L’Ami du peuple: uma lâmina revolucionária
Há jornais que informam, há jornais que opinam e há jornais que sangram. L’Ami du peuple, criado e escrito majoritariamente por Jean-Paul Marat a partir de 1789, pertence decididamente à terceira categoria. Não era um periódico no sentido moderno, mas um panfleto incendiário, irregular, obsessivo e perigosamente eficaz. Sua leitura não confortava: feria. Seu objetivo não era explicar a Revolução Francesa, mas empurrá-la adiante, mesmo que aos solavancos, mesmo que a golpes de faca retórica.
Marat, médico, cientista frustrado e revolucionário convicto, escrevia como quem luta corpo a corpo. Cada edição parecia redigida com o punho cerrado. L’Ami du peuple não tinha a elegância dos salões nem a prudência dos moderados; tinha a raiva dos becos, o medo dos traídos e a certeza de que a revolução, se cochilasse, seria degolada pelos próprios inimigos. Marat falava diretamente ao “povo”, esse conceito amplo, volátil e convenientemente invocado, como se fosse um velho camarada de trincheira.
“Do ponto de vista editorial, L’Ami du peuple desafia qualquer noção confortável de ética jornalística. Não havia checagem rigorosa, contraditório ou preocupação com consequências individuais. O interesse coletivo — definido pelo próprio autor — justificava tudo. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu impacto histórico.”
O jornal tornou-se rapidamente uma das vozes mais temidas de Paris. Marat acusava ministros, deputados, generais e até colegas revolucionários de traição com uma desenvoltura que faria corar qualquer colunista contemporâneo. Não havia meio-termo: ou se estava com o povo, ou se estava contra ele. A nuance, para Marat, era uma forma disfarçada de conspiração. O resultado foi um texto que misturava denúncia, delírio, lucidez política e paranoia numa mesma página, sem pedir licença.
Mas seria um erro reduzir L’Ami du peuple a um mero panfleto histérico. O jornal captava, com precisão desconfortável, o clima de medo e instabilidade de uma França em ebulição. A fome rondava, o Antigo Regime conspirava nas sombras e a recém-nascida Assembleia Nacional parecia, muitas vezes, mais preocupada consigo mesma do que com os sans-culottes. Marat vocalizava uma desconfiança popular que já existia — ele apenas lhe deu megafone, faca e assinatura.
O jornal como arma e como espelho
L’Ami du peuple não informava para esclarecer, mas para mobilizar. Cada denúncia vinha carregada de urgência, como se o atraso de um dia pudesse custar a cabeça da Revolução — literalmente. O jornal ajudou a legitimar a ideia de que a violência preventiva era não só aceitável, mas necessária. Antes matar o traidor em potencial do que lamentar a derrota depois. Essa lógica atravessou a Revolução e desembocou, sem muita surpresa, no Terror.
Há algo de profundamente moderno — e assustadoramente atual — nesse tipo de jornalismo. Marat escrevia como quem acredita que a palavra pode substituir o tribunal, a manchete pode valer mais que a prova, e a repetição transforma suspeita em verdade. O inimigo precisava ser nomeado, exposto, isolado. O povo, supostamente soberano, era convocado a julgar e, se preciso, a punir. Não à toa, L’Ami du peuple foi tanto lido quanto temido.
A perseguição a Marat foi constante. Ele escrevia escondido, mudava de endereço, imprimia edições clandestinas. Quanto mais era caçado, mais seu jornal ganhava aura de verdade proibida. O mártir em potencial se tornava ainda mais convincente. Quando finalmente foi assassinado por Charlotte Corday, em 1793, Marat já havia se transformado em símbolo. Seu jornal morreu com ele, mas sua lógica sobreviveu.
Do ponto de vista editorial, L’Ami du peuple desafia qualquer noção confortável de ética jornalística. Não havia checagem rigorosa, contraditório ou preocupação com consequências individuais. O interesse coletivo — definido pelo próprio autor — justificava tudo. Ao mesmo tempo, é impossível negar seu impacto histórico. Marat não foi apenas um comentarista da Revolução; foi um de seus motores emocionais.
Hoje, olhar para L’Ami du peuple é encarar um espelho pouco lisonjeiro. Ele nos lembra que a imprensa pode ser instrumento de emancipação, mas também de radicalização. Pode denunciar injustiças reais e, no mesmo gesto, fabricar monstros. Marat acreditava sinceramente estar do lado certo da História. Talvez estivesse. Talvez não. O fato é que sua lâmina de papel cortou fundo — e as cicatrizes ainda são visíveis sempre que a palavra se confunde com sentença.

No fim, L’Ami du peuple não foi apenas o jornal de Marat. Foi o retrato cru de uma Revolução que não sabia — e talvez não quisesse — falar baixo.
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