Os Miseráveis: espólio cultural da Terra
Há livros que envelhecem; Os Miseráveis, de Victor Hugo, envelhece como catedral: ganha rachaduras, pátina e autoridade. Publicado em 1862, o romance continua circulando pelo mundo como se tivesse sido escrito ontem à noite, numa Paris com Wi-Fi precário e consciência social em modo avião. Poucas obras literárias conseguiram atravessar séculos mantendo a capacidade de incomodar, emocionar e provocar debates morais tão atuais. Não é apenas um clássico: é uma espécie de documento civilizatório.
Victor Hugo não escreveu um romance “enxuto”. Pelo contrário, escreveu um monumento verbal. Há digressões intermináveis sobre esgotos, batalhas, conventos e revoluções fracassadas. O leitor moderno, apressado e treinado por timelines, pode reclamar. Mas essas aparentes “barrigas” são parte do projeto: Hugo queria mostrar que a miséria não é episódica, é estrutural; não é um personagem, é um sistema. Ler Os Miseráveis exige fôlego — e talvez seja esse o primeiro ensinamento ético do livro: compreender a injustiça dá trabalho.
“A permanência do livro no imaginário popular, reforçada por adaptações teatrais, cinematográficas e musicais, prova que sua força não depende apenas da erudição. Os Miseráveis fala com o leitor comum, com o estudante, com o indignado e até com o cínico. Há algo de profundamente popular em sua indignação moral, quase folhetinesca, mas isso não diminui sua densidade intelectual.”
No centro da narrativa está Jean Valjean, condenado a anos de prisão por roubar um pão. Um pão. A frase parece piada pronta em tempos de escândalos bilionários, mas é justamente aí que o romance finca sua bandeira. Valjean encarna a pergunta que atravessa todo o livro: até que ponto a lei pode ser justa quando ignora a miséria humana? Hugo não absolve crimes, mas desmonta a hipocrisia de um sistema que pune a pobreza com rigor e protege o privilégio com verniz moral.
O antagonismo entre Valjean e o inspetor Javert é um dos grandes embates filosóficos da literatura. Javert não é um vilão caricato; é a lei em forma de homem, inflexível, literal, quase mecânico. Ele não persegue Valjean por sadismo, mas por convicção. E é justamente isso que o torna assustador. Hugo antecipa debates que hoje dominam tribunais, universidades e redes sociais: justiça é cumprir regras ou reconhecer contextos? A resposta, no romance, não vem em forma de tese, mas de tragédia.
Um romance que não pede licença ao presente
Além dos personagens centrais, Os Miseráveis constrói um vasto coro de excluídos: Fantine, esmagada pela moral hipócrita; Cosette, explorada sob o disfarce de tutela; os estudantes revolucionários, idealistas até o sacrifício; os pobres anônimos, sempre à margem do progresso. Hugo não romantiza a miséria — ele a escancara. Há lirismo, sim, mas há também sujeira, dor e contradição. É um livro que se recusa a ser confortável.
Politicamente, o romance é um tapa de luva grossa. Hugo critica o Estado, a Igreja, a burguesia satisfeita e a indiferença coletiva. Faz isso sem panfletarismo rasteiro, mas também sem neutralidade covarde. Em tempos em que a palavra “engajamento” é usada tanto para vender livros quanto para esvaziá-los, Os Miseráveis lembra que literatura pode — e talvez deva — tomar partido. Não de governos, mas de princípios.
A permanência do livro no imaginário popular, reforçada por adaptações teatrais, cinematográficas e musicais, prova que sua força não depende apenas da erudição. Os Miseráveis fala com o leitor comum, com o estudante, com o indignado e até com o cínico. Há algo de profundamente popular em sua indignação moral, quase folhetinesca, mas isso não diminui sua densidade intelectual. Pelo contrário: é justamente essa mistura que o torna explosivo.

Chamar Os Miseráveis de patrimônio cultural da Terra não é exagero retórico. É reconhecer que ali estão condensadas perguntas fundamentais sobre justiça, dignidade, redenção e responsabilidade social. Enquanto houver desigualdade naturalizada, leis desiguais e discursos elegantes para justificar a exclusão, Victor Hugo continuará atual — o que, convenhamos, é uma vitória literária e um fracasso coletivo. Afinal, se o livro ainda faz tanto sentido, talvez o mundo é que esteja demorando demais para aprender a lição.
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