Anxiety: Doechii by Gotye by Luiz Bonfá
Em tempos de colagens sonoras e identidade líquida, poucos lançamentos de 2025 resumem tão bem o espírito de pastiche cultural quanto Anxiety, o hit tardio da rapper e cantora americana Doechii. A música, lançada em 2024, viralizou apenas agora, surfando nas plataformas e acumulando mais de 40 milhões de visualizações no YouTube — entre curtidas e, sobretudo, críticas ácidas. Há quem diga que ela é o som de uma geração sufocada pela hiperexposição e pela angústia digital; outros preferem uma abordagem mais direta: “Eu não forçaria meu pior inimigo a ouvir isso”, escreve um internauta com brutal honestidade nos comentários.
É uma obra que parece destinada a polarizar. Começa pela composição da faixa: Anxiety parte de um sample extraído de Somebody That I Used to Know, de Gotye (2011), que por sua vez usava a melodia de Seville (1967), do violista brasileiro Luiz Bonfá. A cadeia de empréstimos forma uma espécie de árvore genealógica sonora: Bonfá é o bisavô melódico, Gotye o pai pop, e Doechii a filha angustiada — nascida na era dos algoritmos e das playlists que mudam a cada minuto. Essa herança musical cruzada tem mais de mashup do que de homenagem. É intertextualidade em tempo real, ou talvez apenas um palimpsesto digital mal costurado.
“Sua música pode ser difícil de ouvir, mas também é difícil de ignorar. Mesmo quem detesta Anxiety precisa admitir: ela é o retrato do agora.”
Mas o incômodo não vem apenas da genealogia sonora. O que chama atenção — e provoca arrepios ou suspiros, dependendo do ouvinte — é o contraste entre a base sofisticada (cortesia de Bonfá) e a letra hipersaturada de imagens caóticas, confissões ansiosas e metáforas sobre sexo, dinheiro, vigilância e colapso psicológico. A primeira estrofe já dá o tom: “A ansiedade continua me testando / Eu sinto ela silenciosamente tentando me calar.” Versos que poderiam soar confessionais ganham um ar quase performático, beirando o teatral.
A ansiedade, nesse caso, não é mais uma patologia silenciosa, mas um personagem pop, com direito a refrão chiclete e videoclipe com filtros saturados.
Ansiedade pop ou exploração estética?
O que Doechii entrega aqui é uma síntese de muitas Doechiis. É a artista de performance, a poetisa urbana, a mulher negra em conflito com a indústria e consigo mesma, tudo mediado por beats que alternam entre o trap melódico e o pop sintético de gosto duvidoso. Em termos de produção, Anxiety é irretocável — o som é polido, a mixagem é perfeita, e os efeitos vocais estão no ponto exato entre distorção e estilo. O problema, para muitos, está justamente nessa perfeição plástica: há algo de genérico, de excessivamente calculado, que tira a espontaneidade da dor descrita.
Por outro lado, seria simplista ignorar o poder da faixa. O refrão é hipnótico e tem tudo para se tornar uma eterna trilha sonora de vídeos no TikTok, Reels e afins — cada “Anxie—oh” já parece pensado para dancinhas coreografadas ou transições dramáticas. A canção, com toda sua ansiedade estética e temática, também vira produto. E esse talvez seja seu maior triunfo e sua maior tragédia: transformar sofrimento em espetáculo, melancolia em algoritmo.
Não é a primeira vez que artistas pop exploram a saúde mental como matéria-prima para hits. Billie Eilish, Halsey, e até mesmo Kanye West já fizeram isso com doses variadas de honestidade e autopromoção. Mas Doechii radicaliza a tendência ao fazer da ansiedade um loop sem fim — não só musicalmente, mas existencialmente. O mantra “não consigo me livrar dela” se repete até o esgotamento, como se a própria música estivesse presa numa crise de pânico.
Apesar das críticas — algumas válidas, outras movidas pelo purismo musical —, Doechii acerta ao traduzir o espírito de uma era marcada pelo colapso constante e pela busca desesperada por significado. Sua música pode ser difícil de ouvir, mas também é difícil de ignorar. Mesmo quem detesta Anxiety precisa admitir: ela é o retrato do agora.

O sucesso da faixa diz mais sobre o público consumidor do que sobre a sagaz artista. Vivemos tempos em que emoções são externalizadas em HD, e o sofrimento precisa ser esteticamente embutido para ter relevância. Nesse contexto, Doechii não criou apenas uma música: criou um espelho. E como todo bom espelho, ele pode distorcer, mas também revelar.
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