tempo, soube mesmo. Antes de virar o produtor lendário de O Poderoso Chefão, Evans foi vendedor de lingeries, ator de segunda linha e figurante do próprio destino. Um sujeito que começou vendendo seda íntima e terminou decidindo o que o mundo veria nas telas grandes. Poucos trajetos dizem tanto sobre a indústria quanto esse.
Evans nunca teve cara de coadjuvante, ainda que tenha sido um. Seu breve flerte com a atuação revelou mais pose do que talento, mais presença do que método. Não deu certo, mas serviu de treino. Ele aprendeu cedo que Hollywood não é sobre o que você faz, mas sobre o que consegue convencer os outros de que faz. Quando migrou para os bastidores, levou consigo esse aprendizado como um manual não escrito. Era vaidoso, teatral, exagerado — e, curiosamente, eficaz.
“Robert Evans talvez não fosse um gênio no sentido clássico, mas foi um catalisador. Ele entendeu, antes de muitos, que o cinema americano precisava se reinventar para sobreviver. Fez isso com estilo, ego e imprudência. Caiu como caem os grandes personagens: não por falta de talento, mas por excesso de si.”
Na Paramount, durante os anos 1960 e início dos 1970, Evans se comportou como um imperador romano cercado por artistas neuróticos e executivos covardes. Apostou em projetos que pareciam suicídio financeiro e transformou risco em prestígio. O Poderoso Chefão quase não aconteceu como conhecemos: o estúdio hesitava, os engravatados desconfiavam, o elenco era contestado. Evans bancou. E quando bancou, redefiniu Hollywood. Não apenas pelo filme em si, mas pela ideia de que o produtor podia ser uma figura autoral, quase tão decisiva quanto o diretor.
Esse mesmo instinto apareceu em O Bebê de Rosemary, outro marco incontornável de sua carreira. Evans não apenas produziu o filme como atuou, nos bastidores, como uma espécie de guia — ou domador — da mente inquieta de Roman Polanski. Soube dar liberdade ao diretor sem perder o controle do projeto, um equilíbrio raríssimo. Também foi peça-chave no incentivo à carreira de Mia Farrow, então à beira de abandonar Hollywood e ainda ligada ao gigantesco Frank Sinatra. Evans apostou nela quando muitos duvidavam, ajudando a transformar Farrow em um ícone de inquietação e fragilidade moderna no cinema.
O império, a mansão e o tombo
A vida pessoal, porém, tratou de sabotar a lenda com eficiência dramática. Evans se casou com Ali MacGraw no auge do brilho, como se estivesse encenando mais um capítulo de sua própria mitologia. O casamento terminou de forma ruidosa, com MacGraw partindo para os braços — e o imaginário — de Steve McQueen. Hollywood adora essas ironias: o homem que controlava narrativas milionárias não conseguiu controlar a própria.
As quedas vieram como costumam vir em Hollywood: silenciosas no início, humilhantes no fim. Escândalos, excessos, decisões ruins e uma indústria que muda mais rápido do que perdoa empurraram Evans para fora do centro do poder. Ele perdeu sua mansão — aquela que simbolizava não apenas riqueza, mas pertencimento ao Olimpo hollywoodiano. O detalhe mais revelador não é a perda, mas o gesto seguinte: Jack Nicholson comprou a casa e a devolveu a Evans. Um ato de amizade rara, quase anacrônica, num meio onde gratidão costuma ter prazo de validade curto.
Esse episódio diz mais sobre Evans do que qualquer prêmio. Ele podia ser insuportável, mas era respeitado. Podia ser arrogante, mas era generoso com talento. Havia nele algo que artistas reconheciam: a disposição de comprar brigas para que boas histórias existissem. Isso não o absolve de excessos, mas explica por que tantos o toleraram — e alguns o admiraram sinceramente.
Os derrames que sofreu anos antes da morte foram cruéis e simbólicos. Afetaram sua fala e mobilidade, justamente os instrumentos de um homem que viveu de presença e voz. Hollywood, que celebra a juventude eterna na tela, não soube muito bem o que fazer com um produtor envelhecido, limitado, fora de cena. Evans virou uma relíquia viva, lembrada mais pelo passado do que pelo presente.

Sua morte, em 2019, encerrou um ciclo que já estava fechado há décadas. Robert Evans talvez não fosse um gênio no sentido clássico, mas foi um catalisador. Ele entendeu, antes de muitos, que o cinema americano precisava se reinventar para sobreviver. Fez isso com estilo, ego e imprudência. Caiu como caem os grandes personagens: não por falta de talento, mas por excesso de si. Em Hollywood, isso é quase uma regra não escrita — e Evans a seguiu à risca.
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